Os bairros sociais tê gente dentro que sofre e sente

Uma das mágoas de quem vive nos bairros sociais é a falta de afecto por parte da sociedade. Felizmente há quem acredite que são pessoas como as outras

25 Dez 2017 / 02:00 H.

Dar afecto a quem mais precisa é um acto nobre e dignificante que pode mudar a vida de alguém, pois significa estender a mão, cuidar, amparar e transmitir esperança a quem mais precisa. É uma atitude que pode ser prestada por qualquer pessoa, na maior parte dos casos, de forma gratuita, porque o melhor afecto é sempre aquele que parte do coração.

Nas sociedades desenvolvidas, os mais ricos têm sempre carinho e atenção, mas este cenário muda rapidamente quando se trata da classe menos instruída e desfavorecida. Felizmente há muito boa gente que se preocupa com o bem-estar dos outros, uns de forma anónima, outros através de instituições, que tudo fazem em prol dos outros, sem esperar qualquer contrapartida financeira.

O DIÁRIO encontrou um exemplo dessa dedicação no trabalho prestado pela Presença Feminina, uma associação liderada pela professora Helena Pestana. Começou por ajudar e proteger mulheres vítimas de violência doméstica e hoje oferece um vasto apoio em diversas áreas a famílias que passam por diversasnecessidades.

Os moradores dos bairros sociais são, provavelmente, os que mais sofrem com a falta de afecto e de atenção, porque vivem inseridos num ambiente que nem sempre é entendido e respeitado pelos outros. Ao contrário do que acontece em diversas zonas do país, a Madeira não tem o chamado ‘espírito de bairro’, muito por causa do estigma e da conotação negativa que a palavra ‘bairro’ ainda tem na sociedade actual.

Sediada bem no centro do bairro social de Santo Amaro, no Funchal, a Presença Feminina ajuda as famílias que vivem nos bairros de Santo Amaro e da Nogueira. Umas procuram apoio, outras precisam de ajuda. Foi aí que encontramos Lúcia Serrão, moradora na Nogueira, Ângela Teles e Rosa Sitolo, ambas residentes em Santo Amaro. Cada uma com uma história de vida diferente, mas todas elas carentes de ajuda, carinho e compreensão.

Helena Pestana diz que é importante apostar em projectos dinâmicos que incluam todas as pessoas do bairro porque “é preciso o espírito de união, é preciso estruturas que façam os moradores sentirem orgulho no bairro e, mais do que isso, é preciso afectos entre as pessoas”.

Infelizmente a falta de afecto chega através de diversas formas e pode atingir qualquer pessoa. Rosa Sitolo é disso exemplo. Hoje vive bem integrada no Bairro de Santo Amaro, mas sentiu na pele a discriminação por ser de raça negra. “Quando cá cheguei, há 13 anos, fui chamada de preta e acusada de vir roubar o trabalho, a casa e o dinheiro dos outros”, relembra a moçambicana de voz trémula, a querer esquecer essa altura difícil. O racismo e o preconceito deixaram marcas ultrapassadas com “determinação, educação e muito orgulho em ser negra”. Não entende o tratamento desigual vindo de pessoas que estão na mesma situação. “Ninguém vive em bairros sociais por opção, somos todos iguais, somos pessoas com pouco dinheiro sem possibilidade de viver noutro sítio melhor”.

A Presença Feminina presta apoio em diversas áreas. Começou por ajudar as mulheres vítimas de violência doméstica, mas alargou a ajuda a várias pessoas com problemas diferentes. É aqui que muitas famílias recebem apoio jurídico, apoio social (através da doação de alimentos, roupa, calçado e mobiliário) e ainda apoio psicológico.

Ângela Teles encontrou nesta instituição a ajuda psicológica que procurava. Depois de o marido ter perdido o emprego na área da construção civil, e mais tarde o subsídio de desemprego, a família passou um mau bocado e foi então que Ângela sentiu necessidade de falar e desabafar com alguém. O afecto veio através da psicóloga da Associação, onde acabou por encontrar amigos para os bons e os maus momentos. De resto, sente-se feliz a viver ali, onde estuda através do projecto ‘A escola vai ao Bairro’ para terminar o ensino secundário.

Os moradores do bairro da Nogueira também merecem a atenção desta instituição que ajuda as famílias mais necessitadas. Para isso, muito contribui o apoio de Lúcia Serrão, moradora na Nogueira e voluntária há seis anos, que identifica e remete para a Presença Feminina as carências de quem vive no bairro. Um sítio onde “é preciso saber viver”. Tarefa por vezes difícil quando todos os outros olham de forma discriminatória. “O bairro da Nogueira é problemático, tem má vizinhança, tem droga e violência, mas nem todos são toxicodependentes, ladrões nem causam distúrbios”, diz Lúcia que garante ser possível um ambiente social agradável no bairro “se cada um quiser e souber viver em sociedade”. No dia-a-dia, dedica-se às famílias que precisam de ajuda e faz a ponte com a instituição que vai acudindo conforme a disponibilidade.

O querer ajudar tem de partir de cada um. Lúcia relembra que aos 22 anos foi viver para o Bairro da Nogueira. Teve três filhos e passou por muitas dificuldades. Foi ajudada pelos mais velhos da freguesia que ofereciam o que colhiam da terra. Agora sente-se feliz por retribuir o gesto que recebeu.

Nem sempre é fácil ajudar porque nem todos pedem ajuda. A pobreza envergonhada ainda é uma realidade, mas Helena Pestana não deixa ninguém para trás graças a um trabalho diário que vai muito para além da instituição onde é presidente. Enquanto cidadã, gosta de ajudar os outros. É assim desde sempre. “Tenho esta forma de ser e não me consigo ver sem ajudar o próximo”, refere.

Muitas vezes os agressores (das vítimas de violência doméstica) batem à porta, fazem marcação serrada e tentam descobrir em que casa de apoio está a mulher ou ex-mulher, mas nem assim, com o perigo à espreita, sentiu que deveria desistir. “Só quando não tiver forças ou saúde”, afirma com convicção.

Lúcia Serrão lamenta que grande parte dos moradores dos bairros não seja levado a sério por não terem formação muita formação académica. Apesar de muitos moradores não sentirem dificuldades e serem pessoas com estudos, a verdade é que muitos outros são pouco instruídos.

Rosa Sitolo relembra que bateu em muitas portas, pediu ajuda a várias entidades e “por ser preta e sem estudos”, nunca recebeu o apoio que procurava. Encontrou-o apenas na Presença Feminina.

O mesmo aconteceu com as filhas de Ângela Teles. Uma deixou de fazer voluntariado devido ao ‘assedio moral e outra, que procurava emprego, só conseguiu depois de ter alterado a morada.

Helena Pestana não duvida de que muitos moradores dos bairros precisam de afectos, uma simples palavra que significa muito para quem procura um apoio, uma orientação ou simplesmente um amigo.

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