Eleições

Votar contra Lisboa mesmo debaixo de fogo

12 Mai 2007 / 16:11 H.

Na década de 80 do século XIX, a Madeira votou contra o conservadorismo lisboeta, apesar de a táctica central ser mais perigosa do que uma 'Lei de Finanças das Regiões Autónomas'. Houve mortos, feridos, presos.

O povo da Madeira montou a crista da onda e de nada valeu a intimidação feita de Lisboa para cá: o chefe do Governo de Portugal, o conservador Fontes Pereira de Melo, fazia tudo para que o Distrito do Funchal elegesse como seu representante nas cortes o candidato do governamental Partido Regenerador; o eleitorado do Distrito espantou o País escolhendo o republicano açoriano Manuel de Arriaga, candidato pela Madeira.
Semanas antes, quando o deputado que representava o Funchal, o madeirense Luís de Freitas Branco, morreu a meio do mandato - estava-se em 1882 -, a crise económico-social extremava-se na Madeira. Em Lisboa, continuava a desenvolver-se o 'fontismo', política de obras públicas que fazia alastrar estradas e caminhos-de-ferro pelo Continente, rede de transportes terrestres e marítimos, a rede telefónica. Por cá, o povo continuava analfabeto, faminto e a trabalhar as terras de fidalgos que não punham pé no campo a não ser para recolher as receitas que aplicavam em grandes viagens e folganças na corte lisboeta, ao mesmo tempo que as nutridas receitas do porto do Funchal e os impostos eram canalizados exactamente para o estômago da florescente política regeneradora do fontismo. Como os Açorianos andavam descontentes, foi naturalmente ao Funchal que Lisboa veio buscar as verbas que tinham escapado ao saque do erário para concluir as obras do porto da Horta, Faial. A situação madeirense não deixava alternativa aos homens que não a emigração por conta de engajadores sem escrúpulos que proporcionavam viagens para o desconhecido em barcaças impróprias para bestas.
'Vilões' dão lição a Lisboa


Depois de uma primeira volta ganha sem maioria absoluta pelo regenerador Anselmo José Braamcamp, o povo madeirense voltou às urnas em 26 de Novembro de 1882. Nesta altura, o espírito republicano na Madeira tomava conta de campesinos e comerciantes, em revolta contra o centralismo incentivado pela monarquia. Lisboa queria a todo o custo evitar que Manuel Arriaga vencesse Braamcamp. O navio de guerra 'Estefânia' foi mandado para águas madeirenses, a ver se condicionava pelo medo o eleitorado. Resultou ao contrário: não só a cidade do Funchal carregou de votos o candidato Manuel Arriaga como em algumas zonas rurais - Gaula, Caniço e sobretudo Ribeira Brava e Ponta do Sol - os párocos e caciques locais não foram escutados, contra o habitual.
O País espantou-se. Ramalho Ortigão, com a sua mordacidade, arrasou o governo que teve a ideia de mandar marinheiros para a Madeira. Rafael Bordalo Pinheiro ganhou matéria para diversos números da sua publicação sarcástica 'O António Maria' (primeiros nomes do chefe do Governo Fontes Pereira de Melo), não se abstendo mesmo de incentivar o 'Zé Povinho' do continente a seguir o exemplo corajoso do 'Vilão' madeirense.
Manuel Arriaga cumpriu, no meio mandato que faltava para o termo da legislatura, a promessa feita na eleição intercalar de defender os interesses da Madeira nas Cortes. Sem sucesso, dado o centralismo de sempre. Mas o povo da Madeira não desprezava o seu trabalho corajoso, como lho demonstrou na visita que fez à ilha em 1883: uma estada triunfal do deputado 'madeirense'.
Entretanto, a reacção apressou-se a montar um sistema de modo a pôr fim à representação republicana da Madeira em Lisboa, para isso arranjando mesmo um governador 'apropriado'. As eleições de 1884 resultariam em tragédia. Os testas-de-ferro da situação insular, comandados por autoridades colocadas cá pelo poder central, engendraram o controlo preventivo do eleitorado e uma forma de 'arredondamento' na contagem dos votos. A tarefa eleitoral dos regeneradores era difícil, dada a popularidade de Arriaga, pelo que todos os expedientes seriam úteis.
Um delegado do MP pelas lombadas


A campanha eleitoral, em Junho de 1884, deixou todas as certezas do que estava para chegar. A tensão tomou conta de toda a Madeira, com mais efervescência na Ribeira Brava e na Ponta do Sol. Conforme seria denunciado mais tarde em tribunal, o próprio procurador régio, delegado do Ministério Público da comarca da Ponta do Sol, Bernardo Andrade, rapaz solteiro que passava parte do tempo nos copos e a seduzir as moçoilas da zona, andou na última semana de campanha - 22 a 29 de Junho de 1884 - pela Lombada e outros sítios a espancar republicanos e a intimidar os eleitores que desconfiasse serem adeptos de Manuel de Arriaga. Curiosamente, costumava instigar os colonos a lutarem pela 'Lei do Terço' - que dava duas partes dos produtos da terra para o colono e uma para o senhorio e estaria cativa nas gavetas oficiais, à espera de entrar em vigor.
Percebia-se, contudo, que o povo estava decidido a reeleger Arriaga. Assim, no dia eleitoral, a assembleia de voto da Ponta do Sol não havia maneira de entrar em funcionamento, porque a administração queria evitar a votação. O povo armou-se de pau e desceu à vila para exigir a abertura das urnas, gerando-se um ambiente de confrontação entre monárquicos e republicanos.
À mesma hora, o clima político na Ribeira Brava era ainda pior. O facto de ser dia de S. Pedro concentrara mais povo na Baixa da vila. A versão do advogado José de Castro, constante do seu opúsculo 'As Vítimas d'El Rei', é esclarecedora quanto ao trabalho do piquete reaccionário que fazia 'guarda' à assembleia de voto, com os seguintes elementos: o famoso 'Saccaloiros', ou seja, António Gonçalves Neto, que era cura da Calheta; Francisco Manuel de Sousa, vigário da Ribeira Brava; António da Silva Pereira, oficial de diligências; e Tomé António de Macedo, escrivão judicial e nesse dia presidente da mesa eleitoral. Diz o dr. José de Castro que os quatro figuraços 'introduziram por várias vezes ilegalmente na urna eleitoral três e mais listas quando só um eleitor votava, trocaram muitas e rasgaram um grande número delas em que se encontravam os nomes dos cidadãos dr. Teófilo Braga, dr. Manuel Arriaga e Latino Coelho'.
Esses elementos monárquicos provocaram distúrbios, insultando os eleitores com palavreado, chegando o padre da Ribeira Brava a dar pancada em eleitores que sabia republicanos, ali mesmo na assembleia de voto, instalada na igreja - sempre apoiado pelo padre 'Saccaloiros', pelo presidente da mesa e pelo oficial de diligências.
O estado da votação começou a enfurecer o povo, que desfrutava do arraial de S. Pedro enquanto decorria o processo. Os ânimos descontrolaram-se. Muito previdente, padre 'Saccaloiros' aproximou-se da tropa que tratava da segurança da freguesia e distribuiu aguardente a rodos pela soldadesca.
Hostilidades iniciadas, quem primeiro apanhou a sua dose foi o feitor do proprietário Gordon, um tal 'Cachorrinho dos Ricos' que andava pelo arraial a angariar votos para a lista do governo lisboeta, ameaçando operários e lavradores. A dado momento da escaldante jornada, o magote deitou-lhe a mão e quase o matava à pancadaria. A tropa, com os soldados já perfeitamente bêbados, tentou ainda assim serenar os ânimos. Mas era tarde. O povo não recuava e, depois de fogo para o ar, as espingardas apontaram baixo. O tenente Durão foi o primeiro a disparar certeiro, matando uma mulher, Maria Rosa 'a Cachaça'. Caíram ainda, varados pelas balas dos militares, mulheres e crianças, homens novos e homens velhos - uns mortos (sete) e outros feridos.
Por toda a ilha, o dia foi de incerteza. A operação oficial estava bem pensada e, no final, das contagens, Manuel de Arriaga não seria eleito.
Os situacionistas ao serviço de Lisboa, para fugirem à responsabilidade dos crimes de morte, que durante muito tempo mantiveram vivamente indignados os portugueses da Madeira e do Continente, forjaram acusações contra perto de 30 homens do campo, que foram presos. O próprio Manuel de Arriaga e outro advogado, José de Castro, vieram à Madeira defender os acusados. Arriaga e Castro conseguiram a absolvição de quase todos. Seis receberam pena, mas apenas pela agressão ao feitor 'Cachorrinho dos Ricos'.
Prisões também as houve na Ponta do Sol, com o delegado procurador régio a acusar populares analfabetos de incitamento à violência, a respeito da Lei do Terço e do relacionamento com os senhorios - ou seja, acusou-os daquilo que ele próprio pregava para tentar ganhar simpatias por aquelas lombadas acima. São histórias contadas nos documentos reunidos pelo advogado José de Castro e que se podem ler também em trabalhos publicados por Nelson Veríssimo, Rui Nepomuceno, João Adriano Ribeiro, Padre Fernando Augusto da Silva e mais alguns investigadores madeirenses.
Em 1911, já com a República em vigor, Manuel Arriaga voltou a ser eleito deputado - de novo pelo círculo do Funchal. E o histórico estadista seria eleito Presidente da República de Portugal, ainda em 1911, quando cumpria o mandato de deputado 'madeirense'.
Um dia, Raul Brandão perguntou a Manuel Arriaga qual a melhor impressão que guardava de toda a sua vida. Ao que o político, no seu ar patriarcal de barbas brancas, respondeu:
- A ternura do povo da Madeira por mim.
Na altura, nem sabia que a Madeira o perpetuaria numa importante avenida do Funchal.

Outras Notícias