Uma associação

Na Associação de Paralisia Cerebral da Madeira cada qual tem o seu horário, mas todos sabem que o ‘bom dia’ e um abraço fazem parte da rotina

25 Dez 2017 / 02:00 H.

Não precisam de nos conhecer, nem sequer de saber quem somos. Ao entrar numa das salas da Associação de Paralisia Cerebral da Madeira (APCM) somos recebidos com vários sorrisos e desejos de um ‘bom dia’. São 37 os utentes que participam diariamente no Centro de Actividades Ocupacionais desta associação, aos quais se juntam outros 49 que residem no lar dessa instituição.

Catarina Aveiro é a sua directora técnica e é também de sorriso no rosto que fala desta família, criada na associação. Aos 33 anos, está a trabalhar na APCM há 4 anos. “Sou muito feliz”, admite a assistente social. “Era aquilo que eu procurava, a parte de estar com os utentes, de participar na vida deles, no crescimento e lutar por eles. Sou muito feliz naquilo que faço”, frisa.

“Admito que ainda posso crescer muito, mas penso que somos um exemplo como associação e tento fazer o melhor que sei”, considera a directora técnica.

A APCM nasceu graças a um grupo de pais e técnicos ligados à área e que pretende dar respostas em termos residenciais, ocupacional e a nível da reabilitação de dos utentes e das suas famílias.

A Quinta Pedagógica Pico do Funcho, no Funchal, é a casa da associação que tem uma rotina estruturada, mas cada qual segue ao seu ritmo. Aqui sabemos que cada um tem as suas diferenças e especificidades, mas também a capacidade de se superarem. “A nós também cabe a tarefa de conseguir estratégias comunicacionais para que todos consigam comunicar”, explica Catarina Aveiro.

“O nosso papel passa por dar uma voz activa aos nossos utentes na sociedade”, garante. No fundo, mostrar ao mundo que apesar das limitações causadas pela paralisia cerebral e outras doenças afins, estas pessoas têm muito para dar, para mostrar e para contribuir para a sociedade em que se inserem.

A associação tem a sua própria rádio, a R.I.T.M.O., coordenada pelos próprios utentes. Além disso, aqui pratica-se o boccia, um desporto adaptado a pessoas com deficiência, sendo que a APCM conta já com atletas medalhados. Por outro lado, a presença em escolas e outras instituições faz-se de forma assídua através da Sandra, a contadora de histórias.

Sociedade oferece
mais oportunidades

Catarina Aveiro considera que a sociedade começa a mudar a forma como olha para as pessoas com deficiência. Se antes se tentava esconder as pessoas no interior das suas casas, agora criam-se oportunidades para mostrar o seu valor.

Apesar de ainda faltar muito trabalho para atingir uma inclusão plenas destes cidadãos, a directora técnica fala em mais oportunidades. Aliás, Catarina Aveiro trabalhou no Clube de Emprego Inclusivo antes de abraçar o desafio da APCM. Foi com essa experiência que a assistente social começou a tomar contacto com as pesssoas portadoras de deficiência. “É um trabalho bastante gratificante, porque também exige muito de nós”, afirma Catarina Aveiro, apesar de ter sentido algumas dificuldades na inclusão de pessoas com necessidades especiais. Entre o estigma que existe e que acaba por travar as oportunidades, existem ainda barreiras físicas que condicionam ainda mais este trabalho, desde o acesso a cadeiras de rodas e outros mecanismos de apoio.

Contudo, admite que era preciso desenvolver um projecto pensado para cada um destes utentes e que gostaria que a taxa de emprego fosse melhor. “Muitas destas pessoas têm tantas ou mais capacidades que as outras pessoas descritas como ‘normais’”, acredita.

Uma grande equipa, que forma uma grande família

“Em relação à instituição somos uma equipa grande, é um trabalho de equipa que cá é feito”, refere a directora técnica, salientando que, “na instituição este é mais um trabalho de afectos”.

O conceito de trabalho no seio desta quinta pedagógica passa por uma maior interacção com os utentes, mas também com parceiros externos, mostrando aquilo que se faz diariamente. Não só os utentes do lar e do Centro de Actividades Ocupacionais têm acesso ao edifício e às suas valência. Há consultas para utentes externos, bem como terapias.

A chegada do Natal torna-se uma oportunidade de dar a conhecer o trabalho da APCM à comunidade. “Todos fazem parte do nosso Natal”. Desde cedo começam a ser preparados os trabalhos para serem vendidos em feiras solidárias e assim conseguir mais algum apoio monetário para as suas actividades.

“Os nossos corredores contam com a decoração dos nossos colaboradores: do senhor da manutenção, a nossa animadora, as pessoas dos serviços gerais também ajudam dão o seu contributo”. Todos querem fazer parte deste projecto.

Também a festa de Natal vem intensificar o espírito desta quadra, onde não falta o Pai Natal e as suas prendas.

O dia de Natal é passado em família. Seja com a família de sangue, seja com a da instituição. No dia do nascimento de Jesus, o CAO não se encontra em funcionamento, pelo que é passado em casa. Também alguns dos utentes do lar vão a casa com a sua família. Mas há sempre aqueles cuja família não os consegue receber ou que, simplesmente, já não têm família. Assim, no dia de Natal é dia de festa na Associação de Paralisia Cerebral. O almoço é pensado ao pormenor e há um convívio que se prolonga pela tarde.

Esta é a casa de muitos utentes, é o refúgio de cada qual. É um sítio onde não falta amor e no Natal não é excepção.

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