Uso abusivo de glifosato mata

Catarina Dias, Médica Internista, aponta valores registados nos últimos anos. Ainda há autarquias que usam a substância. Machico e Santa Cruz ponderam comprar equipamento para combate com água quente

24 Mai 2017 / 02:00 H.

“Na Região houve um aumento de 32% do número de casos de tumores de 2001 a 2007 comparativamente ao período de 2008 a 2014 e o uso abusivo de pesticidas na nossa agricultura pode ser uma das razões”. Esta é a opinião de Catarina Dias, Médica Internista.

A especialista dá o alerta, recordando que o glifosato já foi “associado a várias doenças como o autismo, doenças autoimunes, cancro, doenças de Parkinson e Alzheimer, doença inflamatória intestinal, doença cardiovascular, depressão e infertilidade”.

A discussão vem agora à tona justamente pelo facto da Comissão Europeia propor recentemente a renovação por 10 anos da autorização da substância herbicida glifosato, usado pelos agricultores e pelos serviços públicos para exterminarem as ervas daninhas.

Ora Catarina Dias volta a recordar que foi publicado um estudo pela ‘Swanson et al’ que “mostra a correlação entre o uso de glifosato nas plantações de soja e milho, nos EUA e o aumento do autismo no mesmo período”. Diz ainda que após anos a fio, a ingerir alimentos contaminados com glifosato “não espanta que o nosso organismo sofra alterações para se adaptar à exposição crónica por esta toxina”.

E diz mais: “As células começam a acumular “erros” de funcionamento podendo mesmo culminar numa proliferação descontrolada, originando tumores”. “É fundamental eliminar este e todos os herbicidas que possam estar a contaminar os alimentos que ingerimos e privilegiar uma alimentação cuidada, proveniente de produção biológica, devidamente certificada e controlada pelas entidades competentes, respeitando a Natureza e o que ela nos dá, em cada época”.

O glifosato é um herbicida não seletivo, desenvolvido e criado pela Monsanto nos anos 70 para secar as ervas daninhas e tornou-se muito popular entre os agricultores por poderem usar este produto, sem danificar as suas culturas.

“Só em Portugal existem mais de 20 marcas comercializadas, sendo o mais conhecido o Roundup, e na última década a sua utilização aumentou em 50%, cerca de 1.400 toneladas só em 2015”. Catarina Dias diz ser “um herbicida detectado em análises de rotina a alimentos, água da chuva, ar urina, sangue e até em leite materno”.

Garante que o glifosato “inibe uma enzima vegetal, envolvida na síntese de três aminoácidos aromáticos: a fenilalanina, o triptofano e a tirosina, essenciais às plantas em crescimento. A Monsanto alega que este mecanismo ocorre apenas nas plantas e não nos animais ou humanos mas... não é verdade: esta via está presente nas bactérias que vivem no nosso intestino e que são fundamentais para o seu normal funcionamento”, atesta.

Ronda pelas autarquias

A Câmara Municipal do Funchal, através do Departamento de Ambiente, abdicou, desde há alguns meses, do uso de herbicidas em prol do ambiente e da saúde pública. O glifosato, segundo a Quercus, é o herbicida mais utilizado em Portugal, sendo uma substância que“ representa um grande perigo quer para a saúde pública, por ser considerada uma substância cancerígena, quer para o ambiente pelo facto de ter uma degradação muito lenta”

Actualmente, a manutenção realizada nas bermas e passeios pela CMF, é feita através da monda mecânica ou manual pelos cerca de 30 trabalhadores encarregues de fazer a monotorização e controlo de espécies infestantes por meios mecânicos em espaços públicos. Os trabalhadores também limpam os terrenos públicos camarários, de modo a mantê-los limpos durante todo o ano, mas em especial durante esta época para evitar a proliferação de roedores e prevenir incêndios. A CMF recorre a métodos alternativos para que o crescimento das ervas seja mais lento, evitando assim o recurso a herbicida.

Câmaras que usam

De qualquer modo, na ronda que efectuamos, Santana, Machico e Ribeira Brava admitiram que ainda usam esta substância tóxica. Todos os autarcas disseram que tentam diminuir as doses, todavia as muitas veredas e a falta de recursos humanos não dão margem para fazer a monda manual .

Por seu turno, o presidente da delegação regional da Associação de Nacional de Freguesias (ANAFRE) lembra que a recomendação que as juntas possuem é para que não utilizem este composto químico que leva muitas dúvidas quanto aos malefícios para a saúde. “Se alguma estiver a usar estarão a desrespeitar a legislação”, expressa. Muitas vezes estas pequenas autarquias foram acusadas de usarem o herbicida sem qualquer tipo de controlo. Rui Santos dá o exemplo das autarquias do concelho do Funchal que passaram a não deitar este veneno nas ervas daninhas.

Por outro lado, Machico e Santa Cruz ponderam a aquisição de um equipamento que elimina as ervas das bermas das estradas através de combate usando água quente. Trata-se de um modelo recente que não nocivo.

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