“Selvajaria” ameaça vereda secular

Desmatação suspeita abre caminho à polémica na Boaventura

16 Set 2017 / 02:00 H.

Está a gerar controvérsia a desmatação suspeita levada a cabo pela Junta de Freguesia de Boaventura numa vereda secular que liga a Fajã do Penedo à Boca das Voltas (São Jorge).

O “corte raso” dado na vegetação envolvente ao referido troço dos antigos caminhos públicos vicinais é agravado pela forte suspeita de estar-se a querer ‘abrir caminho’ para criar um acesso a terrenos agrícolas localizados na pendente da encosta.

A denúncia daquilo que classifica de “selvajaria” é assumida por Nuno Cunha, um guia de bicicleta de montanha que é utilizador deste trilho que estava abandonado até ser redescoberto por estes profissionais.

“Já deram cabo da vereda e agora preparam-se para meter uma retroescavadora”, acusa Nuno Cunha, agastado com o que viu quando recentemente voltou a passar pelo “caminho lindíssimo e imaculado no meio da Laurissilva. Foram lá e cortaram sem sentido algum uma série de plantas endémicas da Madeira, como folhados, faias, tis e loureiros. Estão a destruir um património com séculos”, reclama.

Este cidadão entendeu expor publicamente o caso depois de solicitar audiência e ter sido recebido, na última quarta-feira, pelo presidente do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza (IFCN). Apesar da denúncia apresentada a Manuel Filipe ter sido acompanhada de vários registos fotográficos que ilustram o resultado da limpeza feita a mando da autarquia local (ver fotos ao lado), Nuno Cunha saiu desiludido com o desinteresse que diz ter ficado evidente no contacto mantido com o responsável pela tutela florestal. “Não notei grande preocupação sobre o sucedido. Achei mesmo que encarou este caso de ânimo leve. Disse-me apenas que iam tentar notificar o infractor”, revela o queixoso.

Queixou-se ainda ao presidente da Câmara Municipal de São Vicente, mas não ficou convencido. “Fiquei com a sensação que estamos perante mais um dos licenciamentos do nosso regime. Primeiro deixa-se construir e depois há de se resolver”, apontou.

Entendeu por isso ‘dar a cara’ em defesa daquele património, denunciando o que se está a passar na serra da Boaventura, para “travar” a “ameaça” que está a dar cabo do potencial da vereda lindíssima. Temos de tentar evitar que se destrua aquilo tudo, antes que seja tarde demais”, afirma.

A revolta acentua ao recordar que também “já fui perseguido como um delinquente por estar a fazer o meu trabalho com turistas, e agora, um atentado destes e ninguém quer saber”.

Outra razão que o motiva nesta luta é o facto de ter contribuído para recuperar o trilho quando este se encontrava intransitável. “Fomos nós das bicicletas que conseguimos limpar a vereda e colocá-la transitável”. Trilho redescoberto debaixo da floresta. “Agora abrindo uma clareira como eles abriram, abrindo luz na Laurissilva, é facilitar o aparecimento das infestantes”, alerta.

Quanto ao impacto das bicicletas, entende que é mínimo, embora admita que a passagem das mesmas possa não agradar a todos. “Mas entre estar abandonado e nós limparmos para torná-lo público, se calhar também fizemos um grande serviço”, conclui.

IFCN: apurar motivo do abate de árvores

Tanto o Governo como a autarquia, dizem que a desmatação no cerne da polémica não é que uma “limpeza”. Negam também que o corredor aberto possa dar lugar a uma estrada.

“Não há qualquer tipo de autorização ao de parecer do IFCN relativamente à abertura de qualquer tipo de estrada naquela zona”, garantiu Manuel Filipe, acrescentando que o que foi feito foi “a limpeza da vereda, que penso tenha sido feita pela Junta de Freguesia”, alegou. Ainda assim, percebendo o alastrar da polémica, admitiu que quer “apurar as circunstâncias que motivaram o abate das árvores. Não sei se estavam a oferecer perigo à vereda ou se havia outra razão, mas vamos esclarecer”, prometeu.

Câmara: invenção eleitoral

Já o presidente da Câmara Municipal de São Vicente assegurou que não há nem haverá qualquer obra naquele trilho.

“Essa obra não existe. Já ouvi essa história e já me ligaram com esse assunto, mas não está nada autorizado para estragar seja lá o que for nem existe obra nenhuma no local. Sei que chega a altura das eleições e inventam-se coisas”, ripostou, dizendo-se disponível em ir ao local provar o que diz.

José António Garcês confirma que “o que houve foi uma limpeza da vegetação que estava em cima da vereda, autorizada pelo IFCN e acompanhada pela Polícia Florestal. Mais nada. A Junta de Freguesia [da Boaventura] fez essa limpeza para as pessoas utilizarem a vereda e não para passar nenhuma estrada, porque a Câmara não autoriza”, garante.

Junta: Floresta ficou intocável

Quem assumiu a “responsabilidade” pela desmatação foi o autarca de Boaventura. Joaquim Camacho esclareceu que a limpeza mais profunda foi feita apenas abaixo da zona florestal, ou seja, em área agrícola, e que na parte florestal “não foi tocado em nada, apenas limpamos praticamente no chão. Como havia uma grande densidade de árvores em cima da vereda, demos um corte maior naquilo que estava por cima da vereda e apenas até ao início da área florestal. A partir daí não houve qualquer intervenção, a não ser a limpeza com uma roçadora no chão da vereda”, explicou.

Quanto ao alegado ramal de acesso, “não há conhecimento disso”, foi a resposta.

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