12 Mai 2018 / 02:00 H.

Rigo 23 está na Madeira com um novo projecto artístico, um projecto de interacção social orientado por Michelle Kasprzak, que envolve um grupo de 12 adolescentes do Bairro da Palmeira, mais conhecido como Bairro das Malvinas. São alunos entre os 12 e os 15 anos do sétimo ano da Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos da Torre com dificuldades de aprendizagem. A curadora polaca-canadense convidou o artista madeirense, radicado nos Estados Unidos, a partilhar a iniciativa. Está presentemente a fazer um doutoramento no Critical Technical Practice Lab, do Madeira Interactive Technologies Institute (M-ITI), em parceria com a Universidade do Porto.

Michelle Kasprzak vem da área artística ligada às novas tecnologias e está a fazer um doutoramento relacionado com arte que intervém socialmente. A colaboração de Rigo23 com os jovens residentes do bairro será o caso de estudo e está temporariamente denominado como ‘Ecos de Machim’. O resultado final do projecto será exposto no MUDAS – Museu de Arte Contemporânea da Madeira no final de 2019.

Tudo começou no Verão do ano passado com os contactos iniciais. Em Dezembro Rigo 23 conheceu os jovens e agora está de regresso para aprofundar o trabalho de campo. Na quinta-feira o grupo foi dar um passeio a bordo da Nau Santa Maria. Já tinham estado no M-ITI em outras duas ocasiões e na casa da mãe de Rigo 23 (Ricardo Gouveia), onde descobriram mais sobre os bordados, sobre a casa e a infância do artista plástico, num género de troca, porque estão a permitir também que o artista lhes entra em casa.

A ideia é investir na auto-estima da população, revelou Rigo 23. “Aquele bairro nasce na cultura popular com o nome de guerra, uma guerra colonial britânica”. Rigo 23 gosta de contar histórias menos contadas. Câmara de Lobos, disse, está a transformar-se numa espécie terra do Churchill, com a construção dos hotéis Churchill Place e Churchill Bay. “Entretanto a população local é menos valorizada”, constatou.

Rigo 23 vai focar-se no bordado e na construção de barcos. Por outro lado, pretende também explorar a cultura oral do bairro.

Na Madeira em geral e ali em particular, destacou, são comuns as alcunhas. “Acho que há uma dupla cidadania. Há a cidadania oficial, a Paula Henriques, o Ricardo Gouveia, depois há o ‘Bailhinha’, o ‘Orelhas de fiambre’, o ‘Dente de tomateira’, o ‘Levedura à prova de água’, o ‘Placa de xamon’, o ‘25 de Abril’, o ‘Sapateira’. É uma coisa deliciosa”.

O artista plástico encontrou nas Malvinas uma cultura própria muito rica, que de certa maneira conta uma história oposta de um bairro feito de prédios numerados.

A valorização da cultura oral, do bairro, o bordado e a construção de barcos são as linhas com que vai coser este projecto, temporaimante denominado ‘Ecos de Machim porque liga com os 600 anos e com os aviões supersónicos, que por sua vez remetem para o nome Malvinas e para a guerra, explicou. “Iremos talvez contruir uma nave mais ou menos fantástica, um barco mais ou menos fantástico que fala dos heróis. A ideia passa por isso”.

Em 2006 Rigo 23 esteve no MUDAS com uma exposição antológica. A sua ideia é, de certa maneira, fazer um segundo episódio, menos ambicioso, mas que documente o trabalho que tem feito desde então. Muito do trabalho do madeirense tem incidido em histórias que envolvem períodos de tempo longo, de centenas de anos. “São já vários trabalhos que tenho feito, é uma espécie de revisitar uma primeira onda documentada de globalização, como maneira de comentar no processo actual de globalização.”

O processo criativo de Rigo 23 decorre paralelamente com as actividades com os jovens. O projecto tem várias pontas e parceiros, entre eles a IHM – Investimentos Habitacionais da Madeira, que vai realizar obras de melhoramento no bairro. Murais e um logotipo são ideias a crescer.

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