“Reflictam bem as consequências desta gestão negligente”

Filipe Olim, Comissão de Utentes do SESARAM

30 Jan 2018 / 02:00 H.

A Comissão de Utentes do Serviço Regional de Saúde esteve ontem à porta do Hospital Dr. Nélio Mendonça para, uma vez mais, denunciar a falta de medicamentos e dar voz à preocupação crescente de esta ser uma situação que já se tornou frequente na farmácia do hospital.

As recentes denúncias de doentes oncológicos sobre a falta de um medicamento utilizado no tratamento do cancro da mama, nomeadamente o Letrozol, conforme o DIÁRIO deu conta na edição de domingo, motivou a acção da Comissão de Utentes, liderada por Filipe Olim, a quem entrevistamos.

Quais são os medicamentos que estão em falta? Como sabemos, isto já é quase uma situação crónica porque tem vindo a se arrastar há muitos meses. Só para relembrar as denúncias mais recentes, temos o caso muito falado para a esclerose múltipla, temos a falta de medicamentos para a área oncológica, e não é, infelizmente, a primeira vez que tal acontece, sendo que na última semana chegou ao nosso conhecimento mais uma situação de ruptura, concretamente do Letrozol, que é um medicamento utilizado no tratamento do cancro da mama, que é muito requisitado, porque como todos sabemos, é um dos cancros com maior incidência.

Aliás, ao contrário do que foi dito para a comunicação social pelos serviços hospitalares, a resposta dada aos nossos utentes é que não havia medicamento, não se sabia quando é que ia chegar e que não seria assim tão cedo. O que mais uma vez obriga os doentes a terem que comprar o medicamento nas farmácias privadas, empurrando assim o SESARAM para o privado uma obrigação que é claramente do Estado.

Como é que se explica que haja ruptura de medicamentos na farmácia do hospital central? Só pode por má gestão. Principalmente pela má gestão dos stocks de medicamentos. Para esta Comissão essa será certamente a principal razão para se ter chegado a este ponto de constante falta de medicamentos.

Por isso é que estamos aqui para chamar a atenção, também dos órgãos administrativos e da Secretaria Regional da Saúde, para que reflictam bem acerca das consequências desta gestão negligente e dos impactos que a mesma tem na saúde dos utentes.

Das rupturas que têm afectado diferentes áreas da saúde, alguma que seja motivo de maior preocupação? De uma maneira geral a ruptura que interfira no tratamento das pessoas é sempre preocupante, qualquer que seja a área afectada. Mas ainda mais preocupante é quando esta falta de medicamentos, que infelizmente já se tornou numa rotina no nosso sistema regional de saúde, afecta doentes em situação de carência, porque além da doença, estão debilitados psicologicamente e muitas vezes sem recursos financeiros para poderem sequer adquirir os medicamentos em falta noutros locais, porque como é sabido, nomeadamente os tratamentos para doenças oncológicas, são dispendiosos quando adquiridos em farmácias privadas. Mas de uma maneira geral claro que a Comissão de Utentes está bastante preocupada com a ruptura de stocks que tem havido em todas as gamas de medicamentos.

Há algum caso que tenha colocado ou que esteja a colocar em risco a vida dos doentes afectados? Como já disse há instantes, tratando-se de medicamentos para o acompanhamento e tratamento de doenças oncológicas, parece evidente que a interrupção dos tratamentos por falta de medicamentos poderá colocar em causa a própria vida do paciente. Pelo menos prejudica, sendo certo que afecta sempre o seu bem-estar.

O facto desta ruptura de stocks atingir medicamentos que até são de ‘baixo custo’, não torna este constrangimento ainda mais absurdo? Essa é a pergunta que eu faço ao senhor secretário regional da Saúde e aos órgãos administrativos do SESARAM...

E na sua opinião? É inaceitável. Mais ainda porque quando acontecem penalizam sobretudo os doentes com maiores carências económicas, que não têm capacidade de recorrer ao privado para colmatar a falha do sistema público. Por isso defendemos como solução de recurso, que nestes casos excepcionais e em casos extremos, a comparticipação total dos medicamentos em falta quando estes são adquiridos pelos pacientes em farmácias privadas

Refere-se ao reforço dos apoios sociais como solução alternativa para encontrar no privado o que muitas vezes falta no público? Com certeza. É sabido que há comparticipação da Segurança Social na aquisição de medicamentos, onde x do valor é descontado automaticamente. Mas nestes casos de extrema urgência, onde a culpa é claramente da má gestão do SESARAM, nestes casos extraordinários o medicamento devia ser comparticipado na totalidade, ou seja, suportados a 100% pelo Estado, podendo assim o paciente adquirir numa farmácia privada os medicamentos em falta na farmácia do hospital, sem qualquer custo para si.

Quem deve ser responsabilizado por esta situação que mexe negativamente com a saúde dos doentes? Acho que todos os responsáveis ligados à área da Saúde são responsáveis. A começar pela secretaria regional da tutela, mas também pelos órgãos administrativos do SESARAM. Todos são responsáveis por este estado cada vez mais doente da nossa saúde.

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