Reviver Cabinda, 42 anos depois

Madeirenses do Batalhão 4913/73 evocam os dois anos e meio da tropa. Se no 25 de Abril em Portugal se dispararam cravos, em Cabinda os tempos que se seguiram foram violentos

Angola /
19 Mai 2017 / 02:00 H.

Os madeirenses José Duarte, Fernando Freitas, José Fernandes, Esmeraldo Sousa e Teodoro Aguiar têm em comum a idade (entre 64 a 65 anos) e a partilha de uma fase marcante das suas vidas: nos dias do Natal de 1973 estiveram todos na cerimónia de despedida do Batalhão de Caçadores 4913/73 que iria passar 17 meses no Ultramar, a maior parte do tempo em Cabinda, nas matas do Maiombe, a segunda mais densa do mundo, rica em madeiras preciosas, petróleo, manganésio e fosfatos.

Volvidos 42 anos, no sábado 20 de Maio, este grupo de madeirenses prepara-se para voltar a reunir na Madeira os membros do 4913/73 e seus familiares, no convívio anual que remexe em tantas memórias.

Naquela altura, ir combater para o Ultramar era a sina da maioria dos jovens portugueses. Nesse ano de 1973, ainda cheirava a Natal e os primeiros militares do batalhão já arrancavam para terras angolanas. Melhor sorte teve este grupo de madeirenses que só embarcaram para África, de avião, a 7 de Janeiro de 1974. Quatro décadas depois, na redacção do DIÁRIO, predispuseram-se a recordar alguns factos por ordem cronológica e com ajuda do levantamento exaustivo feito pelo companheiro Fernando Moreira.

A missão em Cabinda

Foi na Fazenda da Funda, depois de uma paragem técnica no Grafanil, em Luanda, que os militares tiveram um mês de Instrução de Aperfeiçoamento Operacional. “Foi bastante duro para militares continentais que não estavam habituados às temperaturas que se verificavam em África. Mas aguentaram.”

A subida do primeiro grupo para Cabinda, no Norte de Angola, foi efectuada a a 10 de Fevereiro numa fragata. Quatro dias depois, ficaria o Batalhão completo com a chegada, em avião da FAP, da 3.ª e última companhia.

A 17 de Fevereiro deu-se a entrada do Batalhão na zona do Belize, sob o lema ‘ocupar, defender e organizar’ aquela zona de Angola. Para tal seria necessário colaborar com as autoridades administrativas, contactando e controlando as populações existentes na sua área, exercendo sobre estas “assistência sanitária” e sobretudo uma “intensa acção psicológica”, além de exercer uma pesquisa de informações em todos os meios. Competia também ao Batalhão 4913 garantir a segurança da estrada principal Buco Zau-Miconge, além dos itinerários Caio Guembo-Sanda Massala, Bitina e Belize-Luáli.

Fundamental era inter-agir com os núcleos das Tropas Especiais (a chamada TE, um grupo de 1.200 guerrilheiros que se desagregou da movimento independentista UPA e passou a combater por Portugal), quer em acções isoladas, ou em colaboração com outras forças. O combate e a vigilância permanente às movimentações adversárias, bem como garantir a segurança do destacamento e travar o eventual agravamento da situação a sul do Rio Chiloango.

A componente psicológica era uma das acções prioritárias, com as tropas a receberem instruções para explorar os temas de Acção Psicológica, conjugados com medidas de acção sócio-económica, realizáveis a nível local e em colaboração com as Autoridades Administrativas locais.

“A partir do início de Março de 1974 a actividade dos resistentes começa a fazer-se sentir de maneira violenta, manifestando-se através de emboscadas, flagelações e ataques aos aquartelamentos”, obrigando o Batalhão 4913/73 a desencadear uma intensa actividade operacional.

Repletas de militares madeirenses, as três companhias sofreram baixas consideráveis que vieram afectar psicologicamente todo o Batalhão. “O MPLA havia perdido a iniciativa no Leste de Angola tendo sido derrotado, nos Dembos os seus grupos estavam dispersos e eram combatidos tanto pelo Exército Português como pela FNLA, o que leva o MPLA a concentrar os seus restantes efectivos no Congo Brazzaville e a partir das Bases de Banga, Dolisie e Kimongo passa a exercer uma pressão constante sobre a fronteira Norte e Leste do Enclave de Cabinda, nomeadamente sobre o Sub-Sector do Belize que estava sob a responsabilidade do nosso Batalhão”, descrevem os madeirenses, 42 anos depois.

“Esta situação manteve-se até meados de Agosto de 1974, cerca de cinco meses após o 25 de Abril em Portugal, tendo o MPLA mantido uma pressão constante sobre as Unidades do Norte de modo a obrigar o novo governo português a reconhecer o direito dos povos à autodeterminação e consequente independência” – relatam os antigos militares. “Só a partir de meados de Agosto foi assinado localmente um acordo de tréguas com o MPLA, único Movimento de Libertação a actuar no Enclave de Cabinda.”

FLEC contra MPLA

Nas duas primeiras semanas de Setembro de 1974, o Batalhão 4913 deixa Belize e é deslocado para Dinge, Massbi e Tchivovo onde permanece até sair do enclave de Cabinda com destino ao Ambrizete. “Esta situação manteve-se até que a FLEC-Frente de Libertação do Enclave de Cabinda resolve pegar em armas e provoca vários desacatos na Cidade de Cabinda, na noite de 31 de Outubro de 1974.”

A FLEC era uma organização separatista que lutava politicamente pela independência do enclave, conforme alguns acordos entre Portugal e Cabinda; ao sentir que a situação caminhava para a anexação do Enclave de Cabinda a Angola, e consequente entrega ao MPLA, a reacção beligerante não se fez esperar, o que levaria a uma acção militar concertada por unidades do MPLA, obrigando à fuga da FLEC para os Congos de onde começariam a operar.

Os acontecimentos sucediam-se e, no sábado dia 2 de Novembro, por volta do meio-dia, a população de Cabinda assistiu estupefacta a um insólito acontecimento: “Militares pertencentes ao Batalhão de Caçadores 4519/74, estacionados na área do Belize, avançam em coluna militar apoiados por um destacamento do MPLA.” No terreno encontravam-se também elementos do Batalhão de Artilharia 6524/74 que tinham vindo para Cabinda no dia anterior, e elementos do nosso Batalhão 4913/73, que foram os últimos a aderir ao movimento.

“Esta força combinada ocupa pontos estratégicos da cidade de Cabinda, alegadamente para travar as actividades desenvolvidas pela FLEC-Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC), tendo sido presos vários comandantes e 12 oficiais do Exército português. A seguir houve saneamentos, efectuados por militares da CCS e da 1ª. Companhia do nosso Batalhão, por motivos que os próprios saberão explicar”, relatam. Segundo consta, teria sido um elemento do 4913, o primeiro a abrir fogo frente à sede da FLEC, face aos insultos de que estavam a ser alvos.

Cabinda sossega durante uns dias até que na noite de 9 para 10 de Novembro, a FLEC, reforçada com desertores das Tropas Especiais e com mercenários franceses, conquista o Morro de Sala Bendje, sobranceiro ao Massabi (onde estavam elementos do pelotão de canhões sem recuo e morteiros da 4672/73, adidos à 2.ª Companhia do Batalhão 4913) e aprisionam 16 militares da guarnição, além de 6 civis e 7 polícias que retiveram como reféns, tomando posse das armas existentes no aquartelamento. “Controlando totalmente a situação, a FLEC exige às autoridades portuguesas o reconhecimento à sua existência como movimento armado, assim como a independência de Cabinda, ameaçando exercer retaliações sobre os reféns e destruir com os canhões o aquartelamento do Massábi”, relatam os homens do Batalhão 4913. Os assaltantes irão permanecer cerca de uma semana no local, retirando-se apenas na sequência da demarcação do governo congolês desta acção, que denuncia a presença do mercenário franco-libanês Jean Kay no seio daqueles.

A 20 de Dezembro daquele primeiro ano em Angola, o Batalhão 4913/73 roda para o subsector do Ambrizete, também no norte da aquela ex-colónia. Nesta zona, cujo dispositivo militar estava já em retracção, o Batalhão limitou-se a assegurar a segurança de pessoas e bens e instalações e a colaborar na manutenção da ordem pública.

Já em 1975, entre 26 e 28 de Abril o Batalhão deslocou-se finalmente, de novo, para o Campo Militar do Grafanil, onde se manteria até 9 de Maio, data do regresso à “Metrópole”.