PROTESTOS NA RUA ATÉ CANSAR

Na quarta-feira as polícias e militares bloquearam os manifestantes em 19 pontos da cidade de Caracas.

21 Abr 2017 / 02:00 H.

Um dia depois das grandes concentrações em Caracas, com o Governo de um lado e a generalidade da população do outro (e incluindo toda a Oposição), os populares voltaram à rua. E assim deverá acontecer nos próximos dias, aparentemente até uma das partes deixar-se derrotar pelo cansaço. Para já, directamente relacionadas com as manifestações, há três mortes a lamentar e cerca de 400 detenções por motivos vários.

Na quarta-feira, a estratégia do governo foi transmitir a ideia que a Oposição não conseguiu mobilizar quase ninguém e que o oficialismo, pelo contrário, conseguiu encher a Avenida Bolívar, em Caracas. Mas a realidade demonstrou o contrário, com uma maior mobilização popular, apesar da maioria desses manifestantes não ter podido sair dos 26 pontos de partida, que levariam a uma mega-concentração no centro da capital. O governo venezuelano acabou por conseguir impedir o impacto mundial dessas imagens, ao conseguir bloquear 19 das 26 entradas, recorrendo aos militares e aos grupos de ‘colectivos’ – bandos de marginais, armados e com motos, alguns dos quais se intrometeram entre os oposicionistas, provocando violência e obrigando muita gente a regressar a casa.

Na terça-feira, um dia antes das manifestações, várias foram as denúncias nas redes sociais sobre a convocatória, sob diversas ameaças como perder a casa e os apoios sociais, de todos os funcionários públicos para se concentrarem na Avenida Bolívar.

Mais tarde, em pleno comício, o presidente Nicolás Maduro referiu-se à mobilização de três milhões de ‘oficialistas’. A verdade é que, em Caracas, é fácil comprovar que a Avenida Bolívar, que se encontrava cheia de gente, não consegue albergar mais do que 200 mil pessoas.

Maior êxito teve o ‘Plano Zamora’ de Maduro, que consistiu no bloqueio de todas as saídas da auto-estrada Francisco Fajardo (que atravessa Caracas), para impedir a concentração dos populares. Ainda assim, a oposição procurou alternativas, mas foi reprimida pelos militares da GNB (Guarda Nacional Bolivariana), PNB (Polícia Nacional Bolivariana) e os famosos ‘colectivos’, armados pelo governo.

As formas de repressão dos manifestantes nunca atingiram os meios vistos na quarta-feira: nunca tinham sido lançadas tantas bombas de lacrimogéneo, nem nunca tinham sido mobilizados tantos efectivos. No Twiter foram mostradas fotos e vídeos de helicópteros a lançar bombas de lacrimogéneo, atiradas sobre os manifestantes. Lá em baixo, no terreno, polícias e ‘colectivos’ faziam o resto.

Um dia histórico em Caracas que nenhum dos três canais de televisão da Venezuela quis acompanhar. Totalmente controladas pelo governo de Maduro, as TV’s ignoraram por completo os incidentes. Aos venezuelanos, no país e fora dele, valeram as redes sociais e as transmissões em directo de vários operadores quase na clandestinidade.

Mas ruas, até cansar

Entretanto, já nesta quinta-feira, milhares de pessoas concentram-se em vários pontos da cidade de Caracas, para um novo protesto contra o Governo do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que responsabilizou a oposição pela violência no país.

No leste de Caracas, grupos de estudantes universitários, começaram a reunir-se desde as primeiras horas do dia na Praça de França, em Altamira, entre eles Rafaela Requesens da Federação de Centros Universitários que condenou a repressão das forças de segurança contra quem está contra o regime.

“Mentem ao povo, quem tem armas é o Governo. Reprimem-nos como [se fossemos] animais e depois mentem ao povo. Continuaremos nas ruas, mesmo que haja diálogo, que convoquem eleições, até que retorne a democracia”, disse aos jornalistas.

Por outro lado, em Montalban, a oeste da capital, centenas de pessoas concentraram-se em apoio ao deputado Richard Blanco, que quarta-feira foi acusado de “terrorista” pelo próprio Chefe de Estado.

Entre queixas da população pelo silêncio das televisões venezuelanas, um grupo de pessoas obrigou os jornalistas da estação privada Venevisión a retirar-se de Montalban, enquanto em Altamira houve reclamações contra o canal privado de notícias Globovisión.

A oposição prevê levar a cabo mais uma jornada de protestos e convocou os venezuelanos para repetirem, nas ruas, a marcha realizada quarta-feira, popularmente chamada de a “mamã das marchas”, em todos os Estados da Venezuela.

A convocatória foi feita pelo ex-candidato presidencial Henrique Capriles Radonski e tem como propósito exigir a libertação de presos políticos, o “fim da ditadura”, que se realizem eleições livres na Venezuela, que seja aberto um canal humanitário para a entrada de alimentos e medicamentos no país.

Por outro lado o vice-presidente do parlamento, Freddy Guevara, instou os venezuelanos a protestarem até “debilitar” o regime.

“Hoje, mais que nunca, devemos voltar às ruas e reafirmar que a resistência é pacífica. É a única maneira de conseguir dividir mais o regime”, escreveu na sua conta no Twitter.

Os manifestantes protestam ainda pelo que dizem ser uma ruptura constitucional e contra duas recentes sentenças em que o Supremo Tribunal de Justiça concede poderes especiais ao Chefe de Estado, limita a imunidade parlamentar e assume as funções do parlamento.

O Metropolitano de Caracas encerrou 20 das suas estações para alegadamente proteger os usuários de actos de vandalismo, situação que dificultou o acesso das pessoas ao trabalho, com a oposição a apelar aos empresários para dispensarem os empregados que queiram sair a protestar.

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