Quem ensina os nossos filhos?

Preferem as creches ou Secundário? Já há mais homens no ensino? Quantos professores têm mais de 60 e quantos têm menos de 30 anos? No Dia Mundial do Professor traçamos o perfil dos nossos.

05 Out 2017 / 02:00 H.

Têm um papel preponderante na formação das sociedades, quer em termos profissionais, quer pessoais - já que, dizem os próprios professores, muitas famílias contam com a escola também para educar, além de ensinar. Os docentes não vêem progressão na carreira desde 2001 e, ano após ano, pela altura dos resultados das colocações ficam com o coração nas mãos até saberem se, (e onde) ficam colocados. Pelo menos a maioria. Quem são, afinal, os professores da Região?

Primeiro vamos a números. Os dados da Direcção Regional de Inovação e Gestão (DRIG) mostram que nos últimos cinco anos o número de professores tem diminuido no arquipélago, à excepção dos que dão aulas no ensino profissional - que em 2011/2012 eram 139 e em 2016/2017 passaram para 223. Mas no 1º. Ciclo do Ensino Básico, por exemplo, há cinco anos as escolas contavam com 1.749 docentes contra os 1.595 que deram aulas em 2016/2017 [ver quadro abaixo]. “Antigamente era uma profissão aliciante, hoje é muito instável. Tenho alguns colegas que desistiram passados uns anos”, conta Marco Teles, 41 anos, professor de Geografia na Escola Básica de 2º. e 3º. Ciclos do Curral das Freiras.

E aqueles que se mantiveram no sistema educativo? De acordo com os dados do último ano, a maior parte dá aulas nas escolas públicas, tem uma licenciatura e tem mais de 40 anos. E também há mais mulheres do que homens na carreira docente: no último ano lectivo eram 5.078 para 1.606 homens. Deste total de professores, a maior fatia (41,9%) tem entre 40 e 49 anos; e 4,5% tinha 60 ou mais anos. A maior parte (3.029) dá aulas ao 3º Ciclo e Secundário (como Marco Teles), e apenas 853 está no ensino privado.

Nos últimos anos as escolas têm recebido menos alunos fruto do decréscimo da natalidade, mas, para este professor, esta não é uma justificação para haver uma quebra nas contratações, e sim uma oportunidade para melhorar o sistema de ensino: “Podemos caminhar para ter mais turmas sem gastar dinheiro”. Uma forma, defende, de “reduzir o número de alunos por turma e direccionar apoios” para responder a cada estudante de uma forma eficaz:“Todos os alunos têm necessidades, mesmo os de excelência, é preciso que não desmotivem”.

Todos os Verões, pela altura da saída das listas de colocação de docentes, a ansiedade invade as casas dos professores, impacientes sobre o futuro. Mas para o ano lectivo de 2017/2018 o processo foi atípico e mais tranquilo devido à garantia da continuidade de funções (que segurou a maioria dos professores nas escolas onde já leccionavam) e também por causa da saída de 142 professores para o continente, que fez aumentar lista de colocações na Região. Este ano, anunciou a Secretaria Regional de Educação, as escolas madeirenses arrancaram com 6.348 professores para 46.380 alunos.

Na Escola do Curral, por exemplo, faltam “quatro ou cinco docentes”, revela Marco Teles. Informática é uma das disciplinas em défice, porque há poucos professores: “As escolas apostam muito nas novas tecnologias, mas não há muitos docentes. Esta escola é mais vulnerável a estas situações porque 50% dos professores são contratados [e não do quadro]. Não há nenhum de informática a concurso na Madeira. Geografia também esgotou”. Para Marco (que está no quadro desde 2013), a informática é uma “grande carência” por haver uma aposta cada vez maior nas novas tecnologias nas escolas: “A UMa continua a formar pessoas em cursos excedentes. No continente os professores de informática não têm dificuldade em encontrar trabalho e acabam por ficar lá”. Marco Teles, que é natural de Ponte de Lima, teve outra opção: “Escolhi a Madeira porque a minha mulher também é professora e mesmo que ficássemos colocados em diferentes concelhos da ilha, podíamos ir a casa. No continente, se calhar ficava no Minho e ela no Algarve”, vaticina. Chegaram em 2004 e a filha já é natural da ilha: “Temos qualidade de vida e estabilidade”.

Transmitir conhecimento não é para qualquer um (há mesmo quem diga que é uma arte) e, como em todas as áreas, há quem seja mais e menos talentoso, quem tenha mais ou menos anos de serviço, e quem seja mais ou menos dedicado. Uma distinção que, diz o professor Marco Teles, não se materializa no final das contas: “Um recém-licenciado começa a trabalhar e recebe o mesmo que eu que trabalho há 16 anos”. Só que não é emagrecer a carteira dos professores mais novos que o também presidente da comunidade educativa da Escola do Curral pede, mas sim desbloquear a progressão da carreira docente: “Nem estamos congelados, é como se estivéssemos apagados porque o trabalho que fazemos desde 2001 não vai contar para nada, é como se não estivéssemos a trabalhar”. Contas feitas, no último ano lectivo trabalharam na Região 6.684 professores, número que inclui 91 docentes com indicação de doença prolongada e os que estão nas creches.

Mas para Teles, também há boas notícias: “Apesar de perdermos estatuto, o binómio professor-aluno funciona bem, o sistema de ensino em si está bem. Quando estão nas escolas, os professores esquecem as maldades que o Governo lhes faz”. Mas não deixa de acrescentar: “Também temos direito a sonhar e construir um futuro melhor”. Aquilo que, acabaria por dizer mais à frente na conversa, os professores querem para os alunos: “Que persigam os sonhos”.

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