Para além de Leopardo

02 Nov 2017 / 02:00 H.

‘O Leopardo’ foi mesmo o único romance de Giuseppe Tomasi de Lampedusa. Lançado em Novembro de 1958, em Milão, um ano depois da morte do autor, o livro é ainda hoje considerado uma das obras-primas da literatura italiana e europeia dos meados do século XX, que conta a fascinante história de uma aristocracia siciliana decadente e moribunda, ameaçada pela aproximação da revolução e da democracia.

É por isso que o nome Lampedusa está sempre intimamente ligado ao ‘Leopardo’. É certo que isso não é mau, mas torna-se redutor. A verdade é que Giuseppe Tomasi de Lampedusa, que se tornou escritor já tarde, escreveu outras obras. ‘Os Contos’, agora editados em português pela Dom Quixote, são prova disso mesmo.

Neste livro estão reunidos os quatro únicos contos do legado literário de Lampedusa: um texto de carácter autobiográfico, recordações de infância, e três histórias: ‘A Alegria e a Lei’, ‘A Sereia’ e ‘Os Gatinhos Cegos’.

Além de seguir as versões originais dos textos, esta completa edição de ‘Os Contos’ de Tomasi di Lampedusa é enriquecida por fotografias dos manuscritos – que incluem desenhos da casa natal feitos pelo próprio escritor – e por um vasto trabalho crítico levado a cabo pelo filho, Gioacchino Lanza Tomasi.

E aqui temos um pouco de tudo. Escritas no Verão de 1955, ‘Recordações de Infância’, como Tomasi, explica na introdução, “revelam também o laboratório do escritor na fase da sua obra-prima”.

Seguem-se-lhe ‘A Alegria e a Lei’, uma alegoria natalícia perfeita no tom e na dimensão, e ‘A Sereia’, o conto mais famoso da colectânea, escrito após uma viagem ao longo da costa sul da Sicília. No coração desta fábula, no limite entre o real e o surreal, destaca-se uma formidável personagem: o antigo professor La Ciura, que em jovem conheceu o amor da Sereia, jamais conseguindo desfrutar de outro.

O livro encerra com ‘Os Gatinhos Cegos’, que é dos três contos o mais próximo de ‘O Leopardo’, embora tenha nascido como primeiro capítulo de um novo romance, do qual manteve o título. Este foi mesmo o último texto escrito por Lampedusa, em Março ou Abril de 1957. No final de Abril, é diagnosticado ao autor um cancro no pulmão. Três meses depois, morre.

Nas notas de Gioacchino Lanza Tomasi sobre este conto, é revelado que ‘Os Gatinhos Cegos’ seria “o início de um segundo romance que, como ‘O Leopardo’, teria tido os traços de um libelo histórico.”

A verdade é que ao ler estes contos, temos a sensação que Lampedusa nos deixou demasiado cedo, que certamente teria muito mais por contar, escrever e partilhar com gerações e gerações de leitores.

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