Da ‘paixoneta’ à Orquestra

14 Jun 2018 / 02:00 H.

Gonçalo Lélis nasceu em Aveiro, em 1995, e aos 23 anos conta já com várias distinções no seu percurso musical. Em 2015, conquistou o primeiro lugar no Prémio Jovens Músicos, na categoria ‘violoncelo nível superior’, assim como o Prémio União Europeia dos Concursos Musicais para Jovens (EMCY). Seguiu-se o primeiro prémio no Concurso Vasco Barbosa, em 2016, e, já em 2017, no Concurso Internacional de Música da Cidade do Fundão, também na categoria ‘violoncelo nível superior’.

Como solista apresentou-se com a Orquestra Filarmonia das Beiras, Orquestra Sinfónica Portuguesa e Orquestra Gulbenkian. No sábado passado, apresentou-se também, pela primeira vez, com a Orquestra Clássica da Madeira (OCM), no Salão Nobre da Assembleia Legislativa Regional.

Com um avô madeirense - nada mais, nada menos, que o ex-secretário regional da Educação e deputado na Assembleia da República, Carlos Lélis - esta sua estreia com a OCM ganha contornos de ‘regresso a casa’, até porque se trata da terceira viagem de Gonçalo Lélis à Madeira. À terceira foi mesmo de vez, com a responsabilidade acrescida de acompanhar a Orquestra de Cordas com o seu violoncelo.

Se por um lado, Gonçalo realça o “prazer enorme de trabalhar com estes músicos”, por outro não esconde a “grande pressão” que é tocar concerto n.º2 de Haydn em ré maior. “É um concerto belíssimo, muito lírico, mas que ao mesmo tempo é extremamente desafiante para violoncelo em termos técnicos, sonoridade, encontrar um estilo adequado”, frisa.

Quando o questionamos sobre o seu instrumento de eleição, Gonçalo vai revelando várias paixões antigas. A primeira paixão (pela música) está no sangue. A mãe toca violino, o pai guitarra. Era quase inevitável escapar...

Quanto à escolha do violoncelo, Gonçalo recorda que “havia uma cassete VHS lá em casa com uma gravação d’A Truta’ de Schubert”. “Acho que foi um momento chave”, conta. “Era um quinteto – violino, viola, violoncelo, contrabaixo e piano – e a violoncelista era a Jacqueline du Pré”. Entre risos lá confessa que a paixoneta infantil pela Jacqueline Du Pré o influenciou. “E depois a minha mãe também tinha uma amiga violoncelista...”, acrescenta.

O que é certo é que as paixões foram-se sucedendo. Primeiro a Jacqueline du Pré, depois a amiga da mãe e, por fim, prevaleceu o violoncelo.

Em 2001, começou os estudos musicais no Conservatório de Música de Aveiro, com a professora Isabel Boiça. Nos últimos três anos de conservatório, dos 15 aos 18 anos, também trabalhou com Pavel Gomziakov, que foi quem o incentivou a ir estudar para Madrid, para a Escuela Superior de Musica Reina Sofia, onde ele próprio tinha estudado, com a professora Natalia Shakhovskaya.

“Foi uma oportunidade fantástica poder trabalhar com esta professora”, diz o músico, salientando que “esta escola em particular acaba por ser, mesmo dentro de Espanha, uma referência. É uma escola pequena com grandes nomes no corpo docente, o que obviamente acaba por atrair um vasto número de alunos de todas as partes do Mundo, desde Espanha ao Japão, passando pela Rússia”.

Frequentou masterclasses com músicos como Natalia Gutman, Heinrich Schiff, Truls Mork, Gary Hoffman, Lluis Claret, Maria de Macedo, Ralph Gothoni, Valentin Erben, Wolfgang Emanuel Schmidt, entre outros. Em orquestra tocou sob a batuta de maestros como Andras Schiff, Peter Eotvos, Stefan Lano, Jesus Lopez-Cobos ou Josep Pons.

No geral, classifica o seu percurso em Espanha como “uma experiência muito positiva”, sobretudo no campo da música de Câmara, onde começou um projecto pessoal “muito importante”, o ‘Trio Ramales’.

Apesar de já não estar a viver em Madrid há dois anos, Gonçalo Lélis – que em 2017 terminou a Licenciatura na Universidade do Minho – apresenta-se regularmente com o trio (composto por violoncelo, violino e piano) em concertos por toda a Espanha, participando em diversos festivais (‘Primer Auditorio’ do Auditório Nacional em Madrid, ‘Sierra Musical’, ‘Festival Internacional de Torroella de Montgrí’, entre outros). Para Julho estão previstos mais dois e, “mais para frente”, tem programada uma actuação em Barcelona.

Quanto a planos para regressar à Madeira, afirma sem sombra de dúvida que “nem que seja em férias!”

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