“Paulo Cafôfo veste

Mafalda Gonçalves

14 Fev 2018 / 02:00 H.

Mafalda Gonçalves é deputada na Assembleia Legislativa da Madeira e presidente da estrutura regional das Mulheres Socialistas. Apoiou Emanuel Câmara e acredita que os madeirenses já disseram que querem Paulo Cafôfo como presidente do governo.

O que é que fazem as Mulheres Socialistas? O Departamento de Mulheres Socialistas é uma estrutura ao nível nacional que em todas as federações tem uma estrutura local. No fundo, é um organismo do PS que lida, de forma mais específica, com as questões da igualdade, da paridade, da não discriminação em função do género, entre outras.

Ainda faz sentido haver essa separação de género dentro de um partido? Não é uma separação de género, é uma diferenciação positiva, da mesma forma que faz sentido existir a JS. É, de certa forma, uma estrutura que vem complementar o trabalho do partido e consegue ser mais específica nestas áreas.

E conseguem ter peso dentro do partido? Estatutariamente, a presidente e a presidente da comissão política, têm assento em todos os órgãos do partido. Obviamente que tem peso na estrutura.

Ainda há muita discriminação de género na política? Basta olhar para o nosso parlamento regional para responder à sua questão.

A assembleia tem 11 mulheres em 47 deputados. Pois é, temos, por exemplo, o CDS, que tem sete deputados e apenas uma mulher.

Mas temos um governo regional com três mulheres. É um terço. A paridade não são os 33% da lei, são 50%. Falei do parlamento, porque reflecte a nossa sociedade onde ainda existe discriminação em função do género. Apesar de ficar bem falar nas questões da igualdade.

A lei da paridade - numa lista não pode haver três candidatos do mesmo género seguidos - foi deturpada e assume-se que em cada três candidatos um tem de ser mulher? Sim, entrou-se na perversão da lei e assume-se que as mulheres são a terceira, a sexta, a nona, a décima segunda e por aí fora. Não é isso que diz a lei, nem é esse o espírito.

Muitas vezes não é difícil encontrar mulheres para preencher as listas? Isso é falso. As mulheres estão disponíveis, estão prontas e estão preparadas. O que é preciso perceber é que a nossa sociedade ainda não evoluiu ao ponto de a disponibilidade delas ser igual à deles. Por mais que se fale em partilha de tarefas, ainda recai sobre a mulher muita da responsabilidade de cuidar dos filhos e da casa.

Teve um filho há pouco tempo, como foi conciliar as duas coisas? Felizmente tenho apoio familiar, o meu marido cuida tanto dos filhos como eu, mas não é fácil. Só o facto de me colocar essa questão e ela ser pertinente, já significa que a igualdade não existe. Se fosse um homem, se fosse o meu marido o deputado, nunca lhe faria essa pergunta, porque nem faria sentido fazê-la.

Ficamos também com a sensação de que muitas vezes há uma certa condescendência, ou mesmo paternalismo, em relação às mulheres. Concorda? Os partidos são o reflexo da sociedade. Existe ainda esse paternalismo, felizmente está cada vez mais esbatido e esse também é um trabalho que temos de fazer, desconstruindo esse discurso. Quero chegar ao dia, em breve, em que não se questione o facto de uma mulher estar num determinado sítio e se fale em termos de competência.

Competência que foi muito falada no último congresso do PS-M. O partido sai de umas eleições internas muito disputadas, como é que se vai apresentar unido a umas eleições que quer ganhar? Este processo por que passou o PS é normal, sempre que surgem vários candidatos. É normal que após o acto eleitoral ainda existam algumas feridas abertas, algum comentário menos feliz que possa ter sido feito, mas somos todos humanos e todos camaradas. O actual presidente do PS já deu sinais claros da união que pretende. Houve um período em que cada camarada teve oportunidade de escolher, agora, é o tempo de caminharmos em frente.

As eleições acabaram com 57% para um e 43% para outro, isto não é um partido dividido? Em todas as eleições, quando há mais do que um candidato, há bipolarização. O PS é um grande partido, é um partido democrático. Não tenho dúvidas de que não vai haver problema nenhum em relação à união do partido. Essa bipolarização terminou a 19 de Janeiro.

Disse que houve comentários menos felizes. Um deles foi alguém pedir a expulsão de Carlos Pereira? Vou ser muito sincera, não ouvi essa frase no congresso. Foi um comentário nas redes sociais e eu não ouvi, ninguém me confirmou que tivesse ouvido, por isso não vou acrescentar nada.

O PS sai com uma estratégia definida: um candidato a presidente do governo que não é o líder do partido. É fácil explicar este modelo aos madeirenses? Acho que a resposta foi dada na última sondagem, que saiu na véspera do congresso. Qualquer estrutura política tem, antes de mais, de saber ouvir a sociedade e é um facto que os madeirenses e porto-santenses, maioritariamente, querem Paulo Cafôfo presidente do governo.

O PS não se arrisca a ficar refém de Paulo Cafôfo que nem é militante do partido? O Paulo Cafôfo, durante todo este tempo tem, reiteradamente e repetidamente, afirmando que defende valores socialistas que veste a camisola do PS e que é socialista. Se calhar, não é preciso ser militante para ser socialista. Paulo Cafôfo tem todo um percurso dentro do PS.

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