Sem dinheiro nada se fez mas agora é hora da acção

Ricardo Franco reconquistou a Câmara Municipal de Machico e a maioria acredita que vai continuar, até porque, sem dinheiro não podia fazer mais do que fez. Outros crêem que Ricardo Sousa “vai fazer frente”

27 Set 2017 / 02:00 H.

“Tudo faz promessas, mas ninguém as cumpre”. Esta é uma das principais queixas dos munícipes de Machico. O concelho é palco das maiores alternâncias democráticas da Região e Machico é, muitas vezes, o concelho com mais incertezas. Em 2013, o PS protagonizou uma reviravolta, elegendo 4 deputados, tantos quanto o PSD tinha eleito em 2009, ficando Ricardo Franco à frente da Câmara Municipal. Desta feita, embora algumas vozes peçam uma mudança, a larga maioria pede mais quatro anos de PS “para ver o que fazem com as contas mais equilibradas”.

Ricardo Franco torna a alinhar pelo PS e Ricardo Sousa tenta reconquistar a Câmara para o PSD. Além destes, na corrida machiquense estão também Carlos Costa (JPP), Virgínia Henriques (MPT), Fernanda Calaça (PCTP/MRPP), Pedro Carvalho (CDU), Ricardo Giestas (BE), Álvaro Araújo (PNR), Lucília Sousa (PTP) e Marietta Drumond (CDS).

No Caniçal, as perspectivas parecem apontar todas para o mesmo alvo. À passagem de um carro de campanha do PS, um pescador indica sem hesitar: “Pode apontar aí, é mesmo esse que vai ganhar, o Franco continua na Câmara”. Com três candidatos à corrida pela Câmara Municipal com o nome ‘Ricardo’, é pelo apelido que são tratados. Franco ou Sousa, um deles vai ganhar, acreditam.

Um grupo de pescadores acede falar com a nossa reportagem. Para eles não restam dúvidas, o actual presidente não fez mais pelo concelho, porque não tinha dinheiro. Estes quatro pescadores assumem que falta centralidade ao Caniçal. “Este estaleiro aqui no centro devia de ser mudado mais para o fundo, onde há espaço e as lojas que estão aqui também deviam de sair”, explicam. Além da falta de um ‘centro’ da vila, falta espaço. “Ainda este fim-de-semana houve festa cá e não havia espaço para os carrinhos de choque dos miúdos. É preciso pensar nisso tudo, pensar no turismo”, afirmou um dos homens.

Questionados sobre o que falta ser feito, os homens apontam as melhorias na lota e no porto de pesca do Caniçal como principal problema, algo que já foi alvo de inúmeras promessas. “Fizeram tudo a correr para estar a lota pronta na Festa de Nossa Senhora da Piedade. É sempre assim, chega à altura das eleições e é tudo a correr”, esclarece. No entanto, têm certeza de que Ricardo Franco terá mais quatro anos para mostrar de que é capaz, até porque, dizem, “o Governo Regional não ajuda Machico porque é PS, mas têm que pensar que quem manda é o povo e que têm que trabalhar juntos”.

Na semana em que os candidatos se deslocam às diversas freguesias em inúmeras acções de campanha, eis que um dos pescadores remata: “Posso até dar a mão para cumprimentar, mas o voto é secreto e o povo é que escolhe”.

Porto da Cruz esquecido

Rumo ao Porto da Cruz, a certeza parece ser outra. “Fomos esquecidos”. A denúncia parte de um grupo que está sentado num banco de jardim perto da praça de táxis. À sua frente está um repuxo que não deita água há meses. “Nem isso foram capazes de zelar”, atira um dos homens, que pede para não ser identificado. Aliás, nenhum deles o quer ser, pois dizem que nada percebem de política, apenas sabem que ninguém se importa com esta freguesia. “Viu onde estacionou o carro? Não viu porque até as linhas dos estacionamentos foram esquecidas, estão apagadas e ninguém se importa”, lamenta um dos homens.

Nesta freguesia as opiniões dividem-se. Entre aqueles que pedem outra pessoa no lugar de Ricardo Franco, outros acreditam que o recandidato mais não poderia fazer. “Não há dinheiro”. A certeza parece ser partilhada pela maioria dos munícipes de Machico. Sem dinheiro nenhum político pode fazer nada, “venha quem vier”. “Eu não percebo nada de política, mas a verdade é que vêm para a saída da missa com sorrisos, canetas e folhetos, mas quando se pergunta o que vão fazer olham para nós com outro sorriso e mandam ler o papel. Eu quero que me digam na cara”, atira uma mulher que, entretanto, se junta nós.

“Ao menos fizeram a ponte na Maiata. Aquela que prometiam há anos e não faziam por falta de dinheiro. O Franco fez”, afirmou um homem reformado. Contudo, há quem reclame que só viu o actual presidente uma vez, logo a seguir às eleições de 2013, “e nunca mais ele pôs aqui os pés”.

São pequenas coisas que vão fazendo falta ao Porto da Cruz, a freguesia que se diz esquecida. Pintar e arranjar muros, melhorar a marginal, reforçar os acessos e ir tratando de “pequenas coisas” como as levadas para rega e as veredas. “Precisávamos era de um presidente do Porto da Cruz, isso sim”, esclarece uma das mulheres que descansa junto à igreja. A opinião que une estes fregueses resume-se em poucas palavras: “É preciso sair dos gabinetes para saber aquilo que o povo precisa”.

À saída do Porto da Cruz encontramos um agricultor que diz ainda não saber bem em quem votar. “Penso que o PS ganha novamente, mas não vai ser por muitos”, afirma. Quando perguntamos o porquê, não hesita em explicar que Ricardo Franco fez pouco, tudo por falta de dinheiro. “Não se esqueça que o Porto da Cruz foi muito afectado pelo temporal de Novembro de 2013 e foi preciso arranjar tudo o que foi destruído”, assume António da Rocha.

Machico quer mais acção

Eis que chegamos a Machico, onde os bancos junto à igreja matriz estão repletos de gente. Quem não se importa de falar ao DIÁRIO assume que “aqui nada vai mudar e o Franco vai continuar”. “Já conheci vários presidentes da Câmara, mas ao menos este quando sai fala com toda a gente e cumprimenta toda a gente”, esclarece o antigo GNR, ao que um amigo completa “sempre assim foi, sempre falou com todos”, assume Manuel Marques.

“Agora estamos na altura do beija-mão, em que todos vêm dar canetas e panfletos, mas as promessas são sempre as mesmas e depois ninguém faz nada”, afirmam os homens à sombra da árvore.

No entanto, parece que a população é unânime em considerar que não existiram mais investimentos porque, simplesmente, “não havia dinheiro”. Por outro lado, começa a nascer uma certeza. Agora que as contas estão mais equilibradas, termina o ‘estado de graça’ de Ricardo Franco e chega a hora de mostrar o que vale. “O Ricardo Sousa é bom homem, mas não é político. O que está na Câmara vai continuar e tem que mostrar trabalho nestes próximos quatro anos”, atira um senhor sentado num outro banco.

No entanto, quando questionados sobre aquilo que falta fazer, muitos dizem que “Machico está bem como está” e “também é preciso olhar para as outras freguesias que também precisam”. Casos de Água de Pena e de Santo António da Serra, que até é ‘partilhado’ com o concelho de Santa Cruz.

Às duas freguesias menos populosas do concelho machiquense dizem faltar o saneamento básico, em alguns sítios e dar uma nova vida às instalações do antigo hotel ‘Atlantis’., na zona da Matur. “Ainda há uns miúdos que vão para lá jogar paintball, porque se não fosse isso estava mais perigoso”, afirma uma mulher, em Água de Pena.

Também no Santo da Serra, a pavimentação é o principal problema, pois “Santa Cruz pôs alcatrão num lado e Machico não pôs no outro”.

Chega, portanto, a hora de entrar em acção, colocando em prática as promessas de ‘outros tempos’. A necessidade de apostar na rede de saneamento básico que seja capaz de chegar a todas as casas do concelho, que falha principalmente nas zonas altas e nos bairros sociais, apresenta-se como uma das prioridades apontadas pela maioria dos candidatos à Câmara Municipal de Machico.