“Os trilhos de BTT têm os dias contados”

O perito alerta para a degradação de um cartaz turístico e ‘dispara’ em várias frentes

22 Jan 2018 / 02:00 H.

Joe Sanchez é madeirense e já percorreu o Mundo no ‘trilho’ de uma paixão que começou muito cedo. Especializado em várias áreas do ciclismo, a paixão pela modalidade e pela terra que o viu crescer é tão grande que o fez alertar para um assunto que até agora não foi abordado e que mais parece um tabu: a sustentabilidade dos trilhos de BTT.

Começou cedo nestas andanças. Como é que se apaixonou pela modalidade? Desde muito jovem sempre tive uma paixão pelas ruas rodas, sobretudo pelas bicicletas. Nasci na década de 70 e as brincadeiras eram outras, e uma delas era andar de bicicleta. De certa forma éramos um grupo de amigos onde havia muita interacção e interesse por andar de bicicleta, porque se calhar é das coisas mais divertidas que uma criança pode ter, a liberdade de poder manobrar um veículo. Com a bicicleta os miúdos e jovens quando saem de casa ganham aquela sensação de que estão a deixar para trás a sua zona de conforto. Já na altura não havia pista de BMX, nem um sítio seguro onde pudéssemos levar os miúdos a andar de bicicleta. Mais tarde, quando o estigma foi quebrado, comecei a explorar a ilha e a ir para a montanha, que era uma coisa que não existia na altura. Entretanto surgiram as BTT, que são as bicicletas de montanha mais básicas.

Sente que foi o primeiro madeirense em muita coisa? Não sinto, tenho a certeza que fui. Fui pioneiro em muita coisa, tenho formação em várias áreas do ciclismo, e fui o primeiro a sair da Madeira para fazer uma corrida no continente. Foi uma aventura, porque nem sabia para onde é que ia, mas aventurei-me e segui o meu coração. Foi uma oportunidade que o meu clube da altura deu. Conheci aquela realidade e vi que havia uma capacidade para progredir e melhorar. Entretanto conheci pessoas lá que me deram orientações a nível de treino e depois disso foi um processo que melhorou a minha capacidade competitiva. Fui o primeiro madeirense a correr numa prova internacional, que foi a Taça do Mundo em 1996, no Jamor. Em 350 atletas eu fiquei em 8.º e estive muito próximo da vitória. Não tinha treinador ou mecânico e caí lá quase de paraquedas. Nem a nutrição certa eu tinha.

Enquanto atleta andou sempre na frente. Sente que a Madeira também lhe colocou em primeiro lugar? Em termos de apoios quem me pôs em primeiro lugar foi a minha família e eu como pessoa, porque era eu que tinha essa paixão e procurei o sucesso. Na altura, o apoio que a ilha me deu foi as condições que reunia, o clima, por exemplo, que é algo que nos faz acordar e querer treinar. A Madeira apoiou-me através do IDRAM e consegui assegurar as minhas viagens. Sempre era uma boa fatia. Podemos dizer que era 50/50 entre privados e apoios estatais.

A Madeira tem todas as condições para se assumir como uma passagem obrigatória para os praticantes desta modalidade? Tenho a certeza e isso já foi provado. Com a quantidade de visitantes que temos está mais do que provado que a Madeira tem condições para continuar a ser um destino de eleição. Sabemos que a nossa ilha já foi galardoada imensas vezes e o aeroporto foi uma porta que ajudou bastante nesse aspecto, e podemos dizer que a Madeira está mais do que lançada como destino, seja para praticantes nacionais ou estrangeiros.

A Madeira tem tudo o que os outros países oferecem? Não. Posso dizer que começar a fazer BTT na Madeira, neste momento, não é fácil. Pode sair muito bem, como pode sair muito mal. Numa primeira saída, você compra ou aluga uma bicicleta e vai fazer um trilho, mas não encontra uma pista fácil ou familiar. Isso não existe. Aí eu defendo que para uma pessoa saber o que é BTT tem de sair da Madeira e ir para um destino certificado, porque são zonas que passam por testes, auditorias e que têm de compreender um conjunto de regras bem definidas pelo Instituto da Natureza ou Desporto desse país. Uma pessoa que queira começar a praticar a modalidade na nossa região e que tenha 20 ou 30 anos é uma aventura, porque não há caminhos fáceis, é tudo num grau para cima do médio e já se sabe que quando uma pessoa começa a praticar outra modalidade, como natação ou corrida, não vai para um nível avançado ou profissional, porque não tem prática ou experiência, e aí entra a parte perigosa, porque as pessoas não têm caminhos preparados e certificados que compreendam essas regras e que de certa forma lhes permitam ter segurança. Estamos a falar de algo muito importante, porque se há vontade de praticar este desporto não temos sítios fáceis para andar. Mesmo aqueles que são considerados fáceis tratam-se de ‘estradões’ de terra nos quais circulam gado, motas, veículos todo o terreno, e depois surgem os conflitos de interesses.

Esses certificados que estava a falar a Madeira não os tem? Não os tem, em nenhum circuito. Para já não são qualificados e não compreendem qualquer certificação ou aval da entidade que gere essa parte.

As empresas que são vocacionadas para essa modalidade podem estar a vender um serviço sem os trilhos terem esse certificado? Essa é uma pergunta delicada. Este é um processo que já se passou com outros países e nós, neste caso, posso dizer que estamos a viver numa anarquia. Cada um faz o que quer o que lhe apetece, e apesar das medidas que foram tomadas, em conjunto com entidades regionais, seja o Instituto das Florestas ou a entidade que gere o ciclismo na Madeira, elas não tiveram sucesso e não funcionam. Falou-se que ia haver fiscalização, pedidos de licenças ou taxas mais elevadas, porque é legítimo para as empresas de animação turística e para os grupos que fazem disto ‘vida’, e que fazendo disto a sua actividade profissional, estão a massificar o desporto e o fluxo de pessoas. Eles são os principais prevaricadores e os que causam mais dano. É legítimo haver taxas para locais e para empresas. Já está mais do que provado que o sistema que temos cá não está a funcionar. Não há um sítio em que se aponte para ser recuperado, certificado e com baixo nível de dificuldade. Falta interesse e investimento por parte do Governo Regional.

Criou a primeira empresa virada para o BTT aqui na Madeira, não foi? Sim, posso dizer que fui eu que criei a primeira empresa 100% vocacionada para passeios de bicicleta. Na altura não sabia bem no que me estava a meter e percebi em pouco mais de dois anos que estava adiantado para a minha época. Entretanto já tinha viajado e aquilo que estávamos a fazer não era nada inovador. Estávamos a adoptar uma ideia daquilo que já se passava lá fora. No fundo éramos uma empresa que levava curiosos a andar nos trilhos que tínhamos pela ilha. Infelizmente o ‘timing’ não foi o adequado, mas a empresa ainda existe e neste momento tem algum sucesso. Acho até que foi uma das portas para a projecção da Madeira, porque essa projecção tem sido feita quase com um investimento privado. As empresas que realizam vídeos sobre a Região para promover o seu produto acabam por difundir através dos media e fazem ‘explodir’ o nome Madeira para o Mundo.

Passados dois anos houve um ‘boom’? Houve, porque as bicicletas evoluíram e os caminhos também. A proliferação de caminhos surgiu com o aparecimento de antigos caminhos que estavam abandonados, isto já em 1996. Estamos aqui, passados 20 anos, a falar de um percurso de evolução de caminhos e pistas, porque no fundo a competição que está relacionada e que é legal está dentro da Associação de Ciclismo da Madeira e essa competição, havendo um calendário regional de uma modalidade ou outra, levou a que os clubes, com as devidas autorizações, fossem criando condições e caminhos para se organizar corridas. Passados dois anos as bicicletas evoluíram e surgiu uma nova modalidade, o Enduro, que é uma modalidade que complementa todas as vertentes do BTT. Com o crescimento do Enduro houve um maior interesse por parte das empresas regionais em querer acompanhar essa tendência e de repente começou-nos a ‘chover’ aqui pessoas. Lembro-me que o primeiro grupo que tive veio cá à Madeira através de um vídeo. A Madeira era um destino pouco conhecido, mas tinha vistas e cenários que não existiam na comunidade e as marcas começaram a ficar interessadas pela novidade e porque queriam os seus produtos aliados à beleza da Madeira. Por aí vemos o crescimento de uma empresa de animação turística, com altos e baixos. Podemos dizer que o momento alto é o sucesso que conseguimos obter por mostrar a ilha e a parte menos boa é a degradação dos caminhos.

A modalidade está agora entregue aos lobby’s? Neste momento já existe um lobby de empresas que são beneficiadas e de certa forma têm algum proteccionismo, que é óbvio, porque vai sempre parar aos mesmos. Não é muito justo por parte da Associação de Promoção da Madeira (APM). Este é um tema delicado, que num meio pequeno cria logo uma ‘guerra’. Já fiz vários relatórios e não servem para nada, porque vão para a gaveta. Os caminhos continuam iguais, a requalificação é zero, a manutenção é pouca e ‘pirata’, porque as empresas tapam buracos e isto é pior do que remendar um tapete de alcatrão, porque a estrada é larga. Os trilhos têm entre 35 e 70 centímetros de largura, estão maioritariamente dentro de uma vala e expostos a abismos. Na Calheta, por exemplo, as árvores estão todas a meio dos trilhos. As empresas não querem arranjar os trilhos porque deixam de atender os clientes e vão acabar por beneficiar as outras. E quando as empresas chegam a um trilho que não está bom, vão para outro, e acabam por dar mais ‘carga’ nos outros caminhos. Se temos 20 trilhos bons e 10 fecham por causa do mau tempo ou degradação, nos outros 10 o desgaste será mais rápido porque estará toda a gente a usar esses 10 trilhos. Isto é uma bola de neve. A Madeira tem os dias contados.

Quanto rondam os lucros destas empresas? São máquinas de fazer dinheiro. Os números são públicos e basta fazer uma pesquisa. Esta é uma indústria que faz muito dinheiro e posso dizer que esses números ainda ficam aquém dos reais. Há empresas a encaixar 50 mil euros por mês e que não gastam nada em manutenção de caminhos, ou mesmo dando uma verba ao Instituto das Florestas ou para associações que têm pessoas qualificadas para fazer esse trabalho de recuperação. Esta é a realidade. É uma actividade que já emprega muita gente na Madeira, entre condutores, guias, gestores de loja e mecânicos. Posso dizer que há pouca qualificação e certificação nesta indústria, mas continua a haver mais procura do que oferta.

Sendo assim, será difícil encontrar outro atleta como o Emanuel Pombo? O Emanuel Pombo é uma pessoa com muito valor e eu acompanhei o seu crescimento como atleta. Ele já corre desde os 15 anos. Respondendo à sua questão, sim, será difícil, porque estrelas não são fáceis de encontrar. Antes era fácil ir à montanha e arranjar caminhos e pistas de qualidade. As capacidades de condução dos atletas de cá são diferentes, porque a Madeira reúne diversas características, mas temos o caso da Lousã que é um ‘poço’ de novos atletas, nos quais estão estabelecidos os melhores atletas a nível nacional, embora a Lousã tenha surgido 10 anos depois da Madeira. Os atletas passam a vida a treinar na Lousã e posso dizer que não temos as condições que tem essa zona ou Ponta de Lima para produzir ‘máquinas’ ou super-atletas, como o Emanuel Pombo, que já foi campeão nacional nove vezes.

Aqui na Madeira, o concelho da Calheta tem apostado nesta modalidade? Não, a Calheta, ao contrário do que pareça, não tem apostado nesta modalidade. Para mim os melhores trilhos estão ali, porque são mais longos, tem como pano de fundo o mar e são os trilhos mais expostos ao sol e o tipo de piso é o mais adequado, mas tem um inconveniente. Quase todos os trilhos que existem na Calheta são em terrenos privados e entramos num capítulo delicado, mas digo isto contra mim, porque tinha a minha empresa sediada naquele concelho. Em 2007 passamos de dois trilhos para cerca de 10 na Calheta e o Instituto das Florestas acompanhou toda a situação. E agora os caminhos do concelho têm sofrido uma agravante que são as motas, que utilizam os trilhos e deviam de ir para recintos próprios. Voltei há um mês e meio à Região e caiu-me tudo quando vi alguns trilhos na Calheta. Estão com elevado estado de degradação, mas é o que está a acontecer por toda a ilha.

E a Federação Portuguesa de Ciclismo não tem nada a dizer sobre isto? Tem. Eu já fiz visitas e relatórios sobre o estado de degradação de terrenos e trilhos, mas quando chegam os técnicos do Instituto das Florestas dizem apenas que a corrida tem de acontecer. Não há aqui um equilíbrio. Esta é uma modalidade um pouco lobista, porque há uma altura em que as coisas têm de andar para a frente e alguém manda desbloquear. Como sou técnico da federação, uma vez, numa prova, disse que um caminho passava muito à beira de uma encosta e que se alguém caísse era morte certa. E a prova decorreu, porque tinha de acontecer, pois reunia vários atletas internacionais. Agora pergunto: sou técnico, e com o meu devido diploma digo que não pode acontecer a prova por questões de segurança, mas se acontece alguma fatalidade, para onde sobram as culpas? Mais cedo ou mais tarde alguém vai magoar-se a sério. Neste momento, por exemplo, não existe uma equipa de resgate na montanha para bicicleta.

Qual a solução? É preciso ter um plano de acção e esse plano não existe. Se for para falar de estratégia sobre o futuro do BTT ela não existe. A estratégia dos nossos governantes é promover, gastar dinheiro em promoção e não canalizar nenhuma verba para a manutenção de caminhos. O turismo de BTT funciona como um prisma, ora vejamos: 5% são os profissionais, 10% os iniciantes e os intermédios perfazem o resto. Neste caso, nós temos 85% da população que anda de bicicleta e não passa do nível intermédio, mas que se mantêm lá para toda a vida, ou seja, nunca vão ser profissionais, porque começaram tarde, ou seja, depois disto ter pegado na moda há 10 anos atrás. A Madeira não tem trilhos adequados para oferecer a esses 85%. A Associação de Promoção da Madeira já realizou vários vídeos e promoções, trazendo inclusive profissionais que vêm cá e não gastam dinheiro nenhum. E continua-se a investir em profissionais e em vídeos, mas se não houver uma corrida eles não voltam cá, porque há destinos mais baratos e com caminhos melhores. A ideia que se vende é mentira e esses 85% de que falei vão estar a comprar uma publicidade que é enganosa, e esses são os mais importantes, porque são pessoas com poder de compra. Os 5% vêm cá sendo pagos pela APM e por privados, os 85% estão descuidados porque não há investimento, e os 10% que até têm alguma curiosidade e viajam até aqui, vendo os caminhos como estão, já não voltam, porque não se vão divertir, podem inclusivamente magoar-se e não vão interagir com a família ou os amigos, porque não há caminhos preparados para isso. Isto não é inventado por mim. A grande fatia que devia estar a ser cuidada ninguém olha. O Instituto das Florestas já tem conhecimento de onde existem caminhos e terrenos públicos que possa requalificar e criar linhas verdes, ou seja, linhas familiares que podem ser feitas por uma criança com três anos de idade. Não temos uma linha verde ou azul na Madeira, aqui só existem vermelhos, vermelhos escuros e pretos, ou seja, caminhos difíceis e perigosos.

E esse investimento quanto seria? É incalculável. Posso dizer que quanto mais tarde se fizer essa análise, mais caro será, porque requalificar caminhos que já estão feitos e degradados é mais dispendioso do que fazer novos. A Madeira é ‘50 por 20’, é uma pedrinha no oceano, e onde, por exemplo, havia um caminho que descia para o Santo da Serra, não pode haver outro. A orografia não o permite. Não podemos criar segundas vias para descer. Por acaso temos sido brindados com bom tempo, mas basta haver mau tempo que é o fim da ‘macacada’.

Continuamos a ter a ideia que está tudo bem? Por incrível que pareça sim. A maioria das pessoas estão contentes, mas atenção que essas pessoas que pensam ter opinião e começaram a andar de bicicleta há dois ou três anos, que se lembrem que já estou no meio há 20 e vi este mundo passar por muita coisa. Em termos regionais chegamos a um ponto em que não há amadorismo. São centenas de madeirenses que utilizam os trilhos aos fins-de-semana, mais os turistas, que andam de carrinha para cima e para baixo. Os caminhos têm de ser sustentáveis e não são. As pessoas não querem ver que os trilhos estão a desaparecer. Há relatórios e basta contactar um geólogo que temos provas que os trilhos de BTT estão com os dias contados. As pessoas estão um pouco cegas e iludidas, pensando que está tudo bem, mas não está! Espero que isto não bata no fundo como eu estou a prever.

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