Uma bomba na consciência

A ‘febre das bombas’ nesta época festiva acendeu o rastilho para os perigos que este divertimento pode causar a quem queira seguir a tendência de usar a pólvora

27 Dez 2017 / 10:31 H.

O mês de Dezembro costuma ser, um pouco por toda a ilha, ruidoso, muito por culpa da apetência já intrínseca que os madeirenses têm em comprar bombas e foguetes. Quando nos aproximamos a passos largos de um dos cartazes turísticos mais recomendados da Madeira e do qual muitos madeirenses também querem fazer parte, fomos à procura de quem sofreu directamente com os perigos da pólvora, facto que nos fez descobrir também que no Curral das Freiras ainda se comercializa ilegalmente bombas artesanais com extrema potência.

Numa altura em que tinha 14 anos, e imbuído pelo divertimento favorito, que era construir joeiras, o primeiro interveniente desta reportagem estava longe de saber o que iria acontecer. Há 25 anos, entre as canas que apanhava para construir este entretenimento tão nosso, Marco Luís encontrou um foguete de cana que “tinha ido ao ar e não rebentou”, num terreno perto da sua casa, e que “dava jeito” para a construção do divertimento. “Eu é que fui a cana naquele dia”, começou por dizer.

Foi no seu próprio quintal, quando agarrou no foguete “com cerca de 20 cartuchos” para o manobrar, que este explodiu e o fez voar quase dois metros, desfazendo por completo a sua mão esquerda. À conversa com o DIÁRIO, Marco Luís garante que com aquela idade “não dava fogo” e manteve-se sempre afastado destes engenhos, sendo ele uma prova viva dos perigos a que podemos estar sujeitos às bombas e à negligência de quem as incendeia.

Nunca foi hábito comprar bombas e mesmo já trabalhando como distribuidor de pão, o dinheiro que ganhava era para ajudar a família, recordando que no dia do fatídico acidente, até nem queria ir trabalhar. “Nesse dia eu não queria ir. Estiveram a bater à minha porta mais de meia hora, perto das 4 da manhã, e quando voltei a casa fiquei sem mão”, contou Marco Luís, visivelmente emocionado por recordar tudo o que se passou, e lamentando que apenas 25 anos depois se tenham preocupado com a sua história.

“Não deram atenção ao meu caso. Nunca fui apoiado por ninguém. Se fosse pelo governo tinha morrido à fome. A rico não chego e de pobre não passo. Trabalho para viver” foi uma das citações mais marcantes que a vítima proferiu, esclarecendo que não recebe pensão de invalidez e que para ter uma vida estável tem de trabalhar como pedreiro e polidor desde o acidente.

Nesta que é uma época de bombas, Marco Luís diz que “qualquer barulho” já lhe causa impressão. “O que me aconteceu não quero que aconteça a ninguém. Vejo o fogo de artificio de longe, mas quando é próximo de onde eu vivo vou logo para dentro de casa”, esclareceu, acrescentando que quando calha o arraial junto da sua residência foge “para bem longe”.

Na altura de dar um conselho a quem gosta de dar fogo nesta altura do ano, o homem que faz amanhã 40 anos avisou que “é melhor nem sequer olhar para as bombas”, alertando que muitas das vezes a iniciativa parte dos pais. “Às vezes o pai dá o incentivo, porque o filho vê-o a comprar e rebentar bombas e a seguir agarra o entusiasmo e também quer comprar, mas quem diz o pai, diz o tio ou o padrinho”, observou Marco Luís, alertando que “começam nas bombas pequeninas e passam para as grandes num instante”.

O foguete em si “quando não rebenta pode pegar lume quando chega ao solo”, sendo este outro dos perigos que a vítima observou sobre “uma tradição que se vai manter” porque também “é uma fonte de rendimento para as indústrias”.

A grande amizade dos ‘cotos’

Uma guia eléctrica foi o que tramou Eusébio Figueira, a mesma que leva nos foguetes de cana. O amigo de Marco Luís adaptou tudo o que existe num foguete de cana até rebentar no ar, a uma bomba artesanal, mas “não deu tempo” na hora de explodir em terra firme, atirou outro madeirense que ficou sem a mão por causa de um engenho explosivo construído artesanalmente por si.

Na altura tinha 29 anos e era quase como uma brincadeira de amigos, mas que correu mal, mesmo tendo “já muita experiência com bombas”. “Construí em cima do muro da minha casa e fui para à frente do bar para explodir a bomba e assustar todos os meus amigos. Caiu garrafas dentro desse bar para o chão. Correu tudo mal”, avançou o homem de 50 anos, que durante os primeiros três anos, depois do acidente, não conseguia mostrar o braço a ninguém.

“Com o tempo adaptei-me a viver assim, mas não foi fácil. A minha mãe não conseguia olhar para o meu braço no início”, adiantou, esclarecendo que “hoje em dia há mais segurança, porque já não se tem acesso a bombas como antigamente”, embora o sítio que tenha comprado fosse proibido, “nunca” culpou ninguém, porque comprou por “vontade própria”, disse Eusébio Figueira.

Em relação ao acesso às bombas por parte dos mais novos, o homem que vive no Lombo dos Aguiares, nas Zonas Altas de Santo António, adiantou que há cinco anos aconteceu praticamente o mesmo a um jovem que é seu vizinho. “Ficou sem a mão aos 11 anos. Encontrou uma bomba de garrafa na fazenda e rebentou”, lamentou, avançando que tem ajudado esse jovem, pedindo igualmente que estas sejam proibidas, ou pelo menos limitadas às pessoas de tenra idade, sobretudo porque não têm noção dos procedimentos de segurança.

Eusébio Figueira, ao contrário do amigo, recebe a pensão de invalidez e adaptou-se. “Faço de tudo em casa, até já a pintei”, atirou, não escondendo alguma “ansiedade” por às vezes não conseguir fazer algo que antes conseguia com mais facilidade. Falando sobre a vida antes do acidente, a vítima diz que “estava a trabalhar no túnel do Véu da Noiva, que era um trabalho muito perigoso” e que “depois de um dia de trabalho, chegou a casa e aconteceu aquilo”.

Só nas Zonas Altas de Santo António, os amigos adiantaram que pelos menos 12 não têm mão devido às bombas. Ainda assim, hoje em dia dá vontade a Eusébio Figueira de comprar, mas alerta: “Não ensinem a ninguém. É sempre perigoso. Quer a pegar lume ou depois de estarem no chão”, finalizou, adiantando que para além de travar uma grande amizade com o “amigo coto”, a paixão por andar de bicicleta é outra das sintonias presentes nos dois.

Curral das Freiras

A equipa do DIÁRIO seguiu viagem até ao Curral das Freiras, à procura de saber se a tradição ilegal se mantinha nesta localidade, à semelhança de outros anos. Depois de interpelarmos vários comerciantes e transeuntes, as questões que colocávamos eram incómodas.

“Não sei de nada”, “Já ninguém vende” ou “Isso foi há muitos anos” foram as respostas que obtivemos, antes de encontrarmos uma pessoa que quis manter-se no anonimato e acedeu em responder às questões colocadas.

“Você compra bombas onde quiser”, disse, acusando “pelo menos” dois estabelecimentos sem licença de estarem a vender bombas apenas a conhecidos. “As bombas no Curral são todas vendidas de forma clandestina. A polícia pode vir cá apreender 1.000 quilos de pólvora, que aparece 2.000 a seguir”, atirou a nossa testemunha, brincando até com a situação. “Destas rochas sai muita coisa. Eles só vendem a conhecidos, mas se chegar lá e pedir uma grosa - um saco com cem bombas - eles vendem”, informou.

De acordo com a nossa testemunha, “um desconhecido, se perguntar por bombas eles não sabem de nada”, mas que existem “de garrafa e de barril disso não tenho dúvidas”. “Dá para rebentar uma mão e devia de ser proibido”, atirou, esclarecendo que muitos dos vendedores fabricam os engenhos em casa.

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