Uma lista

Ontem, um bombeiro morreu no hospital e foi encontrado mais um corpo, na aldeia de Pobrais, onde já havia 11 mortos registados. As vítimas mortais são já 64 e a lista da tragédia não acaba

20 Jun 2017 / 02:00 H.

Um bombeiro de Castanheira de Pera, de 40 anos, que estava em estado grave nos hospitais de Coimbra, morreu ontem e foi o primeiro ‘não civil’ a entrar para a lista de vítimas mortais da tragédia de Pedrógão Grande. Uma lista de vítimas que veria mais um nome inscrito, ao final da tarde, depois de ter sido confirmado que a aldeia de Pobrais tinha mais um morto. Até ao fecho da edição, estavam confirmados 64 mortos e 136 feridos (121 civis, 13 bombeiros e um militar da GNR).

Outro bombeiro internado, desde a madrugada de domingo, na Unidade de Queimados do Hospital da Prelada, no Porto, mantinha “um prognóstico reservado”.

O incêndio que começou no sábado e atingiu, sobretudo, os concelhos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, no distrito de Leiria, mas que alastrou aos distritos de Coimbra e Santarém.

Ontem, de manhã, uma chuva ligeira ainda ajudou, mas os bombeiros não tiveram momentos de descanso para tentar travar o avanço das chamas. As condições climatéricas melhoraram mas, segundo a Protecção Civil, o dispositivo deverá manter-se e até aumentar, como foi o caso dos meios aéreos que foram reforçados com mais dois aviões.

O Presidente da República, que ontem regressou ao cenário da tragédia, lamentou a morte do bombeiro de Castanheira de Pera.

Este bombeiro “morreu em serviço do seu país, de todos nós”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, durante uma visita ao posto de comando da serra de São Macário, de onde pôde ver uma das frentes do incêndio.

Além de Pedrógão Grande, ontem, havia mais quatro grandes fogos a lavrar nos distritos de Leiria, Coimbra e Castelo Branco, mobilizando um total de cerca de 2.150 operacionais, 654 veículos e 16 meios aéreos.

Ao final da tarde, a Protecção Civil informou que 70% do fogo estaria controlado.

Marcelo rejeita novas “frentes”

Tal como na noite de sábado, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a estar no centro das operações mas desta vez fez questão de apelar à unidade e que fossem deixadas para mais tarde as discussões sobre responsabilidades.

“Neste momento, há uma prioridade, a do combate ao incêndio, do apoio aos familiares das vítimas, do apoio às vítimas não mortais, naquilo que sofreram e sofrem. Já temos muitas frentes pela frente. Não vamos juntar mais frentes neste momento. Esse tipo de considerações, neste momento, é juntar frentes a um combate que já é difícil. Tudo tem um momento na vida”, disse o Presidente da República.

O chefe de Estado falava no centro de comando da Protecção Civil, em Avelar (Ansião) e foi questionado sobre as dúvidas na origem, causas e meios humanos e materiais.

“O que está a ser feito está a sê-lo com critério e organização, mas há a noção de que as próximas horas - esperemos que não muitos mais dias - serão ainda de desafio, combate, luta. Estabilizou, neste momento, o número de vítimas mortais, em termos muito elevados, uma tragédia quase sem precedentes no Portugal democrático”, continuou.

Marcelo Rebelo de Sousa vincou que a “prioridade nacional é a de, em conjunto, enfrentar este desafio, que é o que está a ser feito”.

O Presidente da República louvou o líder da oposição, o social-democrata e ex-primeiro-ministro Passos Coelho, que disse momentos antes que “as pessoas quererão saber, têm o direito a saber, a explicação para que isto tivesse acontecido”, mas “este ainda não é o momento”, após uma reunião com o presidente da Autoridade Nacional de Protecção Civil.

O Governo decretou três dias de luto nacional, que terminam hoje.

IPMA explica

Ontem, ao final da tarde, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) deu uma conferência de imprensa em que procurou explicar as condições atmosféricas que terão provocado o incêndio.

Conjugação “pouco habitual” de factores meteorológicos adversos e com “grande imponderabilidade” de previsão da localização levou ao incêndio que deflagrou no sábado em Pedrógão Grande, segundo o IPMA.

Temperatura muito elevada, baixa humidade, ausência de chuva, descargas eléctricas associadas a trovoada seca, mudança de direcção de vento muito rápida e reduzida água no solo foram os factores enumerados.

O presidente do IPMA realçou a “impossibilidade técnica e a grande imponderabilidade” de prever um incêndio de tais proporções “naquele sítio, àquela hora”.

Jorge Miranda admitiu que a “área desestruturada” do local em que deflagrou o fogo - “uma mistura arbórea que não é favorável”, zonas agrícolas de minifúndio e terrenos com declive - facilitou a propagação das chamas.

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