“O Monte não está amaldiçoado. Precisa é de intervenção”

Monte /
02 Nov 2017 / 02:00 H.

Durante o discurso da tomada de posse, na semana passada, Idalina Silva parecia estar a deixar um ultimato a Paulo Cafôfo: “Se não for feita uma intervenção a fundo, visível, nas árvores, nos arbustos, nos muros e nos muretos - não me peçam para identificar quais - e em toda a zona que vai desde o Largo da Fonte passando pelos trilhos, passeios, caminhos, não haverá arraial do Monte no próximo ano”, afirmou a presidente da Junta de Freguesia do Monte quando oficializou o segundo mandato naquele órgão autárquico.

A freguesia do Monte tem enfrentado duras dificuldades nos últimos anos. A última, a tragédia que se abateu momentos antes da procissão da Nossa Senhora do Monte, em Agosto, quando uma árvore tombou tirando a vida a dezenas de pessoas e deixando mais de 50 feridos, é uma memória muito presente na população. Não só nos familiares das vítimas, como nos visitantes e comerciantes de um dos arraiais mais dinamizadores da ilha. Muitos mudaram as rotinas, o percurso entre o Largo da Fonte e o das Babosas está praticamente ao abandono. Grades de ferro ainda estão encaixadas a rondar a zona onde o carvalho caiu. O receio tomou conta do locais.

São os olhos da equipa de reportagem do DIÁRIO que, de tempos a tempos passa pelo local, que o garantem, uma confirmação também sustentada pela presidente da Junta: “As pessoas têm medo. Mesmo quem viu pela televisão fica com receio, não se sente seguro aqui”. Tanto é, que para a cerimónia da tomada de posse, mesmo que a equipa social-democrata tenha escolhido o Colégio do Infante, mais abaixo, perto do Sanatório, muitos foram aqueles que não compareceram devido ao sentimento de insegurança: “Dissemos que não tinham de subir até ao Largo, mas mesmo assim muita gente não veio porque teve medo. Recuso o discurso do Monte estar amaldiçoado. A freguesia do Monte precisa é de intervenção”, defende Idalina Silva, desabafando que também foi obrigada a gerir as emoções: “Aprendi a lidar com o receio. Já vivi tanta coisa nesta freguesia que tenho de arrebitar logo. Vivo com o coração nas mãos desde o 20 de Fevereiro”.

Intempérie no 20 de Fevereiro de 2010. Incêndios de 2013. Incêndios de 2016. Assassinato do chefe dos carreiros do Monte, em Janeiro. Carvalho de grande porte que tombou sobre a multidão no dia da festa do Monte, em Agosto. Os desafios têm sido constantes e, desde que é presidente da Junta de Freguesia, pelas autárquicas de 2013, Idalina Silva assume que o cargo tem sido penoso: “Para quem exerce com o coração é muito difícil. Estou aqui de passagem [como presidente], mas sou natural desta freguesia e vou querer viver sempre aqui. Faço-o pelas pessoas de cá e por mim”.

E é por isso que para este mandato a equipa de Idalina tem o foco na segurança da freguesia: “Para o Verão e para o Inverno (incêndios e desabamentos). É o que as pessoas pedem. Eu peço à Câmara Municipal do Funchal (CMF), ao Governo Regional, a qualquer entidade, aquilo que as pessoas me pedem”. E foi por isso que no seu discurso de tomada de posse parecia estar a fazer um ultimato: “Foi um apelo. Não vai deixar de haver festa do Monte, mas antes havia filas de feirantes na CMF para pedir licenciamento e depois destas tragédias as pessoas estão receosas. Peço uma intervenção até Maio porque é a altura em que os comerciantes têm de fazer escolhas e decidir para que arraial vão. E o resto das pessoas precisa de segurança”.

No 15 de Agosto, a mesma equipa de reportagem do DIÁRIO estava a acompanhar a festa da Nossa Senhora do Monte quando o carvalho-alvarinho desabou sobre o Largo da Fonte. Nesse dia, quem falou com o DIÁRIO dizia que não iria voltar mais aquela festa - comerciantes, residentes da freguesia, visitantes de toda a ilha, turistas. Passados dois meses e meio, a insegurança permanece na maior parte das pessoas: “Esta é uma zona que vem do final do século XVIII, início de XIX. Já estamos no século XXI, é preciso cuidar”.

O inquérito do Ministério Público está aberto e ainda decorre a investigação. A CMF encaminhou peritos para o local para estudarem as árvores. Foi feita uma vistoria sobre o estado do local a pedido da autarquia (que a CMF não confirmou ao DIÁRIO): “A que conclusões chegaram? Que se apresente isso à população. O que vão fazer? Quero acreditar que não fizeram mais cortes porque se calhar não era época de corte, mas que digam. Sou filha de jardineiro com muito orgulho, há aqui árvores que precisam, claramente, de tratamento. E temos estes muros antigos, os trilhos que tanto encantam os turistas, não sei se isso também foi contemplado nesse estudo. Somos uma equipa de cinco pessoas eleitas para a Junta, não temos técnicos que percebam da área. É necessário fazer aqui outro tipo de intervenção. Se calhar até há algum projecto, mas eu não tenho conhecimento de nada”, reivindica Idalina Silva.

O DIÁRIO tentou falar com o gabinete da presidência da CMF desde a manhã de terça-feira para ouvir o contraditório sobre algumas destas questões, mas até ao fecho desta edição não recebeu qualquer resposta.

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