‘Molduras’ que andam no meio da arte

Cada colecção de t-shirts criadas por Jorge Rosa possui apenas

25 Set 2017 / 02:00 H.

O gosto pelas t-shirts existe desde que se recorda. Em tenra idade, Jorge Rosa começou, em jeito de brincadeira, a pintar t-shirts à mão. “Eram coisas terríveis, pintadas com tintas que descascavam nas lavagens”, conta.

Hoje em dia é criador e empresário, mas prefere assumir-se como criador e detém a marca ‘Walkingframe’, na qual exibe os trabalhos artísticos que cria em t-shirts.

Jorge ocupa-se exclusivamente com colecções pequenas, sendo que apenas existem 15 exemplares por cada edição e conta com a ajuda de uma máquina que imprime directamente as imagens no tecido (Direct To Garment). “Esta máquina imprime imagens de muito boa qualidade, não há uma limitação de cores com este sistema. Posso imprimir uma fotografia de todas as cores, tudo o que construímos em imagem, ela imprime”.

São três os tipos de imagem que o criador trabalha: fotografias, desenho digital e ilustrações adquiridas num banco de imagens, que depois são adaptadas à sua maneira.

“Tenho sempre muito cuidado para não chocar ninguém. Não tenho temas políticos nem religiosos. As minhas imagens são cenários improváveis, algumas têm um pequeno sentido de humor, outras são chamadas de atenção ambientais. São observações pessoais que, de alguma forma, incomodam e há pessoas que compreendem a mensagem e sentem-na e acabam por comprar porque a mensagem lhes diz alguma coisa”, explica.

Moldura andante

‘Walkingframe’ foi o nome escolhido para a marca, tendo Jorge contado com a ajuda de um amigo designer para a construção de ideias. “O que eu queria era criar imagens em que a base fossem as t-shirts e a conversa foi por aí. E então ele disse-me: ‘Então, se as pessoas que vão usar as tuas t-shirts vão mostrar o teu trabalho por aí, elas acabam por ser a moldura andante do teu trabalho’. Mas, ‘moldura andante’ não soava muito bem, não que eu tenha algo contra os nomes em português, mas surgiu o nome ‘Walkingframe’”. E assim foi.

Em 2009, tornou-se empresário em nome individual e começou a trabalhar a partir de casa, efectuando vendas através da Internet. Durante alguns meses, a sala de estar da casa do criador “parecia um armazém”, devido à acumulação do produto. “Então, senti a necessidade de montar uma loja. A minha ideia inicial era apenas vendas online, mas depois pensei que devia montar uma loja física”.

Agora, com as ideias assentes, Jorge pretende continuar com as edições limitadas de 15 exemplares, sendo este um ponto a favor no que toca à diferenciação em relação a outras empresas. “Não quero que a ‘Walkingframe’ seja uma marca massificada. As minhas imagens não agradam a toda a agente, são apenas para um nicho muito reduzido de pessoas que compreendem o meu conceito”, diz.

Cenário da loja

Com um fascínio assumido por tudo o que é decoração industrial, Jorge Rosa não deixou que o ambiente da loja física fugisse a esta temática. “Grande parte do mobiliário de decoração é feito de objectos que fui recuperando porque o meu orçamento é muito apertado e optei por reutilizar as peças. Não quis estar a investir muito em mobiliário porque não podia e também porque ao fim de alguns anos podia cansar-me. Assim, se de hoje para amanhã decidir mudar de decoração, já não me vai custar tanto”, confidencia.

A Rua das Pretas é a actual localização da única loja física da ‘Walkingframe’. “A minha primeira loja foi na Zona Velha. Depois, passei para os Armazéns do Mercado e há dois anos apareceu a oportunidade de mudar de zona. Consegui arrendar este espaço por sorte”, diz. Para os produtos que tem à venda, este espaço tem “o tamanho ideal”. Sendo cerca de 90% dos clientes turistas, Jorge repara que a mudança de localização de loja acabou por atrair mais madeirenses ao espaço. “É uma zona próxima dos serviços e escolas e como estou dentro do percurso diário dos madeirenses, acabei por conquistá-los”.

Candeeiros e cães?

No logótipo da marca está a imagem de um candeeiro em formato de cão. A presença inicial desta figura não se relacionava, na verdade, com o negócio da ‘Walkingframes’, que era exclusivamente de t-shirts. Mas, como Jorge Rosa é apaixonado por cães, decidiu que queria inserir uma imagem relacionada com estes animais, mas de forma bem criativa. Após ter feito uma experiência com uma escultura antiga de um cão, colocando-lhe uma lanterna no topo, colocou-a em exposição em loja. “A ideia nem era para venda, era apenas para decoração. Mas depois, uns turistas perguntaram se eu não a vendia e na altura disse que não. Mas depois pensei ‘não vendo porquê?’ Então, contactei uma fábrica em Barcelos que faz o molde e depois eu trato da transformação”.

Estes candeeiros só podem ser encomendados num único tamanho mas em qualquer cor. “Já há candeeiros destes pela Europa toda”, salienta.

As chamadas de atenção ambientais depositadas nas criações artísticas de Jorge Rosa são levadas muito a sério pelo criador.

E é exactamente na questão ambiental que o empresário pretende apostar ainda mais. Até agora, tem o cuidado de não utilizar tintas agressivas para o Ambiente. “Não uso diluentes nem dissolventes”, afirma.

Além disso, este ano o artista começou a trabalhar em t-shirts feitas de algodão biológico, algo que pretendia desde o início do projecto mas encontrou algumas dificuldades, nomeadamente, na colaboração de fábricas portuguesas no fornecimento deste tipo de material. “Em Portugal, as fábricas ainda não apostam muito no algodão biológico, por isso tenho de fazer as encomendas fora do país. Foi difícil encontrar uma fábrica que estivesse disposta a trabalhar com um projecto tão pequeno”, desabafa.

Notando o interesse cada vez maior do público-alvo neste tipo de produto biológico, Jorge decidiu que a ‘Walkingframe’ passaria a crescer, não em termos de tamanho, mas em termos ambientais. “Não quero que a ‘Walkingframe’ deixe uma pegada muito agressiva”.

Presença em evento de moda

A marca foi convidada para estar no Funchal Fashion Week 2017 (FFW), evento que decorreu de 14 a 16 de Setembro, na Praça do Município, Funchal. “Foi um grande desafio, mas correu bem. Como não tenho colecções de estação, optei por mostrar o que é a ‘Walkingframe’”, conta Jorge.

Para a participação no evento, o criador escolheu as ilustrações que o marcaram nos últimos tempos e apresentou-as no desfile, no penúltimo dia do FFW. “Comecei com t-shirts mais antigas e deixei para o final a nova colecção que desenhei de propósito para aquele evento. Foram imagens menos pesadas e caóticas e mais coloridas para que quem não me conhece não pensar que o meu trabalho é apenas depressivo, ‘escuro’ e agressivo e então optei por introduzir imagens mais ‘leves’”. Após a participação no FFW, Jorge admite que já teve mais visitas de pessoas que assistiram ao desfile e que queriam conhecer melhor este conceito.

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