“Se há mais veículos, há mais acidentes”

João Fernandes, instrutor de condução

13 Jan 2018 / 02:00 H.

O Governo da República quer tornar obrigatória a carta de condução para quem conduzir motociclos até 125 cm cúbicos que, actualmente, não é necessária para quem já tem carta de ligeiros e mais de 25 anos. O ministro da Administração Interna catalisou o tema em entrevista à Antena 1 nacional (que será hoje transmitida na íntegra): “ Temos de repensar aquilo que foi uma decisão que nos suscitou as maiores dúvidas, que foi a dispensa de qualquer formação para quem, tendo uma carta de ligeiros, possa comprar uma mota até 125cm3 e imediatamente sair para a estrada”, afirmou Eduardo Cabrita. O aumento da sinistralidade nas estradas é uma das justificações do ministro que, na Madeira, é apoiado pelo Director de Escola de Cundução, João Fernandes.

Concorda que a directiva deve ser alterada? É uma medida que nunca deveria ter sido implementada. É impensável. Em Portugal, há governantes com comportamentos que vão a reboque de vários lobbies. Neste caso, por exemplo, serviu para aumentar a venda de veículos. Foi benéfico porque foi uma forma de aumentar, mas também deve ter contribuído para a sinistralidade. Será que o condutor de categoria B [ligeiros] que se aventura na estrada [de mota] tem condições para o fazer em segurança? Quando se alterou, o diploma nem dizia que era uma transposição de directiva comunitária. Como é que vamos pôr uma pessoa habilitada se não tiver qualquer tipo de formação? Se quem tem carta de pesado de passageiros não está habilitado para conduzir pesado de mercadorias que são duas categorias mais próximas... Esta medida foi feita por uma equipa de iluminados, no início até parecia uma utopia. Para combater a sinistralidade foi um tiro no pé.

Os acidentes com estes motociclos aumentaram na Madeira, desde a alteração? A sinistralidade aumentou de certeza. Se há mais veículos, há mais sinistralidade.

Que alterações o Governo devia fazer? Devia haver um número mínimo de aulas e os condutores deviam ser submetidos a um exame. Já encontrei na estrada várias pessoas em dificuldade porque não tiveram formação adequada. Há também uma formação de quatro aulas teórica que deve ser feita.

Acha que, na Madeira, as vendas destas 125cm3 aumentaram muito? Não sei números, mas não havia tantos veículos 125. Basta olhar para os lugares de estacionamento disponíveis para estes veículos. Mas o que está em causa não são as vendas, mas a segurança. Então se um médico de clínica geral for fazer de dentista, está tudo bem? Claro que não.

E acha que pode ser contraproducente para o condutor, se correr mal? Às vezes. E outras vezes até é bom para as escolas: as pessoas compram e depois percebem que não conseguem conduzir e vêm comprar umas aulas. Não precisam de ir a exame, mas até fazem aulas. Mas estes são casos sem muita expressão. Depois há aqueles que não precisam, claro. E para as escolas até foi bom, porque começam logo com 125 e depois querem evoluir para a categoria superior e também compram aulas. No ano passado ensinei uma senhora de 48 anos que já tinha carta de ligeiro e queria mesmo aprender [a andar de mota]. Ela não sabia andar de bicicleta (que é meio caminho andado por causa do equilíbrio) e fez o inverso. Só depois de aprender moto é que aprendeu a andar de bicicleta.