Sem a Natureza não somos nada

Paulo Neves, escultor

13 Ago 2017 / 02:00 H.

Acredita na ressurreição e defende que a Natureza é o bem mais precioso de que dispomos. Paulo Neves é o autor da escultura ‘Aflição’, que se encontra patente na Rotunda da Fundoa, como tributo às vítimas dos incêndios de Agosto do ano passado.

Como começou a sua paixão pela escultura? Teve início quando eu tinha cerca de 10 anos e criei a minha primeira peça. Sou profissional, vivo da escultura, há cerca de 30 anos. Vivo em Cucujães, numa pequena aldeia, mas estive a viajar um pouco por vários países, durante três anos, aí como pintor. Depois regressei a casa, a Cucujães e fiquei lá a fazer esculturas.

Ainda guarda essa primeira peça de que me falou? De alguma forma sim. Deve estar por casa dos meus pais. Na altura a inspiração foi a ida do homem à lua.

Como surgiu a oportunidade de criar esta peça para figurar como tributo às vítimas deste incêndio? Eu tenho uma grande relação com a ilha da Madeira. Aliás, não foi a primeira, pois já fiz várias peças para a Madeira. Tenho uma em Câmara de Lobos, no Funchal, no Mercado dos Lavradores... gosto muito da ilha, vou muitas vezes à ilha. Tenho um grande amigo, o engenheiro João Baptista, que aqui no Continente até chamamos de João da Madeira. Há um ano, quando soube que o Funchal tinha um grande incêndio, falámos por telefone e surgiu a ideia de fazer algo que lembra-se as pessoas do quão mau é ter um incêndio. O quão aflitivo é, daí a peça se chamar ‘Aflição’. Foi feito a partir de troncos ardidos, de árvores que morreram em pé. Morreram no fogo. Por fora estão todas ardidas, queimadas, mas por dentro estão boas. Foi um bocado isso, tentar ressuscitar coisas que morreram.

Acredito na ressurreição e acredito que uma pessoa morre e há de ressuscitar e, nesse sentido, foi assim que a peça nasceu.

Como descreve a peça. Que significado tem para si? É esse mesmo. Tem a ver com a aflição, daí ela estar de braços abertos e tem a ver com o facto da árvore ter ardido no ar, ter morrido de pé. Para as pessoas quando passarem por lá se lembrarem que a Natureza tem que ser protegida, porque nós sem a Natureza não somos nada. Morremos também.

Há quem diga que esta escultura pode representar um anjo. Era esse o seu intuito? Pode ser. Eu acho que depois, as pessoas podem sentir a peça da maneira como quiserem. As pessoas não têm que sentir a peça da mesma forma que eu sinto. Podem ser anjos sim, porque não?

Até porque os anjos são um elemento a que recorre bastante nas suas obras... Sim é verdade, mas neste caso quis mesmo representar as pessoas aflitas, tem mais a ver com isso.

Tenho uma paranóia muito grande com os incêndios. Tudo o que mexa com incêndios eu fico doente. Tenho um atelier no meio de uma floresta e agora no Verão estou sempre aflito, sempre com mangueiras de água por perto, sempre com a paranóia que pode haver um incêndio e é um bocado essa aflição.

Ou seja, acaba por ser a sua própria interpretação do que sente em relação aos incêndios... Também, sim embora não tenha vivido esses momentos de perto.

Porquê trabalhar a madeira? Não só neste seu trabalho mas em tantas outras obras? Eu trabalho com madeira porque vivo num sítio rodeado de árvores e então é com esse material com que eu normalmente trabalho. Embora também trabalhe com pedras, com bronze, com ferro. Mas é essencialmente a madeira.

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