Reconhecidos cá e lá

Automóveis clássicos já estão ‘certificados’ para circularem em todo o País

16 Abr 2018 / 02:00 H.

A partir de agora, todos os veículos que sejam certificados como viaturas de interesse histórico, por parte do Clube de Automóveis Clássicos da Madeira (CACM), já podem circular livremente em qualquer zona do País.

A Certificação de Viatura de Interesse Histórico e Patrimonial é um processo que atesta a qualidade dos veículos históricos e permite o reconhecimento da mesma como um clássico em caso de conflito, nomeadamente junto de seguradoras.

Desde o início do ano, com base no decreto-lei 144/2017 que regula o regime de inspecções técnicas de veículos a motor, publicado em finais de Novembro do ano passado em Diário da República, está definido que todos os veículos com mais de 30 anos podem ficar isentos de Inspecção Periódica Obrigatória (IPO), desde que certificados como sendo de interesse de histórico - até então a inspecção obrigatória era anual para todos os veículos posteriores a 1960.

Ora o CACM, sob a égide da actual direcção, já certificou, desde 2013, 228 veículos, mas faltava-lhe dar um passo em frente para que as viaturas tivessem ‘liberdade’ de circular em todo o Portugal, algo que foi conseguido através de um protocolo com o ACP Clássicos, entidade de utilidade pública, que certifica em todo o país as viaturas de interesse histórico.

“Desde 1996 que o Clube Automóveis Clássicos da Madeira está autorizado e credenciado, através de uma portaria regional, a fazer certificações de automóveis antigos. Essas certificações tinham até ao final do ano passado um limite para os carros anteriores a 31 de Dezembro de 1959, altura em que saiu um decreto-lei nacional, com base numa determinação comunitária, a dizer que os carros deixavam de ter a obrigatoriedade de irem ao Centro de Inspecções, desde que tivessem mais de 30 anos de idade, até Dezembro de 1988, o que em Portugal compreende cerca de 50 mil carros. Isto foi a melhor notícia que poderia ter saído para quem é amante dos automóveis clássicos, no entanto, estávamos limitados ao facto da nossa certificação só valer para a Madeira, daí que precisávamos de ter alguém que desse equivalência aos nossos certificados para podermos transitar a nível nacional, o que acabou de acontecer, com o protocolo que celebrámos com o ACP Clássicos”, explicou ao DIÁRIO, o presidente do CACM, Gonçalo Pereira, regozijando-se com o facto do acordo já estar firmado. “Maior parte dos nossos associados não vão passear lá fora mas este era um direito que lhes assistia e conseguimo-lo”, vincou, também.

Com base na parceria estabelecida com o ACP Clássicos, com reconhecimento em termos nacionais, todas as certificações terão dupla validade e já começou a despertar o interesse nos clubes monomarca para esta nova realidade. “Ao ponto de termos passados as certificações que eram feitas mensalmente para quinzenais. Está a crescer”, revelou o líder do CACM, destacando que “qualquer carro tem de responder aos parâmetros exigidos”. “A exigência é grande e muito maior para os carros mais recentes”, garantiu Gonçalo Pereira, realçando ainda que no dia das certificações, que ficam à disposição da Direcção Regional de Transportes Terrestres e Polícia de Segurança Pública, “são tiradas fotografias do exterior, da frente, da traseira, do motor, do tablier e estofamento, para ficar comprovado o estado de conservação dos carros”.

Refira-se ainda que o CACM, que faz uma “avaliação criteriosa e de pedagogia” a todas as viaturas, não limita a sua acção a apenas sócios do clube, e que vai aguardar pelo prometido ferry, para que os madeirenses possam realizar provas e passear lá fora, agora devidamente certificados.

“A Madeira é um fenómeno nos clássicos”

O secretário geral do ACP, Luís Cunha, confirmou ao DIÁRIO a celebração do protocolo com o Clube de Automóveis Clássicos da Madeira (CACM). “A razão de ser deste protocolo vem na sequência do decreto-lei 144/2017, que, no fundo, regula toda a actividade da inspecção dos automóveis clássicos e reconhece a existência de veículos de interesse histórico com mais de 30 anos. E é uma forma de prestarmos um serviço público a um número mais alargado de entusiastas, até porque a Madeira é um fenómeno em termos do entusiasmo por automóveis clássicos”, valorizou o dirigente do ACP, elogiando o CACM. “Tem uma excelente estrutura montada, que já fazia as certificações com a nossa filosofia, ainda que com âmbito meramente regional, mas que agora pode proporcionar aos seus associados e não só uma nova realidade”, revelou.

Luís Cunha fez também questão de elogiar o parque automóvel de clássicos que existe na Madeira. “Esse também foi um dos pontos que nos levaram à celebração deste protocolo. A Madeira é uma das regiões do país que mais acarinha os automóveis. Como já referi, é um fenómeno, em especial o carinho e o cuidado com que as pessoas restauram os automóveis populares e familiares. É algo que nos deixa perfeitamente admirados”, salientou, vincando a qualidade de viaturas como “os belíssimos Peugeot 403 ou Fiat 1100, coisa que noutras zonas do país não é tão vulgar de acontecer”.

O secretário geral do ACP vincou, depois, que é fundamental “acarinhar os entusiastas madeirenses, que fazem esforços que não têm reconhecimento do ponto de vista económico, porque os investimentos que fazem em carros familiares e populares para os restaurar é francamente superior ao valor comercial dos mesmos”. “Há razões emocionais que ligam as pessoas a um determinado carro e isso tem de ser acarinhado e apoiado, porque a história do automóvel não é feita só de Ferraris. Aliás, os carros populares e familiares tiveram uma grande importância naquilo que é a história da nossa civilização recente”, explicou.

A finalizar, Luís Cunha desejou que o ferry entre a Madeira e o continente português venha a ser uma realidade em breve, como forma de “viabilizar o intercâmbio entre os entusiastas do continente e da ilha”. “Teríamos o maior interesse e gosto em organizar grupos de sócios e entusiastas para irem à Madeira, bem como ajudar em iniciativas em sentido contrário, como forma também de mostramos no continente aquilo que de muito bom se faz na Madeira”, destacou, elogiando a finalizar o Madeira Classic Revival, que acontece em Maio. “Tem uma componente lúdica e turística muito grande e está entre os maiores eventos que se fazem anualmente em Portugal. É muito fácil cativar as pessoas que têm clássicos a irem passar umas férias à Madeira. É o melhor de dois mundos. Logo que o ferry esteja certo o sucesso está garantido”, opinou.

“Segurança é sempre posta em primeiro lugar”

Numásio Silva e Rui Martins formam a equipa técnica do Clube Automóveis Clássicos da Madeira que, devidamente reconhecida, faz as certificações das viaturas de interesse histórico e patrimonial. “A maior parte das pessoas que têm carros antigos têm cuidados com as viaturas e querem ter sempre as coisas em condições. Só há um ou outro que é mais desleixado”, disse Numásio Silva, que é engenheiro mecânico de profissão, afiançando que a “segurança é prioritária”. “É sempre posta em primeiro lugar, porque não só coloca em risco a vida de quem conduz como também de quem anda à volta”, explicou.

Já Rui Martins, que é mecânico de profissão há cerca de 50 anos, vinca que na Madeira existe uma “frota de carros antigos invejável”. “E isso acaba por facilitar o nosso trabalho, porque vemos coisas bem-feitas”, completou Numásio Silva.

A exigência faz parte dos métodos de trabalho da dupla de certificadores, que tem uma ficha de critérios de avaliação é mais detalhada do que aquela que é tida em termos nacionais. “O carro tem de estar original”, avisam os certificadores.

Perguntas e Respostas

Quantos clássicos há na Madeira?

O Clube Automóveis Clássicos da Madeira (CACM) tem cerca de 250 sócios, que representam à volta de 400 carros. Mas na Região há muitas mais viaturas clássicas, perto de 1.300. Com a actual direcção, presidida por Gonçalo Pereira, desde 2013 já foram certificadas quase 230 viaturas.

São considerados nesta categoria os veículos com pelo menos 30 anos de matrícula, de um modelo já não fabricado, objecto de conservação histórica, em estado original e sem características técnicas alteradas significativamente.

O que é um clássico?

De acordo com a Federação Internacional dos Veículos Antigos (FIVA), um clássico é aquele que, com uma idade mínima de 30 anos, mantém-se mecanicamente saudável sem que seja um transporte para o dia-a-dia. Além do mais, estes automóveis deverão indicar um bom estado de conservação para que possam ser parte integrante da herança técnica e cultural.

Mas atenção: nestes casos a idade não é um posto. E se for proprietário de um carro com mais de 30 anos que se mantém diariamente em circulação, então a designação ‘clássico’ não é aplicável.

Quantos tipos de clássicos existem?

Ainda que muitos carros partilhem o conceito de ‘clássicos’, nem todos o exibem pelo mesmo motivo. Assim, há oito tipos de clássicos distintos: os ‘pioneiros’, desde que a data de construção seja anterior a 31 de Dezembro de 1904; os ‘veteranos’, montados entre 1 de Janeiro de 1905 e 31 de Dezembro de 1918; os ‘vintage’, construídos entre 1 de Janeiro de 1919 e 31 de Dezembro de 1930; ‘pós-vintage’, entre 1 de Janeiro de 1931 e 31 de Dezembro de 1945; e ‘pós-guerra’, entre 1 de Janeiro de 1946 e 31 de Dezembro de 1960. Após esta data, os clássicos dividem-se entre os construídos entre 1961 e 1970 e os montados após este ano até ao limite marcado pela FIVA, neste momento 1988.

Como certificar um automóvel como sendo um clássico?

Em Portugal há três entidades que podem certificar o interesse histórico de uma viatura: o ACP Clássicos, o Museu do Caramulo e o Clube Português de Automóveis Antigos.

O custo da certificação oscila entre 40 e 60 euros, sendo válida por dez anos para veículos produzidos até 1918; 8 anos, com data de 1919 a 1945; 6 anos, entre 1946 e 1959; e 4 anos para veículos construídos após 1960.

A certificação obriga a uma verificação por parte da entidade emissora que irá avaliar diferentes aspectos do automóvel - todos deverão estar perfeitamente funcionais e apresentar um óptimo estado de preservação.

Quando foi fundado o CACM?

O Clube de Automóveis Clássicos da Madeira (CACM) foi criado em 1987, sendo-lhe conferida a declaração de utilidade pública mediante a resolução, nº 951/94, do Jornal Oficial, publicado a 18 de Outubro de 1994.

Fruto de um decréscimo acentuado de actividades, num passado recente, e após a constituição de uma comissão administrativa que geriu os seus destinos de Abril de 2013 a Abril de 2014, encetou uma caminhada devidamente estruturada rumo ao futuro, tendo a referida comissão dado origem a uma nova direcção, que definiu com rigor as linhas que orientam o seu programa, nomeadamente através da captação e recuperação de associados, proporcionando-lhes vantagens de bens e serviços no que ao automóvel clássico diz respeito assim como o gosto de possuir e desfrutar de um automóvel clássico.

Que provas organiza o CACM anualmente?

O Clube de Automóveis Clássicos da Madeira (CACM deu início ao calendário de provas e actividades para este ano no passado dia 24 de Março, com um seminário de formação para provas de regularidade clássica. Na ocasião, mais de meia centena de interessados teve oportunidade de conhecer os ‘segredos’ de Ivo Tavares, bicampeão nacional da modalidade, acerca das diferentes provas que normalmente compõem um rali de carros clássicos, assim como, através de vídeos exemplificativos, viverem o ambiente no interior de um clássico.

O CACM vai continuar a desenvolver as suas acções, já nos dias 27, 28 e 29 deste mês, com um passeio ao Porto Santo, que antecede a participação no Madeira Classic Revival, que acontece a 26 de Maio.

No dia seguinte, o CACM organiza a Rampa dos Barreiros, enquanto nos dias 29 e 30 de Junho e 1 de Julho leva para a estrada a Volta à Madeira Classic Rally.

A 28 de Julho há uma nova prova, o Harvey Foster New Road, e a 22 de Setembro a ‘100 Milhas’, fechando a época desportiva a 3 de Novembro, com a ‘Clássica do Caminho dos Pretos’.