Religião e Moral perde

Venda de catecismos faz-se ao mesmo ritmo mas há muitas desistências

08 Out 2017 / 02:00 H.

A Educação Moral e Religiosa Católica está a cair em desuso nas escolas. Nos últimos oito anos, a disciplina perdeu mais de um quarto dos alunos nos 33 estabelecimentos - públicos e privados - da Região Autónoma da Madeira.

De acordo com os dados da Secretaria Regional de Educação, no ano lectivo 2010/11, 9.579 alunos frequentavam a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica - do 5.º ano ao 12.º ano -, um número que tem vindo a cair sucessivamente até atingir os 6.853 no ano lectivo que agora decorre.

Em apenas oito anos, a disciplina perdeu 2.726 alunos, uma redução significativa de 28,5%, que vai muito além da diminuição dos alunos matriculados no ensino por via da quebra da natalidade.

A disciplina é encarada como um contributo para a formação dos jovens e surge de uma acordo assinado no século passado com o Vaticano. É, por isso, leccionada nas escolas de todo o país. No entanto, comparativamente com 2010/2011, este ano lectivo regista menos 2.726 alunos inscritos.

A frequência nesta disciplina não é de carácter obrigatório, pelo que carece de inscrição dos alunos por parte dos encarregados de educação. Os dados disponibilizados pela secretaria regional da Educação mostram um decréscimo que começa já no 5º ano de escolaridade. Se em 2010/2011 inscreveram-se na disciplina 2.676 alunos, o ano lectivo actual conta apenas com 1.650 inscritos no 5º ano.

O decréscimo no número de inscritos pode ainda ser comprovado através do número de ‘desistências’. Se tivermos em conta os inscritos no ano lectivo 2010/2011, no 5º ano, vemos que 2.676 estudantes frequentavam EMRC. Por outro lado, sete anos mais tarde, os mesmos alunos que já deverão estar no 12º ano, totalizam apenas 114 inscritos na disciplina.

Aliás, esse é mesmo o ano de escolaridade com menor número de alunos em Educação Moral e Religiosa Católica, apenas com 114, sendo que 105 inscrições vêm da Escola da Apel, 7 da Escola B+S D. Manuel Ferreira Cabral (Santana) e dois alunos da B+S Professor Dr. Francisco de Freitas Branco (Porto Santo).

No que diz respeito ao ensino secundário, apenas quatro escolas da Região obtiveram inscritos em EMRC, ou seja, as anteriormente referidas e a Escola Básica e Secundária D. Lucinda Andrade (São Vicente), num total de 382 alunos do 10º ao 12º ano.

No extremo oposto, os estabelecimentos de ensino com maior número de inscritos em EMRC são, como seria de esperar, as escolas católicas como a Escola da APEL, Colégio da Apresentação de Maria e Colégio Salesianos do Funchal.

A Escola Básica dos 2º e 3º ciclos do Caniço conta com 93 inscritos nas aulas de EMRC, sendo que há ainda seis alunos a frequentar Educação Moral e Religiosa Evangélica. “Esta disciplina é orientada por um professor voluntário, indicado pela Igreja Evangélica”, explica Armando Morgado, director desse estabelecimento de ensino. Na verdade, a escola conta com 214 alunos no 5º ano, pelo que os inscritos na disciplina religiosa representam menos de 50%.

Armando Morgado reconhece que a maioria dos encarregados de educação já não associa estas aulas à catequese, até porque o programa é distinto. “Talvez também tenhamos bastante adesão pois todos os anos organizamos uma viagem cultural a Portugal continental, da responsabilidade do grupo de EMRC”, assume.

No fundo, o programa permite que se abordem temas variados, com uma visão católica ou evangélica sobre o assunto. Muitos docentes optam por recorrer a filmes e outras actividades que permitam debater temas variados e, por vezes, controversos, nomeadamente de acordo com a tradição religiosa.

Número de catequizandos mantém-se estável

A passagem do 3º para o 4º ano de catequese traz consigo várias desistências. Assim que as crianças fazem a Primeira Comunhão, muitos pais optam por retirar os filhos da catequese. “Alguns pais consideram que os sacramentos se ficam pela Primeira Comunhão”, assumiu ao DIÁRIO o padre Hector Figueira, pároco dos Álamos.

O número de catequizandos ronda uma média de 13 mil crianças e jovens, que são acompanhados por aproximadamente 2 mil catequistas. Hector Figueira, responsável pela coordenação da venda de catecismos, afirma que o número está mais ou menos estável nos últimos anos. “Sabemos que após a Primeira Comunhão muitas crianças deixam a catequese, mas os números de vendas de catecismos não reflectem qualquer diminuição além da habitual, após esse ano”, explica o padre.

O religioso afirma que a diminuição da natalidade e o aumento da emigração vieram contribuir para a diminuição do número de jovens a frequentar a catequese. “É normal que se não nascem crianças, elas não podem frequentar a catequese”, assume. Questionado sobre se este não poderá ser um sinal de que existem menos católicos, o padre afasta essa ideia, dizendo que cada um tem a sua fé.

Esta diminuição do número de crianças a frequentar a catequese também é sentida na paróquia da Nazaré. O pároco Pedro Nóbrega afirma que cerca de 20% das crianças que fazem a Primeira Comunhão não regressam no 4º ano. “Essa é uma realidade que também é sentida na nossa paróquia”, assume o religioso. Apesar disso, confessa que a Nazaré é das paróquias com mais catequizandos, também devido ao facto de dispor de diversos horários para os diferentes anos de catequese. “A verdade é que temos muitas crianças de outras paróquias na nossa catequese porque conseguem ‘encaixar’ o seu horário no nosso”, explicou.

Só no 1º ano, a Nazaré tem inscritas cerca de 80 crianças, sendo que os números ainda são provisórios. “A disponibilidade dos catequistas também vai afectar a forma como organizamos os nossos horários, mas como temos uma grande bolsa de catequistas conseguimos várias alternativas. Não temos catequese só ao sábado ou domingo”, confessa.

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