“O maior pecado dos tempos modernos é sermos indiferentes à dor dos outros”

O DIÁRIO esteve à conversa com o padre Tony Sousa, pároco da Igreja da Boa Nova, que gasta toda a sua energia a praticar e a dar aulas de ‘Body Combat’. O sacerdote debruçou o seu olhar sobre a religião na Madeira e defendeu o padre Giselo

25 Dez 2017 / 02:00 H.

Depois de uma conversa que se estendeu durante cerca de uma hora, percebemos o porquê de muitos classificarem o padre Tony Sousa como um homem que nasceu à frente do seu tempo.

Numa mensagem de esperança e alegria enviada a todos os fiéis para este Natal, o jovem padre destacou uma frase que tem repetido vezes sem conta e que exige alguma reflexão: “O maior pecado dos tempos modernos é sermos indiferentes à dor dos outros”.

Para entendermos como começou esta viagem e o consequente amor devoto a Deus, temos de fazer as malas e viajar até à África do Sul, país que viu nascer o pároco da Igreja da Boa Nova. Com raízes câmara-lobenses, pisou pela primeira vez a terra dos pais aos dois anos, e confessou que, durante a sua infância, e como todas as crianças, nem gostava de ir à missa, pese embora os seus progenitores serem católicos.

“Lembro-me de ser pequeno e ir à missa. Aquilo irritava-me, porque eu estava sempre cansado. Como era mais novo tornava-se sempre um problema para os meus pais, então na parte da homilia era o mais irritante, estava sempre desejoso de ir para a rua”, começou por dizer o padre, esclarecendo, contudo, que vivia numa família em que “todos os domingos era dia de missa”, porque “era fundamental para os pais nos transmitirem os valores cristãos, o respeito aos mais velhos e rezar”, esclarecendo depois que “foram poucas as vezes” que rezou o terço.

Contudo, nas idas à igreja, havia algo que encantava Tony Sousa: a figura do sacerdote. “Eu olhava para o padre e queria estar daquele lado. Achava giro o que ele fazia, mas longe de imaginar o que queria. Então, quando começaram a perguntar o que queria ser quando fosse ‘grande’, tinha eu os meus seis anos, como gostava muito de teatro ou cinema, sentia o desejo de ser padre”, afirmou Tony Sousa, o que na altura foi “um choque” e “uma dor de cabeça” para os seus pais, guardando então para si o tal desejo até aos 12 anos.

“Esta questão do padre estava sempre presente e nessa idade decidi confessar-me e disse a um padre o que queria ser. Combinamos e ele foi falar com os meus pais à minha casa, para os convencer a deixar-me ir para o seminário. E assim foi”, adiantou o sacerdote de 42 anos.

Depois de entrar no seminário, a sua mãe pensava que ia sair na primeira semana, mas saiu apenas aos 25 anos, e pela porta grande.

“Eu passei por aquilo que todos os jovens passam e tive de namorar às escondidas, porque fazia parte do crescimento. No meio do namoro eu achava que não era aquilo que eu queria e então apaixonei-me pela vida de padre e pela oração”, respondeu Tony Sousa, que contou um episódio curioso ocorrido um dia antes de ser ordenado: “O meu pai olhou para mim e disse: “Tony, se é para saíres depois sai agora que a vergonha é menor””, contou entre risos e adiantando que hoje em dia os seus pais “têm muito orgulho” em si.

Namorar, Paris e o regresso

“Nós somos homens como todos os outros”, observou Tony Sousa quando a pergunta se colocou em relação ao celibato. De acordo com o padre, “namorar faz parte da vida”, embora acredite que “não é preciso experimentar para saber se queremos ou não” seguir a carreira de sacerdote. “O que eu vi durante a minha vida ajudou-me a perceber o que eu queria, se era namorar e ter uma família, ou ser mesmo padre”, declarou, prosseguindo sobre o assunto dizendo que “se não fosse o que é hoje, não constituiria família”, porque gosta “de viver só”.

Depois de ser ordenado padre, o Bispo D. Teodoro enviou-lhe para Paris, para estudar durante três anos a Sagrada Escritura, quando “ainda era novinho e nem tinha barba”. Chegado a terras gaulesas, Tony Sousa falou sobre uma integração na comunidade portuguesa de São Francisco de Xavier que “não foi fácil”, tratando-se mesmo de “um dos momentos mais difíceis” da sua vida, altura em que confessou ter de se “desenrascar e chorar sozinho”.

Três anos depois voltou à Madeira e foi designado como pároco de São Gonçalo e “foi aí que as pessoas começaram a conhecer o padre Tony”, afirmou. “Eu queria estar ligado aos seminários, só que com a falta de padres era preciso eu ficar nas paróquias, coisa que eu não gostava muito, mas adaptei-me e agora amo esta vida”.

A Prisão e o ‘Body Combat’

Há 14 anos que Tony Sousa é capelão do Estabelecimento Prisional do Funchal (EPF), mas quando foi ordenado não via com bons olhos a nomeação, até porque “era muito novo para ir para a prisão”. Ainda assim, a idade foi um dos factores positivos que fizeram o actual director da cadeia regozijar-se com a escolha.

“O meu papel na prisão é escutar aquela malta e ajudá-los, seja com produtos de higiene, viagens, telefonemas ou um lugar para ficar depois de saírem. É uma experiência gratificante”, frisou o padre, alertando que caso saia do EPF o sistema e a religião mudam, depois de José Sócrates ter alterado a legislação, para além de que o tempo dispensado junto dos reclusos também diminuiria.

Com o excesso de trabalho surgiu uma época diferente na sua vida em que estava “a entrar num stress de muito trabalho” e antes de chegar à Boa Nova consultou um médico que lhe disse para frequentar um ginásio.

“Eu tinha pudor de ginásios. Para mim a imagem era terrível e eu achava aquilo ridículo. O médico quando me disse para ir para o ginásio eu pensava que aquilo era para arranjar homens e mulheres. Não me sentia à vontade”, disse Tony Sousa, que cedeu ao pedido, não esquecendo, contudo, o primeiro contacto.

“A primeira aula que fiz foi ‘Cycling’ e desmaiei logo. Sim, um padre desmaiou. Mas, depois, comecei a experimentar tudo e após as pessoas perceberem que havia um padre no ginásio vinham ter comigo a perguntar a hora das missas”, contou, sorridente, lamentando que muitos “não consideravam normal” a sua presença.

Depois de percorrer as várias valências de que um ginásio dispõe, por fim experimentou o ‘Body Combat’ e no dia que terminou a sua primeira aula chegou a casa, deitou-se, e na manhã seguinte sentiu que nunca dormiu tão bem.

Foi aí que a vida do padre se equilibrou e passado um ano decidiu tirar o curso de formador. “Há 9 anos que dou aulas de ‘Body Combat’ e ‘Body Pump’ e já cheguei a trabalhar em quatro ginásios ao mesmo tempo”, disse, observando de forma curiosa o facto das salas em que ministrava as suas sessões estarem “sempre cheias” e as pessoas “brigarem para entrar”.

Ainda assim, o padre diz que “nunca ia trocar a sua vida pelo ‘Body Combat’”, adiantando um facto curioso: “Há padres que não concordam e criticam, principalmente os novos, mas já consegui que alguns fossem ao ginásio pela sua saúde”.

A fé na Madeira

É nesta proximidade entre as pessoas e a igreja que passa o futuro da instituição. “Jesus aproximou-se das pessoas e nunca ficou à distância”, afirmou Tony Sousa sobre uma relação que é feita de altos e baixos.

“Isto são fases. Houve alturas em que os jovens se afastaram. Temos um problema aqui na Madeira que é a malta que vai para a universidade e quando lá chegam deixam de praticar e habituam-se a não ir à missa”, disse o padre, prosseguindo na sua visão sobre o paradigma actual da religião na Madeira, ao verificar que “os pais mais novos também não vão à missa”.

Tony Sousa avançou ainda que “a igreja tem de repensar a questão das paróquias, porque os padres são cada vez menos e não podemos ter tantas igrejas. Tem de haver uma ideia de centralizar as missas. O padre hoje em dia não pode andar a correr de um lado para o outro. As pessoas vão ter de começar a entender que algumas paróquias vão ter de fechar”, esclareceu.

Sobre a falta de interesse dos mais novos em escolher a vida que decidiu seguir nos dias que correm, o sacerdote verifica que “os pais não falam em ser padre hoje em dia”, mas, isso sim, “falam no Cristiano Ronaldo e pensam que todos vão ser como ele”. “Ninguém fala na vida religiosa e é como se ser padre fosse uma coisa que não pode ser ou vem do céu. Há muitas crianças que vêm à catequese, mas os pais tiram-nas logo depois da primeira comunhão”, criticou, acrescentando que “depois chegam aqui e querem ser padrinhos e não pode ser”.

Padre Giselo e ser Bispo

Olhando para o caso mediático do padre Giselo, o ‘camarada’ Tony Sousa refutou todo o aparato criado em torno do colega e começou por dizer que sobre a igreja “qualquer coisa é notícia”, custando-lhe que hoje em dia não nos preocupemos com a veracidade das notícias.

“É sair notícias sem saber e a destruir. Foi isso que aconteceu com o padre Giselo. Hoje as pessoas falam bem de mim, mas amanhã podem arranjar qualquer coisa que venha nos jornais e aí o padre Tony já não presta para nada”, opinou, sobre uma matéria que “toca a todos os padres”, olhando então o passado.

“Os outros padres que se assumiam como padrinhos assumiram a educação e a vida desses afilhados, simplesmente não disseram que eram o pai, porque nessa altura era mais complicado. Quem sou eu para julgar?”, questionou o padre, dizendo que quando foi ordenado “sabia perfeitamente” que não se podia casar e prometeu o celibato, “mas isto é como num casamento prometer a fidelidade”.

“O padre Giselo se antes era bom continua a ser a mesma pessoa e o mesmo padre, simplesmente aconteceu o que aconteceu. Não vale a pena cair em cima dele e da igreja”, esclareceu Tony Sousa, afirmando que no seu dia a dia evita ler comentários, pois se começar a se preocupar com o que escrevem não vive mais.

Classificando-se como “um bom padre”, Tony Sousa não se vê no papel de Bispo do Funchal porque a sua vida “daria uma reviravolta” e embora admire o cargo, considera ser difícil “mexer com padres nas paróquias” e estar “debaixo de tantas críticas”, embora não saiba o que fazer caso receba a dita carta. O futuro, esse, “a Deus pertence”.

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