Região doente e vulnerável ao nível ambiental

João Baptista recorda as várias ocorrências ambientais dos últimos anos e considera que “a nossa casa comum está doente e a precisar de cuidados intensivos”

22 Abr 2017 / 02:00 H.

Nos últimos dez anos a Madeira foi atingida por outros tantos eventos ambientais distintos, entre catástrofes naturais e pragas, que deixaram marcas que estão ainda por sarar. O diagnóstico é feito pelo investigador geobiotécnico da Universidade de Aveiro e representante da Associação Europeia para a Conservação do Património Geológico - Progeo Portugal, João Baptista da Silva, por ocasião do Dia Mundial da Terra, que hoje se comemora.

João Baptista da Silva não tem dúvidas de que a Região, “a nossa casa comum, está doente e a precisar de cuidados intensivos”. O investigador considera que, nos últimos anos, “estamos a viver uma situação anormal”, tal a sucessão de ocorrências ambientais que têm afectado a Madeira (ver página seguinte).

“Fiz um exercício de memória e não conheço no espaço geográfico da Macaronésia e possivelmente no mundo, uma região que esteja tão doente e tão vulnerável como a nossa”, sustenta, lembrando que os Açores, por exemplo, “têm os sismos, têm escorregamentos, mas em quantidade, em avaliação de prejuízos e em traumas psicológicos provocados na população, não conheço nenhuma região que esteja tão fragilizada como a nossa”. João Baptista entende, por isso mesmo, que é fundamental “reflectirmos todos em conjunto e definirmos estratégias a curto, a médio e a longo prazo”.

“Há uma frase que eu acho interessante - ‘Deus perdoa sempre, o homem às vezes e a natureza nunca’ - e que ilustra bem aquilo que vivemos. Após a aluvião de 20 de Fevereiro de 2010 e os incêndios, eu vi as pessoas vivas por fora e mortas por dentro”, lembra o investigador, acrescentando que “nessa vulnerabilidade emocional, resultante da perda de um ente querido, de um objecto, de uma fotografia, eu ouvi as pessoas dizerem ‘Deus castigou-nos’. Mas o que acontece é que é o homem que se castiga a si próprio com as suas acções e com a sua ganância. Tudo aquilo que vivemos nos últimos anos deve-se à acção do homem e ao desenvolvimento desenfreado”, sublinha.

O investigador entende que é importante que os madeirenses percebam que “vivemos numa ilha, estamos isolados, com economias pequenas, fortes influências de economias externas, espaço físico limitado, uma orografia difícil, recursos naturais limitados e não renováveis porque os vulcões que deram origens materiais já não os fabricam” e que, por isso mesmo, se deverá “encontrar o equilíbrio para saber viver com estas condições”.

“Natureza reage às perturbações”

João Baptista defende que “a mãe natureza reage sempre às perturbações a que é submetida para se manter em equilíbrio”, aludindo ao desenvolvimento que a Madeira foi alvo nos últimos 40 anos. “É uma constatação inequívoca que houve desenvolvimento, mas é importante perceber é se esse desenvolvimento foi sustentado”. E a resposta é clara: “Estamos a pagar a herança desse desenvolvimento desenfreado. A natureza está a reagir às perturbações a que foi submetida, através das escavações, dos túneis, da mudança de ambientes que foram acontecendo, para se manter em equilíbrio.”

O representante da Progeo Portugal adverte, no entanto, que os próprios hábitos da população, que foram alterados nos últimos anos, podem ajudar a reequilibrar a natureza. “Passam por gestos simples, como limpar os terrenos, mantendo-os cultivados”, vinca, considerando que é importante que as pessoas voltem à agricultura, uma vez que, para além da questão meramente económico, “os terrenos cultivados são uma forma de manter a segurança à volta das casas”.

O investigador defende que “nas últimas décadas, destruímos mais e criámos mais vulnerabilidades na nossa casa comum do que os nossos antepassados em 580 ou 590 anos de presença nas ilhas da Madeira e do Porto Santo”.

Por isso, considera que é fundamental “uma mudança de paradigma, porque se nós não mudarmos, o que se nota face às variações climáticas - chove cada vez menos, mas quando chove é com maior intensidade, temos verões cada vez mais secos e quentes -, face também à vulnerabilidade do território e à quantidade de eventos que nós temos, a tendência é que essa mesma vulnerabilidade aumente”. De resto, conclui, “o que se nota é que, de evento para evento, as proporções são superiores”.