Uma ilha à procura do seu futuro

29 Set 2017 / 02:00 H.

No centro da cidade há um velho dragoeiro. Enorme. Com dezenas de ramos e uma copa que mais parece uma carapaça de tartaruga. “Já viu passar reis e presidentes, nobres e pés-rapados”, conta João Fernandes, apontando aquele que é o símbolo do Porto Santo. “Já o mudaram de lugar, já resistiu à seca, mas ele continua ali, firme”. E acrescenta a propósito das próximas eleições autárquicas, “aconteça o que acontecer, a vida vai continuar. Se calhar, mais difícil”, continua este porto-santense reformado, trazendo à discussão a grande dúvida desta campanha: qual é o valor da dívida da autarquia. Temos aumento de impostos no horizonte? Nada que tenha impedido o aparecimento de um número recorde candidatos. Sete. Cinco partidos, uma coligação e um movimento independente de cidadãos. Numa autarquia que em 2013 tinha mais eleitores inscritos, 5707, do que habitantes, 5186 (censo de 2015, da DREM) poucos arriscam uma previsão e muitos tentam esconder a tendência de voto. Não é o caso de Miguel Correia, para este colaborador da área da restauração, a candidatura Porto Santo de Verdade sairá vencedora. “O PS ia ganhar, mas está a mudar. Quem ganha é o PSD, 3-1-1 em vereadores”, dispara convicto. “As previsões são essas”, afirma enquanto se afasta para atender um novo pedido. Já do outro lado da mesa, José Drumond manifesta uma tendência diferente, “vai ficar tudo na mesma. O Menezes vai-se manter. O povo tem memória”, afirma, enigmático. Numa ilha onde todos se conhecem e as paixões políticas tendem a ser disfarçadas, com receio, talvez, é difícil registar uma tendência clara. Leitura que as próprias empresas de sondagens conhecem e receiam fazer. Depois de duas semanas intensas, onde os vários projectos esgrimiram argumentos, a “bola” está do lado dos eleitores. Os porto-santenses irão avaliar o mandato de Filipe Menezes de Oliveira, que agora termina, e as propostas apresentadas pelas diversas candidaturas. Do apoio social aos desempregados, idosos e estudantes, ao preço dos transportes aéreos e marítimos, da limpeza da praia, à revisão do PDM, todos esgrimiram argumentos. Frequentemente apresentaram as mesmas soluções. “O povo decidirá”, assume João Fernando. Sem esquecer o que está para resolver. Do polémico contrato de arrendamento do edifício da Câmara, à resolução definitiva da Sociedade Porto Santo Verde (PSV), que não pára de acumular dívida. Das estradas em mau estado, à escola eternamente adiada.

Filipe Menezes de Oliveira acena com a descida do IMI e a internalização de 42 funcionários oriundos da PSV e o controle da «pesada herança», como costuma recordar nos seus comícios, o actual presidente da autarquia. Enquanto o candidato social-democrata acena com a catástrofe, Menezes de Oliveira queixa-se da acção da oposição (e de elementos do próprio partido) que lhe chumbou o orçamento e plano plurianual de investimentos. A discussão traz os eleitores divididos e lança o receio quanto ao futuro do município. “A Câmara não está a nadar em dinheiro. A Câmara tem para pagar as dívidas das más gestões anteriores.» acrescenta outro porto-santense, desiludido com o desempenho dos anteriores autarcas socialistas e sociais democratas. «Quem acaba por sofrer são os porto-santenses”, remata.

Na expectativa está o movimento independente de cidadãos, que aposta em medidas concretas e pisca o olho a diversas classes profissionais, dos taxistas, aos bombeiros, dos pescadores, aos agricultores. A face mais visível do projecto Mais Porto Santo, José António Castro, mantém-se convicto da vitória, apesar dos ataques aos projectos empresariais e de associativismo em que esteve envolvido.

E há ainda, mais quatro candidaturas. Que podem fazer desequilibrar a balança. O candidato do projecto Porto Santo Sempre, Hugo Nóbrega e o seu histórico de reivindicações. Ou o candidato do CDS-PP, o último a apresentar-se, mas sempre a ter em conta, face a uma franja do eleitorado porto-santense manifestamente conservadora. Ou o mais jovem candidato, Tiago Camacho, que o Bloco de Esquerda lançou para as lides partidárias. E o discreto Alcino Gomes, do PTP, que defende um novo rumo para o Porto Santo.

A mudança da Câmara para a família socialista, após três maiorias absolutas sociais democratas, acabou por ser a tarefa mais fácil do mandato que Menezes de Oliveira agora termina. Desde sempre marcado pela turbulência política, o afastamento da sua vice presidente e a ruptura com a presidente da Assembleia, a também socialista Luísa Mendonça, acabaram por tornar um mandato, que já se adivinhava difícil, numa penosa maratona. Desgastado pelos conflitos permanentes com a oposição e as dissenções na equipa, Menezes enfrenta agora a prova de fogo. Vindo de três mandatos à frente da Junta de Freguesia e apostado nas relações privilegiadas com o Governo Regional, Idalino Vasconcelos perfila-se para a sucessão. E há sempre a questão da escola; constantemente prometida e sempre adiada. Uma promessa do Governo que está a pôr à prova a paciência dos porto-santenses, como se viu esta semana, na tentativa de encerramento da escola com cadeados e nas palavras de ordem pintadas nas paredes. A cor de rosa. Pouco habituado ao papel da oposição, o projecto Porto Santo de Verdade procura, ainda, levantar o ânimo e sarar as feridas das mais recentes disputas internas. Factores que agora podem ser determinantes no resultado final da eleição A baralhar as contas, surge António Castro, também ele um ex-PSD, que à frente de um movimento independente de cidadãos a tentar capitalizar o desencanto com os partidos na gestão local e regional.

Na esplanada do Apolo 14 fazem-se apostas. Do café à caixa de gambas as preferências partidárias misturam-se com os palpites mais díspares. Depois de amanhã se saberá.

Entretanto, no velho dragoeiro, Vicente e Diogo brincam aos piratas, indiferentes às movimentações políticas. Confiam que os seus pais saberão escolher o melhor para o Porto Santo.

Orçamentos de campanha: da Liga de Campeões à Divisão de Honra

“Quer ganhar, tem que gastar”, essa parece ser a máxima que se aplica tanto ao futebol como à política. E que os partidos levaram à letra na campanha eleitoral, no Porto Santo.

As diferenças são evidentes entre as sete candidaturas. Fazer comícios, contratar artistas (alguns de renome) sai caro. Talvez por isso apenas três candidatos tenham apostado forte nessa forma de fazer campanha: Idalino Vasconcelos, Menezes de Oliveira e António Castro. O PSD aposta mesmo, mais de metade do seu orçamento, 11.265.05, em comícios e espectáculos. Outros reservam dinheiro para os estudos de mercado de agências de comunicação, como é o caso do CDS, que retirou 10%, para acompanhar as tendências dos eleitores. O dinheiro para a campanha pode vir de três fontes: subvenções estatais, contribuições dos partidos políticos ou donativos. O Bloco de Esquerda declarou 62,84 cêntimos em doações na declaração ao Tribunal Constitucional. No porta-a-porta, a distribuição de propaganda acaba por ficar barata ao PSD que reservou 766.38, para brindes e outras ofertas. Depois, há partidos, como o PS, ou o PSD que contam gastar mais em cartazes do que o Bloco de Esquerda, o PTP, ou a coligação PCP-PEV em toda a campanha.

Ganhar tem os seus custos e contratar o Cristiano Ronaldo não é para todos.

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