Sarcasmo e muita crítica social

05 Fev 2018 / 02:00 H.

A ironia, o sarcasmo e a muita crítica social fizeram ontem rir a multidão que voltou a marcar forte presença em Santana, por ocasião da tradicional Festa dos Compadres.

Defronte do tribunal da praça nova da cidade, onde decorreu o popular julgamento dos compadres - Jodé de Freitas Pevide Vergalheiro, Maria da Purificação Cheiro dos Entrefolho e Antoino Vasilha Torta – o povo voltou a marcar forte presença para assistir ‘ao vivo’ ao momento alto daquela que é das mais peculiares tradições da cultura popular madeirense. Nem mesmo os chuviscos, que por duas vezes fizeram com que os guarda-chuvas se abrissem, entre o final do cortejo e o início do julgamento/sentença, chegou para afastar a grande moldura humana. A ameaça de chuva apenas fez alguns a procurar refúgio no parque de estacionamento coberto (debaixo da praça nova) e no interior da grande tenda montada ao lado dos Paços do Concelho. Coisa passageira, tal como os raios de sol, que também se fizeram sentir na tarde dominada pelos tons de cinzento e pelo frio.

Apesar da incerteza do tempo, gente de toda a ilha passou este domingo pela cidade da costa Norte. Muitos foram em excursão nas dezenas de autocarros que chegaram a Santana.

Foi o caso de Carmina de Freitas. Natural de Santa Cruz, já tinha dado quase meia volta à ilha, passando ela Ribeira Brava e São Vicente, até chegar a Santana. Sentada à entrada da nova praça, na companhia de outras idosas, a mulher de 76 anos admitia: “Como já somos velhas para estar de pé, se calhar via-se melhor na televisão do que aqui. Mas também viemos pelo passeio”, justificou, enquanto uma das amigas desejada “Deus queira que não chova”.

Quem também foi em excursão foi Paula Fernandes, residente em São Paulo, na Ribeira Brava. Juntamente com o marido e a irmã, aguardavam pelo momento mais esperado: “O julgamento dos compadres”.

Outros abdicaram do arraial na sua freguesia para voltar a marcar presença em Santana. “Como viemos especialmente para ver os compadres no tribunal, aproveitamos e vemos também o cortejo”, disse Paula Andrade, moradora no Campanário.

Sentadas a cantar na escadaria defronte da tenda onde decorria a animação musical, antes do cortejo, estavam três açorianas, naturais de Santa Maria.

“Viemos quatro dias para conhecer a Madeira e como queríamos conhecer as casas típicas, vimos no facebook que havia esta festa aqui. Por isso cá estamos”, explicou Olga Costa.

O ‘bom tempo’ deste ano também ajudou ao negócio dos feirantes. Ao início da tarde muitos não tinham mãos a medir para atender a clientela. Na ‘Barraca do Avelino’, a carne para espetada continuava a sair e o pão já tinha esgotado. “Está a correr bem, também porque não está a chover, porque o que estraga esta festa é a chuva”, sublinhou o patrão.

Na Poncha da Casinha estava calmo, mas sem razão de queixa do seu responsável. “É hora de almoço. Aqui só mais para a tarde. Penso mesmo que a chuva para nós é melhor, porque ontem (sábado) à noite choveu e tivemos muita adesão”, apontou.

Entretanto, cerca de 1.100 figurantes desfilavam no cortejo alegórico ‘dois em um’. Primeiro as escolas, com cerca de 900 foliões, depois a parte etnográfica, envolvendo uma dezena de entidades locais.

A meio da tarde era chegada a hora mais aguardada por muitos dos presentes: o julgamento/sentença.

A comadre Maria foi a primeira a chegar ao tribunal. A censura jocosa não se fez esperar, ao concluir que “a caveira do CR7 ali no aeroporto está bem bonitinha como as ventas de quem fez”, arrancando as primeiras gargalhadas do público. O escárnio não tardou, quando à chegada do juiz, foi repreendida por estar a bordar na sala de audiências. Oportunidade para confessar que também não se importava de deixar o bordado para ir “para secretária regional como a Cabaça, ... ou como o cabaço”, atirou.

Nesta altura, o reaparecimento dos pingos de chuva já não era suficiente para fazer esmorecer o entusiasmo da vasta plateia, que se ria com a crítica dura e mordaz que carateriza o julgamento.

E assim continuou. A comadre que “em dez anos teve três ‘marides’, tantos quantos os secretários da Saúde deste Governo, em apenas dois anos”, concluiu que o mediatismo no caso da gata perdida do aeroporto , prova que “os bichos hoje em dia são mais bem tratados que as pessoas”.

Quem chegou ao tribunal dizendo-se “reformado como o Sr. Bispo, que tá reformado mas nunca larga o tacho”, foi o compadre Jodé. No habitual registo sarcástico fez saber que o moinho da Achadinha “é tão antigo, que quando o descobriram a Madeira já estava lá”.

Aproveitou também a ida de Humberto Vasconcelos, o secretário regional da Agricultura e Pescas, à Festa dos Compadres, para desvendar os estratagemas daqueles que mesmo sem trabalhar a terra, recebem o subsídio pago ao agricultor. Para tal, importa é remexer a terra antes da chegada dos fiscais, ou seja, “fazer a terra fresca, nem que seja de noite”, que o subsídio é garantido.

O mesmo já não acontece nas campanhas eleitorais, queixando-se que “agora já não são como antigamente”, como no tempo do Alberto João, em que “atacava a pança” com as fartas campanhas de comes-e-bebes.

O árbitro do Porto Moniz que fez a “cama dos noivos” para casar com o Cafôfo, o ferry que continua encalhado, “nem para trás, nem para a diante”, o charter dos estudantes “quando a maioria já estavam aqui à porta a comer carne de vinho-e-alhos” e a candidata que queria ser “regedora no Faial para meter a família toda na Junta”, foram alguns dos muitos assuntos trazidos à baila pelo compadre mais famoso entre os réus.

Já os deputados “que só ouvem e não mexem os queixos para dizer a ponta de um corno” foram outro dos alvos do compadre Antoino.

No elenco deste ano, a novidade foi o advogado de defesa, também por ter doutoramento em DOG - Doutorado em Orgulho Gay. A comadre ainda desconfiou que fosse um dos que se perderam “do barco dos gays que atracou na Pontinha”.

Predisposto a fazer tudo “mas tudo mesmo”, conforme acentuou à chegada, no final do julgamento, quando instado a se pronunciar em defesa dos réus, John admitiu que se sentia “num buraco sem saída”, até porque, “preferia estar na saída do buraco”, confessou.

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