Trapalhão brilhante

É opinião partilhada a de que o cortejo deste ano foi mais rico e mais bonito

14 Fev 2018 / 02:00 H.

Todos os anos a actualidade não escapa à sátira popular do Trapalhão e este ano não foi diferente com o cortejo a provar que não tem memória curta. O padre Giselo e a questão da paternidade, a falta de do ferry para ligação ao continente e as complicações do aeroporto da Madeira aterraram nas avenidas Sá Carneiro e do Mar e das Comunidades Madeirenses, numa tarde repleta de largos milhares de pessoas que se deslocaram à baixa para ver os foliões. Num desfile que se arrastou por quase uma hora, não faltaram críticas ainda ao atendimento prioritário aos luso-descendentes vindos da Venezuela, às falhas na saúde e às altas problemáticas. O sempre presente Marcelo Rebelo de Sousa, e os homólogos Donald Trump, Maduro e Kim Jong-Un também não escaparam a esta cimeira popular. Ao todo participaram cerca de 800 foliões, um número semelhante ao do ano passado.

No final, a nota foi positiva. O público, que estava satisfeito. “Está giro, está engraçado”, disse um dos espectadores. “Talvez o barco o Armas”, opinou António Gross, quando convidado a eleger o que mais gostou. Diz que faz sentido a crítica: “O barco, claro que era importante para a gente, muito importante. Pode ser que desta venha”, arriscou.

Esta reinterpretação do ferry foi um dos projectos mais aplaudidos, lá estavam a navegar ilustres da política madeirense e não só. Além de ‘Paula Bagaço’, estavam ‘Rubina Quase Ideal’, ‘Que Fofo’, ‘António a dar à Costa’, Pedro tá Calado’, ‘Miguel Santoline de Sousa’, ‘Miguel com’ um Queque’, ‘Dom Descarrilho’ e ‘Marcelo Selfie de Sousa’ e ‘Zé Povinho ao Serviço’, todos enfiados no mesmo barco.

Caras conhecidas, de resto não faltaram, sendo o padre Giselo um dos temas mais populares com várias referências. Mas a Igreja em geral não escapa ano após ano a ser arrastada para este palco, este ano com a ‘Escola do Clero’e o ‘Quarto das Tentações’ a desfilarem a favor do fim do celibato. “Crescei e multiplicai-vos foi para todos”, argumentam.

Nos ilustres internacionais, destacaram-se Trump, Maduro, Merkl e Kim Jong-Un, na lista dos mais perigosos. Em alerta vermelho esteve a saúde fruto dos diagnósticos realizados pelos vários ‘especialistas’ que ontem alertaram para as ‘baixas problemáticas’ e para outras maleitas, da gripe suína e à gripe A, das cataratas às cáries. À pergunta se as críticas têm efeitos secundários, uma das vozes de um dos grupos respondeu: “Às vezes sim, outras vezes fazem ouvidos de mercador”.

A contrastar com estas abordagens mais críticas, as presenças mais animadas e menos satíricas. Os Smurfs colorizam de azul o desfile e de tons mais terra e amarelos coloriu o grupo A Tribo, que desceu à cidade numa viagem ao som dos tambores. O mundo das princesas e dos super-heróis ficou do outro lado das barreiras, nas crianças que neste dia aproveitaram para desfilar nos seus fatos carnavalescos. Os adultos abstiveram-se de usar disfarces, salvo ou outro mais atrevido que não dispensou um acessório a condizer.

O Trapalhão acaba por ser um programa de família, como foi para Inês Silva, Lúcia Florêncio e Bebiana Oliveira, para locais e para turistas.

Neste desfile já se fizeram apelos ao voto e já estiveram lado a lado Miguel Albuquerque e Paulo Cafofo, no carro da Democracia, essa viatura com ‘Povo enganado’ e ‘Promessas’ na traseira.

Na estrada do Trapalhão madeirense circularam a Uber e os postos dos CTT fechados, os cozinheiros talentosos com bolo do caco e o arraial com a espetada. Mas as malassadas vieram de outros, distribuídas em plena rua aos mais gulosos.

Na recta final do cortejo, uma mensagem verde de um grupo de activistas. “Repensa, recusa, reduz, recicla e reutiliza”, escreveram, ao lado de outras frases como “Eles temem os esclarecidos e controlam os ignorantes”.

Este ano cerca de 800 foliões inscreveram-se neste cartaz. A média dos anos anteriores andava nos 500. Em 2016 registou 700 participações e em 2017 subiu para 800, revelou a Secretaria Regional do Turismo e Cultura.

Este é um desfile de cariz popular, sem inscrições obrigatórias. Inscreve-se quem quer concorrer aos prémios. O pequeno Vítor Afonso desfilou vestido de padre e com um boneco ao peito. “Trago o filho, ou filha, o que ele teve”, disse, referindo-se ao ex-pároco do Monte. A mãe, o padrasto e outras pessoas da família ajudaram-no a montar a igreja e a preparar o quadro alusivo ao Padre Giselo. Esta não é a primeira vez que participa nem foi a primeira em que foi premiado. “A minha mãe é que teve a ideia, ela é que é a genial”, disse o menino e nove anos. Sobre o padre na vida real, confessa que não tem opinião formada, mas diz “não esteve nada bem”.

Enquanto o desfile não começava, o vento era o grande desafio. A mãe segurava a estrutura em esferovite. Carmen Gomes explica que escolheu Giselo porque foi o tema mais badalado do ano e que saem de casa pela diversão e pela participação.

“Este ano trouxemos a saga do padre Giselo, é mais um apoio. O pessoal todo gostava do Sr. padre Giselo”, confessou outra foliona de um grupo de 35 que também escolheu a temática e não quis ser identificada. “Era bom que não acontecesse. Não é o facto de ele ter um filho e assumir, acho muito bem. Acho que o celibato devia de acabar e os padres deviam constituir família. Se formos a ver o que Deus queria era que amassemos a nossa família e que nos multiplicássemos. Esta é mais uma crítica positiva para ver se o Clero acorda e avança, avança com os tempos”, desabafou.

Ontem milhares apoiaram o Trapalhão, deslocando-se desde cedo. Já antes das três da tarde muitos concentravam-se junto aos separadores e nas imediações. Não deram o tempo por perdido. “Lidíssimo. Eu tenho rido com tudo, que tenho dificuldade em fizer o que está mais bonito, para mim, está excelente, lindíssimo como nunca”, opinou Orlanda Sousa. “Este ano acho muito mais bonito do que os outros anos, está tudo mais perfeito”.

‘Ignoração do Ferry’ entre os melhores

Quanto aos prémios, a ‘Ignoração do Ferry’ levou a melhor na classe de adultos ao vencer o prémio para grupo. No par destacou-se ‘A Carroça Volta à Cidade’ e nos prémios individuais um folião vestido de mocho. Nas crianças, o prémio de grupo foi para os ‘Smurfs’, azuis e divertidos, e o individual para o ‘Padre Maroto’, numa referência ao Padre Giselo. Nos prémios da Classe Melhor Trapalhão, o Melhor Tema foi ‘A Chegada dos Miras’, com referências ao atendimento prioritário na Segurança Social, Instituto de Emprego e Habitação; a Melhor Animação foi entregue ao projecto ‘A Tribo’ e o prémio para a Melhor Animação Solidária à ‘Causa Social’. O prémio de Melhor Animação Escola ficou sem vencedor. O Rei Trapalhão foi um folião vestido de Vicking e o Melhor Travesti entregue à Sra. Ferrero. O Júri foi composto por cinco elementos, dois da Direcção Regional de Turismo, Pedro Pinto e Bárbara Spínola, dois de dois grupos carnanavalescos, João Egídio e Marisa Ferraz; e Carlos Aveiro, da empresa de animação Macroanima.

“Adorei, achei muito mais divertido do que no ano passado”, confessou o presidente do Governo Regional no fim. “Eu acho que teve mais gente, apesar do Carnaval se realizar em muitos concelhos no mesmo dia, não é mau. A crítica também foi engraçada, gostei particularmente da ‘Ignoração do Ferry’ e do presidente Marcelo estar em todo o lado. Foram dois quadros engraçados, para além do resto”.

Paula Cabaço também gostou. “Foi um belo desfile, tocou em várias temáticas, fez a sua sátira, que é esse no fundo o objectivo deste cortejo. É uma manifestação popular, e por isso mesmo tem uma grande autenticidade. Eu gostei, foi muito positivo”.

Paula Bagaço passou-lhe em frente, no grupo da ‘Ignoração do Ferry’ que não poupou a Secretária Regional do Turismo e Cultura. “Eu reajo bem à crítica, a crítica é fundamental”, disse, e quando é construtiva, “melhor ainda”.

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