Génio imortal

Chino foi um jogador fora de série, capaz das maiores proezas em campo

14 Ago 2017 / 02:00 H.

“Certo dia parti. Ou melhor: fugi. Fugi para Lisboa”. Está é uma frase retirada da entrevista que Chino concedeu ao ‘Sport Ilustrado’, corria então Novembro de 1958, altura em que vestia a camisola do Benfica. E Chino era mesmo assim: dono do seu destino, apaixonado pela liberdade e jogador de talento enormíssimo, acima da média, dos melhores que o futebol português conheceu nas décadas de 40 e 50. António Tremura - Chino para a eternidade - nasceu em Santa Maria Maior a 4 de Abril de 1930, e ainda bastante novo começou a demonstrar que ali estava, de facto, um talento genuíno, capaz das maiores proezas. Ingressou no Marítimo a convite de Alexandre Rodrigues e aos 18 anos era titular da primeira categoria.

As duas filhas de Chino, Rita e Madalena Tremura, recordam alguns episódios da vida do pai. “Era uma pessoa admirada por toda a gente, alegre, estava sempre bem-disposto”, sublinha Madalena. “Todos dizem que ele era um jogador fora de série”, acrescenta Madalena, que quando teve um filho decidiu colocar o nome de António, em sinal de homenagem: “Infelizmente já não chegou a conhecer o neto, mas costumava dizer: vou ensinar esse pequeno a jogar à bola”.

“Era um bonitão”, aponta, lembrando também que o pai tinha uma forma de estar muito peculiar, mas sempre “sem maldade”. “Morreu demasiado cedo”, lamenta.

Madalena, por aquilo que foi escutando ao longo dos tempos, enaltece com orgulho os feitos do pai, que diz ter sido “um homem honesto”, mas também “insatisfeito por natureza, pois queria sempre voos mais altos”. Daí a vontade de partir para outras paragens, Lisboa no caso.

A frase de Chino, que dá início a este texto, refere-se a um episódio ocorrido em 1949. Antes o Benfica mostrara interesse no trio maravilha do Marítimo (Raul Tremura, Chino e Checa), propondo 95 contos a cada um. Chino quis ir para Lisboa, desde a primeira hora, mas a vontade não era partilhada pelo irmão Raul e por Checa, conforme lembrava o próprio nessa entrevista.

Por cá, nessa grandiosa geração de futebolistas verde-rubros, Raul, Chino e Checa continuaram a afirmar o domínio da equipa no panorama regional, feitos aos quais o espaço continental não ficava, naturalmente, indiferente. Afinal, alguns dos melhores intérpretes estavam na Madeira. Mas Chino não deixou cair a ideia de rumar à capital. É então que em 1949 decide partir. Quase ao sabor do vento. O momento na primeira pessoa, retirado da entrevista ao ‘Sport Ilustrado’: “Furtei-me à vigilância do Marítimo dentro do espaço de 48 horas que anunciava um sensacional desafio com o Sporting Clube de Portugal! Não joguei, claro! Meti-me no paquete ‘Lima’ e fiz-me a Lisboa com armas e bagagens. E... qual não é o meu espanto quando, no cais, vi aparecer-me por diante uma autêntica esquadra do Belenenses”. As negociações prosseguem na Praia das Maçãs.

Chino pediu 80 contos por três épocas, só que os senhores do Restelo queriam ver o madeirense a assinar... um papel em branco. Recusou, claro. “Não fui na cantiga”. Voltou então à Madeira para integrar a célebre digressão a África com a camisola do Marítimo. Mas no regresso à Região... novamente a vontade de rumar a outras paragens. “Era uma fé. Um destino. Um palpite. Ou uma teimosia qualquer”. Assim dizia o próprio Chino, sublinhando um temperamento bastante especial.

Desta vez, no cais, aos responsáveis do Belenenses juntavam-se outros, do Sporting, também com o objectivo de convencer Chino. Voltou à carga com os 80 contos. Mas os de Belém hesitaram. Só que perante o interesse do Sporting decidiram ‘exilar’ o madeirense: “Esconderam-me das vistas do Sporting na aldeia de Arneiros, próximo de Torres Vedras. O meu ‘exílio’ durou 30 dias. Foi um mês de vida folgada”. Certo dia foi à festa de Azevedo, nome grande do Sporting na época. Os responsáveis pelo clube leonino falaram em 100 contos, mas havia um problema. “A tropa. Eu teria de cumprir o serviço militar. O Sporting ladeou o assunto, encolheu-se e eu desinteressei-me dos 100 contos”.

Ainda assim, apesar do desejo de ficar em Lisboa, Chino volta a vestir a camisola do Marítimo, com a dedicação e o sucesso de sempre. Em 1955 é chamado a cumprir serviço militar, volta ao continente, representando nessa altura o Estoril-Praia e também a selecção militar. Depois regressa à Madeira para três temporadas no ‘Leão do Almirante Reis’ até rumar ao Benfica em 1958/1959. Na Luz faz 13 jogos no campeonato e marca três golos. Aponta outros três na Taça de Portugal, troféu que conquista com as ‘águias’. Otto Glória é o treinador do Benfica, que depressa reconhece o talento de Chino. Nessa equipa tem a companhia de Mário Coluna, José Águas, Cavém, Costa Pereira... Só que o madeirense opta por regressar ao seu clube de sempre, o Marítimo, emblema que representa até 1961. Nos verde-rubros apontou 289 golos.

Era, de facto, um jogador fora de série, o que facilmente se comprova pelo interesse que despertou junto de vários clubes, desde o Benfica ao FC Porto, passando por Sporting, Belenenses, Sp. Braga ou até a Portuguesa de Santos (Brasil) e o UD Las Palmas. No Benfica, ganhava “mais no prémio de um só jogo do que em seis meses de futebol na Madeira”, como afirmou noutra entrevista ao jornal A Bola.

Chino exerceu actividade nos braçais durante vários anos, trabalhando noite e dia debaixo do túnel do ilhéu, chegando mesmo a dizer que “aquilo no Inverno era pior do que a Sibéria”. Já depois de ter terminado o percurso no Marítimo, viveu vários em anos em Jersey e mais tarde em Londres, tendo a hotelaria como ocupação profissional, mas mantendo ligação ao futebol. Mais tarde regressou à Madeira e foi trabalhar para a Quinta Vigia. Aliás, trabalhava e vivia lá, construindo uma forte amizade com Alberto João Jardim.

Chino faleceu a 25 de Maio de 1993, aos 63 anos. Dias depois a equipa verde-rubra prestou homenagem em campo, vencendo o Boavista por 3-2, no jogo que garantiu a primeira qualificação europeia do clube.

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