Posicionamento de Cafôfo altera acção do Bloco

Paulino Ascenção, coordenador do BE-Madeira

07 Mar 2018 / 02:00 H.

Sensivelmente 24 horas depois de ser eleito coordenador regional do BE-Madeira, o DIÁRIO ouviu Paulino Ascenção, sobre questões internas e de política regional. O dirigente do BE admite a importância dos apoios internos, revela as razões que o levaram a se candidatar e reconhece que a disponibilidade de Paulo Cafôfo para se candidatar pelo PS ao Governo Regional altera o relacionamento na CMF. O partido vai apresentar-se só, nas regionais, e tem a captura da economia regional por interesses privados como principal foco de actuação política.

Passadas aproximadamente 24 horas desde que os aderentes do BE lhe deram a vitória, a que a atribui, ideias, expectativas, trabalho desenvolvido? O apoio é porque se reconheceram no conteúdo da moção, na parte que expressava críticas, como nas propostas para o futuro.

Visto de fora, pareceu que foi muito importante o apoio da senhora Guida Vieira. Reconhece essa importância? Sim reconheço. Foi um apoio fundamental. É uma personagem histórica, uma lenda viva nesta área política.

Estava à espera de uma diferença tão grande? Não.

A expectativa era mais equilibrada. A expectativa era de que se tivesse um resultado equilibrado, tangencial, para um lado ou para outro...

Mais decidido no dia do Congresso e não tanto, eventualmente, antes, como o resultado deixa transparecer, 63% para um lado, 33% para outro? Quando começámos a votar a alteração dos estatutos, começou a ficar clara uma diferença. Mas estava muito pouca gente ainda, na sala, eram cerca de 50.

Estou a tentar perceber até que ponto o debate na Convenção foi decisivo para a diferença. Foi decisivo e uma situação, que ocorreu, logo no início da moção, fez algumas pessoas mudarem de posição.

Que situação foi essa? Foi uma intervenção da Guida Vieira, precisamente.

Ela levantou a questão e houve um clique? Sim.

Qual foi o assunto, o tema? Foi uma questão interna.

Quando é que decidiu se candidatar e porquê? Foi no momento em que a sua visão política divergiu da de Almada, até porque quando foi candidato não estaria afastados. Não. Quando fui candidato era militante, havia um ano, tinha participado na campanha das regionais, de forma bastante activa e depois passei a dirigente, em 2016, praticamente, via as coisas de fora.

Quando é que surgiu a ruptura, ao nível das ideias, da estratégia? Durante o ano de 2015, até às Presidências, estivemos sempre em ambiente de campanha eleitoral. Foram sete meses, de Março a Outubro. O entusiasmo do bom resultado nas regionais foi-se transmitindo para as legislativas e até para as Presidenciais. Havia um clima de bastante dinamismo, entusiasmo. Depois deixou de haver continuidade desse clima. Houve muitas pessoas envolvidas, que foram chegando, nas legislativas e nas presidenciais, e constatamos que não se aproveitou essas pessoas. Não as aproveitámos, não integrámos da melhor maneira e a dinâmica foi esmorecendo o que, por exemplo, se reflecte nas sondagens que foram publicadas, ao longo de 2017, em que o BE passa de 7 para 4,2% ao longo do ano.

Quando apresentou a candidatura disse que um partido não é uma sociedade unipessoal. Estava tudo concentrado em Roberto Almada? Sim, várias tarefas internas: a gestão da base de dados, a comunicação para fora, ele próprio fazia de assessor de imprensa, é o coordenador regional, é o líder parlamentar, centraliza a comunicação através das redes sociais...

Deste ponto de vista, vai descentralizar para se concentrar, como disse, na preparação política de dossiers. Sim. Mas a situação anterior foi a continuidade natural do momento em que não tínhamos deputado e em que só havia uma pessoa a tempo inteiro. Aí era inevitável que concentrasse as funções. Depois elegemos um grupo parlamentar e, existindo um grupo de funcionários a tempo inteiro, já não fazia sentido. Não se corrigiu essa situação. Os funcionários estiveram a fazer mais trabalho político, propriamente dito, e isso reflecte-se na falta de conteúdo.

Quando pensa ter a casa arrumada e dedicar-se mais as questões políticas? A distribuição de responsabilidades tem de ser feita rapidamente, neste mês.

Colocou a hipótese de deixar a Assembleia da República, após concertação com a bancada parlamentar. Nesse cenário, o que aconteceria a Roberto Almada e a Rodrigo Trancoso. Teriam de sair? Continuam. São lugares pessoais.

Deixaria o cargo sem... Vamos amadurecer a ideia e avaliar o momento mais adequado. Não será de imediato. Poderá ser no Verão ou após a aprovação do Orçamento de Estado, que é o último desta legislatura, num tempo que coincide com a Convenção nacional do Bloco, que será no final de Novembro.

O importante é estar a tempo inteiro na Região, em 2019, na preparação das regionais? Sim.

Não é uma desvantagem não estar na Assembleia, pela exposição pública que daria? Isso não é líquido. Já houve outras situações, por exemplo, José Manuel Rodrigues era líder do CDS e estava na Assembleia da República. Isso não motivou maus resultados para o CDS. No caso do PS, também é discutível se o facto de o anterior líder estar em Lisboa foi a razão para o desenlace na disputa interna.

Como o partido não se pode resumir a uma pessoa e tem uma equipa válida, não há grande dificuldade.

Qual é o objectivo político em 2019? Aumentar a votação e a representação na Assembleia.

O Bloco vai apresentar-se só, não em coligação. Sim.

Mas aberto a entendimento após as eleições, consoante os resultados? Consoante os resultados e consoante a disponibilidade dos outros partidos para virem ao encontro das nossas posições. Primeiro temos de convencer as pessoas de que é útil e importante votarem no Bloco, de que é melhor votar no Bloco do que no PS, no PSD ou no PCP. Depois, em função dos resultados, vemos o que é possível fazer.

O vosso alvo político é o Governo Regional ou quem disputa directamente o vosso eleitorado? O alvo não é só um partido ou o Governo. É um conjunto de políticas que, a nível da República, apesar da alternância entre PS e PSD, não divergem assim tanto. Somos contra as privatizações, mas o campeão das privatizações foi o governo de António Guterres. Somos contra concessões de serviços públicos, de actividades estratégicas da economia regional. São matérias que, tanto PS como PSD estão bastante próximos. É esta demarcação que vamos ter de fazer. A questão não é quem, mas as políticas.

Como se tem sentido num grupo parlamentar que apoia um Governo que defende essas políticas? Temos feito críticas bem fortes a várias decisões deste Governo, por exemplo, negócio do Banif, venda do Novo Banco, tentativa de baixar a TSU, que conseguimos bloquear.

E nas questões relacionadas com a Madeira, como o ferry e o novo hospital, como vê as actuações da Madeira e de Lisboa? O expediente de apontar um inimigo externo é lançar uma cortina de fumo, para esconder as responsabilidades do Governo Regional sobre os problemas. Não há ferry porque o Governo Regional anterior criou uma série de obstáculos para que essa operação cessasse e, se não há hospital, é porque o PSD nunca quis. Só a dívida oculta daria para fazer três ou quatro hospitais. Essa é a questão fundamental. Transformar isto numa culpa de Lisboa é esconder a responsabilidade de quem está.

Mandar mais milhões para cá, para despejar em obra inúteis e o hospital nunca mais aparece.

Com a lei de meios, foram mais 1.080 milhões, também dava apara vários hospitais.

Só houve 700 milhões, até agora. Dizem que a lei não permite que se façam hospitais, mas, como é que permite que se faça um cais inútil, que se gastassem milhões numa marina abandonada e, já com este Governo, vários milhões para destruir as ribeiras no Funchal?

O Governo continua a fazer escolhas contraditórias com aquelas que diz que são as suas prioridades. Nos grandes investimentos, do Orçamento Regional, em cerca de 60 milhões, só quatro vão para a área da saúde, tudo o resto vai para vias rápidas, para cimentar ribeiras, estreitar ribeiros...

É uma questão de opção política. São opções.

Na questão das opções, como avalia a participação do BE na coligação na CMF, lembrando, por exemplo, que a senhora Guida Vieira está muito ligada à autarquia. O BE vai se distanciar? São planos diferentes, o autárquico e o de governação regional. O leque de escolhas, competências de um plano e do outro são muito diferentes. Além disso, a arquitectura do poder, da lei eleitoral das autárquicas, também. O primeiro candidato da lista mais votada é indicado presidente da Câmara. Não há possibilidade de uma geringonça qualquer mudar esse facto. Com esses pressupostos, há acordos assinados e o BE tem de ser responsável e cumpri-los. Não será por iniciativa do BE que vai falhar alguma coisa no âmbito da coligação. Mas já há uma alteração de circunstâncias, que não foi por iniciativa do Bloco. Que foi a disponibilidade do presidente da Câmara, Paulo Cafôfo, para ser candidato às eleições regionais, o que contradiz a sua promessa eleitoral de cumprir o mandato até ao fim. Há uma nova situação.

Isso muda alguma coisa da vossa parte, ou se o resto estiver a ser cumprido, o acordo é mantido? O que é que pode mudar no dia-a-dia? Pode mudar porque ele posicionou-se como adversário no plano das regionais, enquanto no Município continua como aliado. É uma situação completamente diferente da que existia antes, o que vai merecer uma actuação diferente. Isso terá mais a ver com decisões concretas que surjam, porque, à partida, não há alteração das regras do acordo.

Se o acordo for cumprido, mantém-se o entendimento. Certo, mas o acordo não cobre todos os detalhes de actuação do executivo e nem estamos no executivo, só na Assembleia Municipal. O executivo tem competências próprias que não passam pela Assembleia Municipal. Há, aí, espaço para que, se houver decisões com as quais a gente não concorde, manifestarmos a nossa discordância, fiéis aos princípios do que é o nosso programa político. Não podemos é balizar-nos pelo critério pessoais. Se for uma decisão que a gente condena quando é o PSD a praticar, se o PS reproduzir o mesmo comportamento também vai levar com a nossa crítica. Isso é inevitável. Essa é a coerência que temos de pôr em prática e é o que dá confiança às pessoas para poderem votar em nós.

Que áreas políticas vão merecer a vossa aposta, saúde, educação, obras públicas? O grande foco é o facto de a economia regional e actuação do Governo estarem capturadas por interesses privados. Tudo o que acontece aqui só acontece se for para benefício de uma certa ‘máfia’, no bom sentido, como se dizia. É difícil entrarem outros agentes económicos, com iniciativas, mesmo que sejam muito promissoras, se não estiverem entrelaçados nesta rede. Esse é o grande problema, que cria desigualdades, pobreza, desemprego, que impede maior distribuição da riqueza e que desvia recursos do orçamento público, para benefício desse grupo restrito.

Normalmente, as áreas sociais são mais referidas pelo Bloco. Esta lógica está presente em todas as áreas. Na saúde quando se deixa avariar equipamentos para canalizar exames para o sector privado; na educação, quando se fecham escolas públicas e se mantém financiamento a escolas privadas, que estão ao lado, e isso tem acontecido, acontece no geral da economia, quando há privilégios nos portos e que tudo o que é consumido, na Madeira, há tipo uma taxa que fica ali no explorador do portos, nas via rápidas uma parceria público-privada para uma coisa que já estava feira, quando se o contrato, o que é absurda. O posicionamento dos diferentes partidos face a estes problemas vai ser a marcação principal.

Alguma última mensagem que queira deixar? Agora que acabou a campanha eleitoral, deve haver vontade de todos os actores para trabalharem em conjunto.

A esse nível não está à espera de problemas, a alguém a fazer-lhe, de propósito, a vida difícil? Não estou à espera e vou procurar ter uma actuação para não os alimentar.