Zona Vip | Entrevista: Mercado da literatura está em baixa

14 Abr 2013 / 02:00 H.

Apaixonou-se cedo pelo mundo dos livros e aos oito anos escreveu a sua primeira história. Patrícia Reis falou à MAIS sobre a sua ligação ao jornalismo, sobre o estado da literatura em Portugal e sobre o seu mais recente livro, 'Contracorpo'.

Começou cedo,  a ligação de Patrícia Reis com os livros e com a literatura. Talvez por isso, quando chegou a altura de escolher uma profissão apenas uma parecia fazer sentido. Patrícia escolheu ser jornalista e assim foi. Em 1988 começou a carreira no Independente. Depois passou pela Sábado, Time,  Expresso, Marie Claire, Elle, Público e finalmente pela Egoísta, da qual foi editora. Mas o jornalismo não matou o bichinho da literatura. Patrícia continuou a escrever e continua a fazê-lo e já publicou vários livros. O seu mais recente livro, 'Contracorpo', chegou em Março às livrarias.

Começou como jornalista. Passou porvários órgãos de comunicação como o Independente, a Time e a Egoísta. De que forma é que o jornalismo a levou para a literatura?
O jornalismo não me levou para a literatura. Foi ao contrário. Apaixonei-me pelos livros mal comecei a ler e devorava tudo de forma compulsiva. Assim que me foi possível imaginar as minhas histórias, não hesitei e, por isso, sempre soube que teria de arranjar uma profissão que me permitisse fazer o que mais gosto: escrever. O jornalismo deu-me uma técnica que, de outra forma, não teria e irei olhar o mundo como jornalista para o resto da minha vida. É um bicho que se instala. No entanto, acredito que a ficção não é influenciada por esse meu lado.

A relação entre a escrita jornalística e a escrita literária foi natural para si?
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Nos jornais aprendi a condensar, a digerir o que era importante, a perceber as prioridades das informações. Na literatura o terreno é todo meu, é uma forma de colocar por escrito a minha história e não o que acontece no mundo.

Como é que surgiu o primeiro livro, a primeira história?
A primeira história escrevi com oito anos e nunca foi publicada. Felizmente. Assim como tive uma fase em que lia os poetas e as poetisas e experimentei e nunca o deveria ter feito. Não sou uma poetisa. O primeiro livro a ser publicado, em termos de ficção, chama-se "Cruz das Almas" e levou quase doze anos para chegar à sua forma final. Foi um livro atribulado.

Considera-se mais jornalista ou escritora?
Depende da situação. Uma pessoa não é apenas isso, escritora ou jornalista. No meu caso, sou empresária, mãe, mulher, filha, amiga. Somos muitas coisas dentro de um só.

As mulheres escritoras ainda são muito conotadas com um género 'light' da literatura. Acha que há quem a coloque nesse campo?
Se existir essa noção de leveza face ao que eu escrevo é um entendimento tão válido quanto outro. Apesar disso, não posso concordar com a sua afirmação: Lídia Jorge, Luísa Costa Gomes, Inês Pedrosa, Maria Manuel Viana, Maria Teresa Horta, Agustina Bessa-Luís, Ana Luísa Amaral, Teolinda Gersão são mulheres. São light? Não me parece. 

Os seus livros têm muitas vezes Lisboa como cenário. Porquê?
Eu sou alfacinha, nasci em plena avenida da República e escrevo sobre o que conheço. Quando estava a fazer pesquisa para o livro "No silêncio de Deus", fui a Israel, a Amesterdão. Para o "Contracorpo" voltei a Santiago de Compostela e a outras paragens. Preciso de sentir os sítios.

Do cenário pós-apocalíptico de 'Por este mundo acima', mostra-nos agora um cenário intimista da relação difícil entre uma mãe viúva e um filho adolescente. Como é que surgem inspirações tão diferentes como estas?
Serão assim tão diferentes? E a sua pergunta seria a mesma para um autor, digamos, como José Saramago? O Memorial do Convento e o Ensaio sobre a Cegueira são ficções em tudo diferentes. O que as une? Um escritor, a voz distinta de um escritor. Cada um escreve sobre o que o atormenta no momento, sobre o que é mais importante na sua vida, assimila as interrogações que tem e escreve, como diz Agustina Bessa-Luís, para incomodar o mundo.

A Patrícia é também mãe. Acha que todas as relações entre pais e filhos adolescentes são difíceis, quase tortuosas por vezes?
Todos os processos de crescimento são complicados e podem ser mais ou menos, dependendo das famílias. Nunca é fácil assumir a maternidade, que implica a cedência de uma parte da nossa identidade por existir alguém que depende exclusivamente de nós, e depois assistir ao seu crescimento e à vontade de autonomia e privacidade. Quando eu era adolescente não via as coisas assim. Agora vejo. E vejo os meus filhos e os amigos dos meus filhos exigirem fazer o seu caminho. Não lhes levo a mal, compreendo, fiz o mesmo. Mas custa vê-los ir, não posso dizer que não.

Foi uma adolescente difícil?
Não sei. Talvez tenha sido uma adolescente atípica, sempre enfiada nos livros e nos cadernos a escrevinhar, com poucos namorados e uma grande vontade de conhecer mundo. A minha mãe diz que andei "de trombas" uma temporada. Eu acredito na palavra dela.

Este livro poderá ser como que um manual para outros pais ou, quem sabe, para outros filhos?
Este livro é uma ficção, não é um manual e nunca deverá ser entendido assim. Um romance é um cenário que inventamos. Vergílio Ferreira dizia que um romance é um biombo atrás do qual a gente se despe. Não há manuais para pais e filhos escritos por alguém como eu, não tenho nem as qualificações, nem a vocação.

E agora, projectos para o futuro? Mais livros, continuar no jornalismo?
O futuro a Deus pertence, não é o que dizem? Tenho uma empresa, o atelier 004, por isso dedico-me a ter ideias, a fazer exposições, conteúdos, livros, webdesign e outras tantas coisas. Divirto-me imenso e trabalho só com gente boa, o que nos dias de hoje é um privilégio. Também sofro, já que ser empresário em Portugal é um acto de masoquismo quando não temos uma almofada financeira sólida.

É difícil viver só da literatura em Portugal?
Ninguém vive da literatura em Portugal a não ser que venda muito e, neste momento, o mercado está em baixa. Os escritores têm crónicas, programas de rádio, dão aulas, foram qualquer outra coisa e têm uma reforma. A literatura não depende do dinheiro. Nunca pode ser entendida assim.

Nome Patrícia Reis
Profissão Escritora/Jornalista
Idade 43
Fulana por ela mesma "Cada um escreve sobre o que o atormenta no momento, sobre o que é mais importante na sua vida"

'Contracorpo' nas livrarias
O mais recente livro de Patrícia Reis, intitulado 'Contracorpo', tem como personagem principal uma mulher fica viúva com dois filhos. Alguns anos depois da morte do marido, a vida não se refez e o filho mais velho, agora adolescente, cresce contra a mãe, num silêncio obstinado que só quebra nas histórias que se conta para adormecer e nos desenhos que faz de forma compulsiva. Com o anúncio do chumbo escolar, a mãe decide, sem grandes reflexões, fazer uma viagem com este filho, deixando o pequeno com os avós. Não se trata de uma viagem com destino, mas antes uma procura.

'Contracorpo' é um livro contra o silêncio e sobre o silêncio. É uma história de procura de identidades distintas - da mulher e do quase homem - e ainda de descobertas. Uma mãe nunca é o que se espera. Um filho é sempre uma surpresa. O encontro dá-se enquanto procuram caminhos, de Lisboa a Roma, num jogo de claro escuro. Como se tudo fosse uma imagem.

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