Os cheiros que lembram o natal

22 Dez 2017 / 02:00 H.

A manhã de ontem estava fria e as ruas da cidade, junto ao Mercado dos Lavradores, estavam bem movimentadas. A envolvência das cores e os cheiros dão outro sentido à cidade. Os aromas da carne de vinha d’alhos, do bolo do caco, das tangerinas que se sente ao longe e das castanhas assadas que apetece saborear, marcam estes dias de Natal.

Turistas e madeirenses enchem as ruas que parecem ganhar vida. Uns querem ver lojas, montras e apreciar o ambiente festivo. Outros, a passos largos, vão andando de loja em loja à procura das ultimas prendas de Natal.

É nesta altura que as ramagens, as flores, o musgo, as cabrinhas, os alegra campos, as manhãs de páscoa, o azevinho e os pinheiros são mais procurados, em especial na Avenida do Mar, junto à Empresa de Electricidade da Madeira, onde se concentram os vendedores. Alguns lá estão há vários anos, no negócio que lembra o Natal.

Foi lá que encontramos Sarita Freitas à procura de pinhas e raminhos para enfeitar a casa. Moradora na Rua da Conceição, sempre procurou este espaço para comprar a verdura da festa, já lá vão 37 anos e diz que é isto que lembra o Natal. “A noite do Mercado é já uma grande tradição, tem o seu lugar nesta quadra, com a venda de fruta na rua, mas para mim, Natal é vir aqui comprar as cabrinhas, as ramagens e tudo o que eu preciso para enfeitar a minha casa”, diz entusiasmada, sobretudo quando fala da escolha do pinheiro. “Tem de ser natural por causa do cheiro, o único que espalha pela casa o aroma da festa”. Nunca optou por um pinheiro de plástico, “porque a casa fica sem cheiro e aí já não é Natal”. O pinheiro foi comprado na noite anterior e desta vez escolheu um de grandes dimensões sem olhar ao preço. “Quando vale a pena nunca olho ao preço, desta vez não foi barato, mas valeu o dinheiro porque estava perfeito”, diz, enquanto olha para Maria Regina, a vendedora que todos os anos vem do Santo da Serra para satisfazer os pedidos dos clientes.

Está no negócio há mais de 30 anos, uma tradição que, no seu entender, nunca deveria terminar. “Às vezes, da maneira como as coisas vão, acho que isto ainda vai acabar, este ano houve espaço para todos, mas nem sempre é assim. Há pessoas que pedem o meu contacto, para o caso de eu não conseguir estar aqui”, diz Maria Regina que vende mais de 50 árvores e perde a conta do musgo e das ramagens que despacha.

Tem clientes fiéis que todos os anos procuram os seus produtos. “É a melhor prenda de Natal” que recebe dos clientes de há 30 anos que passam a ser amigos. “Sabe, mesmo velhinhos e de bengala vêm cumprimentar e levam sempre qualquer coisinha”, conta entusiasmada. “Ainda ontem veio um senhor de 80 anos com a sua bengala, desejou Feliz Natal e levou umas cabrinhas”, diz, feliz pela tradição continuar viva e a passar de geração em geração. “Agora vêm acompanhados dos filhos ou dos netos que ajudam a escolher”. O mesmo acontece com alguns estrangeiros que não abdicam de uma árvore natural.

Nunca vende tudo, mas não se queixa do negócio com preços que variam entre os 5 e os 100 euros. A única altura difícil foi na transição do escudo para o euro, em 2000, quando as pessoas sentiram que o dinheiro não rendia nada e acabava depressa. A partir daí, sempre dá para ganhar algum e nunca pensou em desistir. “Tenho as árvores plantadas para este fim, nunca tive problemas com licenças nem com a atribuição dos espaços e enquanto tiver saúde, cá estarei para celebrar o Natal desta maneira”.

Mesmo ao lado João Dinis Jesus tentava mostrar alguns pinheiros a um cliente. É o vendedor mais antigo, considerado o ‘avô dos pinheiros’. “Comecei a vender com 14 anos e já vou fazer 66”, releva com muito orgulho. Em 52 anos de ofício só falhou três anos devido à tropa no Ultramar.

Diz que já vendeu pinheiros no Casino, no Campo da Barca, ao lado da loja do Marítimo, na Cruz de Carvalho e agora em frente à empresa de electricidade, na Avenida do Mar. Não acha que este seja o melhor lugar para a venda destes produtos e queixa-se da falta de estacionamentos e da pressão que a PSP faz pelo facto de os clientes pararem, por breves instantes, nas paragens do autocarro, mesmo em frente do negócio. “Ora, sem lugar para parar, como é que as pessoas conseguem escolher com calma, comprar e levar até ao carro?, lamenta o comerciante que acaba por apontar a zona do teleférico como o sítio ideal para a venda de pinheiros e ramagens.

Sobre as vendas, “andam como de costume, uns dias melhores do que outros”. É graças aos clientes fixos que continua com o negócio e este ano estima vender mais de 100 árvores. A maior dificuldade é ter de ficar de ‘sentinela’ durante toda a noite. “Isto não tem porta e obriga-nos a pernoitar aqui”. De resto, “faz-se bem”.

Quanto às diferenças entre os clientes de antigamente e os de agora, João Dinis diz que o cliente de hoje é mais moderno, tem mais tecnologia, mas na hora de escolher, mostra que tem muito para aprender. “Às vezes procuram o melhor e acabam por levar o pior. São exigentes, mas tanto escolhem que levam o pior”.

Apesar de vender um pouco de tudo, desde camélias, musgo, barbas de velho, troncos, raízes, sapatinhos e alegra campo, o pinheiro tradicional é o que mais vende, entre 15, 25, 30 e 35 euros. Depois há outras árvores mais caras, como o abeto que pode atingir os 100 euros.

Na hora de comprar, as pessoas em sempre pedem conselhos. “Querem bonito e barato” e muitas vezes não têm em conta o que melhor se adequa ao espaço.” Há uns que devem estar encostados à parede, há outros próprios para uma esquina e há ainda aqueles (os redondinhos) que ficam bem no centro de uma sala”.

Garante que enquanto tiver saúde vai continuar com o negócio, até porque tem noção de que o futuro é incerto porque os mais novos não mostram interesse. “Se não for a minha geração a trazer o Natal à cidade, os jovens, que só querem saber da tecnologia, não querem saber disto e vão acabar com a tradição”, lamentou.

Mais à frente, Maria José Pestana, moradora em Santa Luzia, procura todos os anos este espaço para comprar qualquer coisa que lembre o Natal. “É isto, saúde e a família”, revela enquanto procurava musgo “para encaixar na lapinha”. A árvore lá de casa tem de ser natural porque de coisas artificiais está o Mundo cheio. “Vê-se muita coisa artificial, até no falar entre as pessoas, falta aquele sentimento verdadeiro”.

Hoje com 75 anos, relembra “com muita saudade” o Natal da adolescência, uma época mágica, onde “o Natal era pobre, mas cheio de amor, com sentimentos naturais como estes pinheiros”.

Junto a Maria José Pestana encontramos o espaço de Augusto Manuel Rodrigues, o segundo vendedor mais antigo, que se dedica a este negócio há quase 40 anos. A conversa foi mantida com a filha Débora Rodrigues, de 23 anos, que tem ajudado o pai num trabalho que “nem sempre é fácil”. Até ao dia 23 de Dezembro espera vender mais de 60 árvores e um sem número de cabrinhas, alegra campo e azevinho, entre outros produtos que “lembram o Natal”. Sente que os clientes são cada vez mais exigentes, tanto que “para cada cliente costumamos mostrar 15 árvores e alguns acabam por não comprar nada” e queixa-se de que o negócio está mais fraco. “Não deixamos de vender, mas o ano passado correu melhor, as pessoas dizem que não há dinheiro”. Mesmo assim, as árvores são as mais procuradas e variam consoante a espécie. “O Pseudotsuga é o mais tradicional, o pinheiro bravo é o mais procurado, as Criptomérias são as mais raras e o Abeto é, para mim, o mais bonito”, diz Débora que ajuda o pai desde o dia 15 de Dezembro, a altura ideal para começar o negócio. “As pessoas procuram os pinheiros naturais a partir do dia 20 porque têm medo de comprar cedo e a árvore acabar por secar na altura do Natal, mas o truque é deitar água todos os dias para que aguente mais tempo”. Apesar de nem sempre dar muito lucro, nunca pensaram em desistir. “O negócio começou com os meus avós e passou para o meu pai É como se fosse um vício, impossível de terminar”. -

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