Um apoio na melancolia do Natal

Psicólogos precisam filtrar as suas vivências para estarem preparados para responder à população

24 Dez 2017 / 02:00 H.

A 15 de Agosto de 2017 o alerta chegou antes da hora do almoço. Uma árvore tinha caído no Monte e atingido várias pessoas. Entre os feridos e familiares a dor e consternação eram uma constante. Vários psicólogos deslocaram-se ao local e prestando apoio às vítimas desde início.

Estes profissionais são cruciais no sistema de saúde e uns dos primeiros a avançar para o terreno em situações de catástrofe. Carlos Mendonça é o coordenador da unidade de Psicologia do SESARAM que conta com 60 psicólogos, sendo que 44 estão nos centros de saúde e os restantes estão nos cuidados de especialidade.

O psicólogo acredita que há uma franja da população cada vez menor com o preconceito de ir a uma consulta de psicologia, embora os homens continuem a apresentar uma maior resistência a frequentar cuidados de saúde.

O trabalho que tem vindo a ser desempenhado tanto pelo SESARAM como pela comunicação social tem ajudado a desmistificar as questões relacionadas com a saúde mental. “Em termos culturais também há um avanço muito grande, nos últimos anos”, assume Carlos Mendonça, acrescentando que existe um conjunto de alicerces para essa mudança, que passa pela educação e pelas artes, que proporcionam esse esclarecimento.

O coordenador relembra que os psicólogos têm um conjunto de estratégias e de experiências que lhes possibilitam traçar o melhor plano para ajudar casa paciente. “A avaliação dos sintomas é uma avaliação clínica, com entrevistas estruturadas, como em qualquer área clínica se faz”, relembra o psicólogo.

Cuidar dos outros
e estar atento aos colegas

O distanciamento do envolvimento emocional em situações mais críticas é algo que qualquer técnico de saúde tem que ter. “Obviamente que somos seres humanos, mas primeiro tem que estar a parte técnica e científica ao serviço daquilo que a população precisa”, frisa o coordenador.

Assim, além da experiência que se vai adquirindo ao longo do percurso profissional, também as características individuais de cada indivíduo vão indicando o caminho. “É uma construção bloco a bloco que se vai fazendo quer com o ensino, supervisão, com a discussão de casos, aprendizagem com colegas mais velhos, com as partilhas e trocas de experiências com outros profissionais”, assume o coordenador de unidade.

Em caso de catástrofe, o gabinete de crise do SESARAM chama a unidade de Psicologia para intervir. O primeiro passo é a avaliação das necessidades, que pretende aferir o número de afectados e quais as suas necessidades, por forma a que a intervenção seja a mais célere. A partir desse ponto, os recursos são distribuídos e começa o trabalho de apoio.

O trabalho de acompanhamento é feito não só às vítimas mas também aos familiares, nomeadamente em caso de falecimento. “Fazemos esse trabalho de acompanhamento aos familiares por forma a que tenham um nível de esclarecimento em relação àquilo que sucedeu e um conforto e um apoio constante nessa aproximação mais crítica, de acordo com a própria necessidade do utente”, explica Carlos Mendonça.

O psicólogo ressalva que nem todas as pessoas lidam com a perda e com a dor da mesma forma, pelo que se o utente afirma que pretende estar sozinho, “nós temos que respeitar”. “Nós facultamos esse apoio e depois o utente vai concordar ou não com esse acompanhamento e temos que respeitar essa decisão que as pessoas tomam, pois não é forçoso que estejamos lá”, assume.

No entanto, os também os psicólogos precisam ‘desligar-se’ daquilo que vivem aquando de uma intervenção. São pessoas, que lidam com pessoas e que, muitas vezes, as conhecem nos seus piores momentos. São pessoas que ajudam a aliviar a dor que o outro sente e, apesar do profissionalismo com que trabalham, também eles acabam por ‘viver’ o que sentem os seus utentes.

As primeiras horas após a intervenção em situação de catástrofe servem para se perceber tecnicamente aquilo que falhou, o que pode ser melhorado e o que pode ser feito dia-a-dia.

“Depois deste trabalho é evidente que entramos nós na nossa zona individual e no nosso campo emocional mais íntimo e cada um de nós terá vivências e acontecimentos que se vão acumulando e que emergem na mente dos técnicos. Esses têm que ser filtrados para que no dia seguinte estejamos preparados para dar a resposta que a população precisa”, considera.

No fundo, é necessário uma espécie de exame de consciência para perceber como é que cada um está e dar a oportunidade de expressar as emoções que daí emergirem. “As pessoas que tiverem que chorar, choram, outras preferem escrever ou falar com alguém. Se preferem ficar sozinhos, podem ficar sozinhos, mas é importante que também os colegas estejam atentos a este tipo de impacto nos técnicos”, relembra o psicólogo.

Carlos Mendonça afirma que é preciso perceber se os colegas estão a fugir para estratégias cientificamente estudadas, que acontecem com alguma frequência, como é a auto-medicação ou as insónias, alcoolismo, consumo de drogas, para fazer face a um sofrimento que é natural e normal em qualquer ser humano.

“O trabalho de pares é importante para que se possa mitigar o stress vivenciado por aquele que intervém na crise”, explica.