Preso político angolano conta a sua história

02 Dez 2016 / 02:00 H.

É um relato feito na primeira pessoa. Luaty Beirão, rapper e activista político, esteve preso por ser acusado pelo regime angolano de “actos preparatórios de rebelião”. O motivo de tal acusação foi o facto de se encontrar a ler e a debater a obra ‘Da Ditadura à Democracia’, juntamente com outros 16 activistas, sendo que questionaram publicamente a liderança de José Eduardo dos Santos.

A história deste homem não foi indiferente ao mundo que assistiu e se revoltou contra a forma como estavam a ser tratados estes angolanos. Luaty Beirão, um dos activistas mais mediáticos, esteve preso em Calomboloca, onde iniciou uma greve de fome que durou 36 dias, ficando em perigo de vida.

O livro que lançou no passado dia 25 de Novembro é o resultados dos escritos que conseguiu salvar do seu cárcere. Relatos emocionados dos dias em que viveu em reclusão, muitos deles escritos enquanto se encontrava em greve de fome. A importância dos escassos banhos de sol, os truques para tomar banho e lavar roupa com apenas dois litros de água, as saudades da mulher e da filha, as frustrantes conversas com os do poder, as dúvidas, as rimas para cantar mais tarde e até os rituais de sobrevivência dos prisioneiros e os desenhos do presídio fazem parte do livro ‘Sou Eu Mais Livre, Então’.

O livro foi oficialmente apresentado na passada quarta-feira e contou com muitos elogios por parte de Pacheco Pereira e Daniel Oliveira, que destacaram a sua “pedagogia da coragem” em “tempos de miséria ideológica”.

“Um livro que ajuda à visibilidade e à luta dos angolanos, de gente que tem uma espécie de mal-estar” em relação ao regime do presidente José Eduardo dos Santos, um livro que “merece ser lido e merece ser discutido”, assim classificou a obra Pacheco Pereira, defendendo ainda que Portugal pós-colonialista tem responsabilidades por assumir.

“O dinheiro compra as cobardias, compra os silêncios, e essas coisas são as mais difíceis”, explicou Daniel Oliveira, acrescentando que o caso dos 17 activistas angolanos “nunca foi uma questão de direitos humanos, foi uma escolha política”, considerou o cronista do semanário Expresso.

“Muito obrigado pelo que fizeram por nós. Fez toda a diferença”, disse Luaty Beirão, de 35 anos, fazendo questão de frisar que não é uma vítima e que tudo o que viveu nos últimos tempos em Angola “faz parte do desafio político para melhorar o país”.

“O que nós temos de fazer em regimes ditatoriais com fachadas de democracia é provocá-los. Eles dão-nos os factos, fazem-nos esse favor, e nós agradecemos. É claro que nos sai do lombo: um sanguezinho aqui, uma cabeça aberta ali, uma prisão? mas vale a pena, é preciso continuar a dar o corpo”, defendeu.

“Eu não tenho ideia de formar um partido político, prefiro trabalhar com a sociedade civil, prefiro trabalhar no amadurecimento do cidadão: capacitar o cidadão para que ele sinta que é o agente da mudança”, declarou o activista.

A sua obra pode ser encontrava em diversas livrarias e superfícies comerciais de todo o país.