A alimentação é um factor determinante de saúde

Entrevista a Bruno Sousa, nutricionista

15 Out 2017 / 02:00 H.

Amanhã comemora-se mais um Dia Mundial da Alimentação. Em entrevista ao DIÁRIO, o nutricionista Bruno Sousa fala dos erros alimentares mais comuns, das recomendações, da importância de educar desde cedo para uma alimentação equilibrada, e da necessidade das autoridades e entidades governamentais começarem a olhar esta questão como determinante para a saúde das populações.

Amanhã celebra-se mais um Dia dedicado à Alimentação. Esta efeméride é útil para recordar à população os cuidados que se devem ter relativamente à alimentação? É um dia assinalável e que é aproveitado pela FAO para sensibilizar a opinião pública sobre determinados problemas relacionados com a alimentação dos povos em termos mundiais. Contudo, serve sempre para reforçar, em termos de intervenção comunitária, a importância de uma boa alimentação. Este ano, o tema é ‘Mudar o futuro da migração. Investir em segurança alimentar e desenvolvimento rural’, sendo que no nosso País e na Região será centrada na abordagem e reflexão sobre a sustentabilidade alimentar. É importante melhorarmos a produtividade agrícola e partirmos para sistemas de produção mais eficientes. Por outro lado, a sustentabilidade ao nível da produção requer uma gestão muito apertada dos recursos naturais de que dependem directamente da produção agroalimentar como a água e o solo. Temos de ter a noção que os fenómenos climáticos e a volatilidade dos mercados interferem com a estabilidade agrícola, pelo que são necessárias políticas, meios tecnológicos e práticas que contrariem as dificuldades que colocam em causa a produção alimentar. Por outro lado, para uma agricultura sustentável são necessárias melhores condições aos agricultores, proporcionando um ambiente económico mais seguro. Enfim, é importante termos acesso aos alimentos e que estes sejam também de qualidade, o que passa inevitavelmente por promover a agricultura e que seja de uma forma sustentável.

Por outro lado, a mensagem que queremos passar para a população é que sempre que possível comprem os alimentos a produtores locais, que prefiram os alimentos frescos, locais e da época, e que orientem a escolha alimentar em função dos princípios de uma alimentação mediterrânica.

A dieta mediterrânica que supostamente é a nossa, é uma dieta originalmente equilibrada, saudável. O que se perdeu ao longo dos tempos? A dieta mediterrânica é considerada um dos padrões alimentares mais saudáveis do mundo, com provas dadas na protecção cardiovascular, na prevenção de vários tipos de cancro, de diabetes, entre muitas outras doenças, assim como melhora a qualidade de vida. É uma dieta que faz parte da nossa identidade cultural. Caracteriza-se por uma variedade de alimentos minimamente processados, frescos, da estação e cultivados localmente, o que optimiza o conteúdo nutritivo destes alimentos nomeadamente em micronutrientes e antioxidantes. Acaba por ser um estilo de vida baseado na combinação de alimentos tradicionais, com receitas e modos de cozinhar simples e locais. É uma alimentação sazonalmente adequada, adaptada à actividade física, em pequenas quantidades mas com grande variedade, não existindo monotonia alimentar. A realidade é que se tem vindo a perder este tipo de padrão alimentar e esta nossa identidade gastronómica, privilegiando agora os alimentos muito processados em detrimento dos alimentos em natureza. Por outro lado, actualmente parece que quase todos dias são dias de festa, porque constantemente se come doces ou outros alimentos hipercalóricos como retratam os número da obesidade, o que não se verifica no padrão alimentar mediterrânico em que existe uma fronteira bem definida entre a festa e o habitual, deixando esse tipo de alimentos para dias muito especiais. Outro exemplo é a sopa. Na padrão alimentar mediterrânico é presença assídua, e hoje nem sempre está na mesa dos portugueses. Enfim, estamos a deixarmo-nos ser levados por grandes interesses comerciais, pelas publicidades aliciantes, esquecendo dos produtos que a natureza nos proporciona e que os nossos agricultores tanto lutam para que estejam disponíveis, no meio de tanta adversidade. Daí que considere que seja importante redescobrirmos as nossas tradições alimentares que se enquadram neste tipo de dieta. Não vale a pena inventar muito, mas sim simplificar.

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia alerta este ano para a importância de monitorizar a ingestão de sal e açúcar na alimentação. Temos mesmo de dar especial atenção a estes dois factores? Sem dúvida. Tanto o sal como o açúcar em excesso são muito prejudiciais não só para as doenças cardiovasculares, mas também para a maioria das doenças da civilização que afectam uma grande parte da população. Aliás a Organização Mundial da Saúde tem tido um grande enfoque neste sentido, para que os diversos países tomem medidas para diminuir o consumo destes dois produtos. No sal, já temos resultados das medidas que foram adoptadas e no açúcar as acções foram para o terreno mais recentemente mas parece que os resultados já começam a se sentir. Contudo, convém realçar que mesmo assim o consumo ainda é muito elevado, e temos de continuar a trabalhar, de forma a facilitar os consumidores a reduzirem a ingestão destes constituintes alimentares.

Quais são os principais erros alimentares cometidos? Num estudo recentemente realizado na população madeirense, 14% da nossa população não toma o pequeno-almoço, o que acaba por ser um erro alimentar grave para começar o dia. Esta refeição é importante não só para atenuar o período de jejum nocturno, mas também para disponibilizar a energia necessária para as primeiras horas do dia, pelo que é indispensável criar este hábito matinal e reservar uns minutos para fazer esta importante refeição. Nem que tenha de programar o despertador para mais cedo. Outros erros que conhecemos serem prática na nossa população, já há muito tempo, é um consumo insuficiente de produtos hortofrutícolas, leguminosas e de leite e equivalentes. Por outro lado, existe um consumo elevado de açúcar e de produtos açucarados, como refrigerantes, sobremesas e bolos, de gorduras e alimentos gordos e de sal e alimentos salgados. Para além disso, existe uma alimentação pouco variada.

E as principais recomendações para uma dieta equilibrada? Em primeiro lugar optar pelos alimentos em natureza ou minimamente processados e ter em atenção à sua constituição em sal, açucares e gorduras saturadas ou trans, para os evitar. Por outro lado, acho que para fazer uma dieta equilibrada é necessário não complicar e fazer tudo de uma forma simples. As teorias “loucas”, que por aí surgem, de saudável têm pouco. A nossa alimentação tradicional acaba por ser a melhor. A par disto, é importante cumprir o polifraccionamento alimentar, não esquecer o pequeno almoço, nem as refeições intercalares, e escolher a água para bebida de eleição. É também fundamental que esta alimentação seja saborosa. O sabor dos alimentos em natureza e a utilização de ervas aromáticas podem contribuir para isso. Outro aspecto fundamental é apostar na variedade alimentar, porque uma alimentação monótona não é saudável.

Hoje em dia fala-se tanto em dietas disto e daquilo. Que devemos cortar nas proteínas ou aumentar a ingestão delas. Que devemos cortar os hidratos de carbono e que não podemos comer mais do que 3 peças de fruta por dia? Como saber o que é mais correcto para cada um de nós? Infelizmente é uma realidade e que as redes sociais vieram potenciar. Por outro lado, a nutrição é uma área que poderemos dizer que está na “moda”, em que todos querem e acham que percebem de nutrição. Hoje em dia, qualquer pessoa lança um livro em que aborda o tema da nutrição.

Por isso, é que no campo da saúde, a nutrição é a área onde existem mais mitos e crenças alimentares.

E compreendo perfeitamente como é que a população se deve sentir com tantas informações e muitas delas contraditórias. Pois, nestes casos, é muito importante que a população procure fontes fidedignas e sem quaisquer interesses comerciais.

A nutrição é uma ciência e é o método científico que devemos ter em consideração para chegarmos a qualquer conclusão. Não devemos nos basear em teorias sem qualquer fundamento científico, e que podem colocar a saúde das pessoas em risco.

A obesidade e o excesso de peso está a aumentar na população, mesmo nas gerações mais novas, como prova o recente estudo desenvolvido pela APCOI. Estando a falar de hábitos alimentares, qualquer estratégia a desenvolver, e para que seja eficaz, deve começar pelos mais novos? É pelos mais novos que se deve começar. Se incutirmos bons hábitos alimentares às nossas crianças, são estes os hábitos que vão ter para a vida. Se pelo contrário, habituarmos as crianças a terem uma ingestão alimentar com muitas gorduras, açúcar e sal, é muito mais difícil mudar estes hábitos depois de estarem instalados. Daí a importância de incutir os bons hábitos alimentares desde muito cedo.

Por isso, é que a estratégia, passa inevitavelmente por começar com os mais novos.

O que falta fazer ao nível das autoridades e entidades governamentais? Considero que é importante que estas entidades priorizem a alimentação como um factor determinante de saúde. Não podemos ter uma população saudável se esta não se alimenta da melhor forma. E por outro lado, terem a noção que investindo na promoção e disponibilização de uma alimentação saudável estamos a contribuir para reduzir os custos na saúde que são elevadíssimos, e na maioria relacionados com o tratamento de doenças que, em parte, poderia ser evitáveis se a população tivesse um estilo de vida saudável da qual faz parte uma boa alimentação.

Agora, temos de ter a noção que estes investimentos, não trazem resultados imediatos e que demoram algum tempo a surtir os seus efeitos, mas que são essenciais fazermos para conseguirmos melhorar a alimentação da nossa população.

E quando falo de investimentos, refiro-me a mais Nutricionistas no terreno e de mais condições para que estes efectivamente consigam mudar os hábitos alimentares da nossa população, que é uma tarefa muito difícil. Não basta formar a população, temos de criar condições para que mais facilmente as pessoas mudem para uma alimentação mais saudável. Diria até que podem ser necessárias mais medidas legislativas.