Produzir papaias às toneladas

Líder na produção, João Aníbal lança no mercado 100 mil quilos de fruto

19 Jun 2017 / 02:00 H.

Espelho meu, alguém que produza mais papaias na Região do que eu? Chega a ser impressionante a quantidade de frutos pendurados nas árvores enclausuradas numa área coberta (5 mil metros quadrados) que João Aníbal possui no sítio da Ingriota, na Ponta do Sol. Algumas têm de ser amarradas para não terem de cair com o sobrepeso. A cota altimétrica ajuda. O clima também. Adiciona-se ainda à receita deste sucesso, a dedicação, o gosto pela actividade e uma dose de inteligência e de investimento. O resto é muita fruta. Muita mesmo.

“Estou a produzir durante o ano entre 80 a 100 toneladas de papaias. Tenho meses que atingimos as 13 e as 14 toneladas”, responde à curiosidade. E... “Sim, toda a produção com escoamento garantido. Mais tivesse”, acrescenta com largo sorriso no rosto. Não é para menos. Neste caso papaia é sinónimo de euros. Embora prefira não falar em valores de facturação sente-se que falta pouco para o negócio atingir uma rota de cruzeiro. Porque ainda faltam alguns degraus para as papaeiras atingirem o nível máximo de produção.

“Nos meses de maior calor cada uma poderá produzir cerca de 300 quilos de papaias, algumas um pouco mais”, adianta sem se notar qualquer hesitação na declaração.

Estudar o mercado

Entretanto se já pensou como é que surgiu a ideia de Aníbal decidir arriscar no cultivo de papaia, de seguida dizemos-lhe como foi que se deu o ‘click’: “Um dia fui ao Golden - onde estão situados os serviços da extinta secretaria regional do Ambiente e dos Recursos Naturais - e pedi, se era possível, ver as entradas dos produtos que a Madeira importava - eles têm lá tudo - e, nesse dia, verifiquei que havia um consumo bastante grande de papaia. Fiquei tão surpreendido que vim para casa pensando sempre que podia apostar no cultivo. Tinha um terreno adequado e poderia ser uma oportunidade de negócio e de baixar as importações”, manifesta, ainda assim receoso que alguma coisa pudesse inviabilizar a ideia. “Um amigo chegou a dizer-me: Aníbal vai com calma. Vais encher o terreno todo de papaias?”, recorda com um sorriso de quem alcançou o sucesso três anos depois.

Dedicação

Mas sucesso sem dedicação, sem esforço, sem trabalho e, particularmente sem gosto, é melhor nem cogitar em se lançar na agricultura, uma actividade que começa a ser uma alternativa. “Não tenho dias de folga. Não há feríados, domingos, fins-de-semana. Não há nada disso na agricultura. Passo por cá todos os dias nem que seja para ver”, declara, lamentando que haja pouco reconhecimento pelos agricultores. “Pagamos impostos, damos emprego, mas ainda há quem ignore tudo isso”, desabafa com sabor amargo daquele que é um dos importantes empresários do concelho ponta-solense no sector primário.

Três hectares de hortícolas

Noutra área, num terreno ao ar livre de 30 mil metros quadrados, estão cultivados várias espécies de hortícolas, mas aquela que mais saída tem é precisamente o alho francês. Novamente analisou a tendência do mercado. “Fiquei de boca aberta quando vi que o alho francês estava no topo da relação das importações. Uma vez mais decidi cultivar”, justifica o motivo de ter lançado à terra a sementes. O mesmo aconteceu com a couve, com a beterraba, com o funcho, com a salsa ou com o milho. E tudo parece crescer a uma velocidade estonteante. “Mais tivesse, mais vendia”, afirma.

Escoamento garantido

Com tanta produção semanal (segundas e quintas-feiras faz a distribuição) foi preciso garantir o escoamento. O empresário agradece aos clientes revendedores que, através de uma relação de confiança, fazem chegar ao consumidor final as papaias e todos os hortícolas que produz na Ponta do Sol. “Eles sabem que deste lado chega-lhes produtos de qualidade, frescos e dentro dos prazos. Do outro lado, posso contar com o escoamento e com o pagamento a tempo e horas”, conclui ao resumo do sucesso da firma.

A agricultura pura e dura é passado. “É de outro tempo”, observa João Aníbal Granito defendendo que a agricultura moderna deve ser acompanhada de investigação para não perder competitividade e garantir uma qualidade superior. É por isso que não esconde que reserva uma parte dos rendimentos das colheitas investindo nas técnicas do Microlab Madeira.

Localizado no Lugar de Baixo este centro de investigação tem como missão principal o incentivo à agricultura regional, através da propagação in vitro de espécies florícolas, hortícolas e frutícolas subtropicais e temperadas, com certificação e com a garantia de que as plantas ficam isentas de pragas e doenças. As plantas são produzidas mediante encomenda, quer para clientes públicos quer para clientes privados e qualquer pessoa pode contactar o Microlab Madeira e solicitar a produção in vitro de uma ou mais espécies.

“Aconselho vivamente que se procure o Microlab. Desde que comecei a recorrer a este serviço passei a ter uma garantia que a planta terá uma produção igual ou superior aquela que tive, a não ser que surja uma doença durante a época produtiva, mas isso pode suceder a qualquer um”, atesta, explicando que o processo de recolha e de entrega das plantas compensa o tempo que os investigadores demoram em executar a manipulação assética do material vegetal.

Mecanização

Associado à investigação uma produção de larga escala precisa de um sistema de mecanização que facilite as tarefas de cultivo. “Tenho as alfaias agrícolas necessárias. Era impensável não ter um tractor um sistema de rega adequado”, vinca. “Tenho oito funcionários, mas sem o auxílio das máquinas era muito mais difícil”.

Ferry sim, avião ‘nim’

É a velha questão do transporte de carga. O empresário diz que para já não pensa em exportações até por verificar que os custos de transporte encareceriam o preço final com pouca vantagem comercial e de competitividade. “Sou mais favorável que se viabilize o transporte marítimo do que estar à espera de um avião de carga. Mas essa é uma velha questão que está ainda por resolver”, recordando as voltas que deu o processo e as expectativas criadas junto da classe.

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