O inferno

Fogo florestal em Pedrógão Grande matou pelo menos 61 pessoas.
É o incêndio mais trágico
das últimas décadas

19 Jun 2017 / 02:00 H.

O incêndio que deflagrou sábado em Pedrógão Grande, na região de Leiria, provocou pelo menos 61 mortos, 62 feridos (dois em estado grave) e dezenas de desalojados, destruindo um número ainda não determinado de casas e viaturas. Apesar do balanço de vítimas ser provisório, esta é já a maior tragédia provocada por incêndios nas últimas décadas em Portugal.

Todos os mortos são civis e a maioria foi encontrada dentro de 15 viaturas numa estrada nacional entre Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera ou nas imediações deste local. A vice-presidente da Câmara de Castanheira de Pera, Ana Paula Neves, revelou que parte dos mortos que estavam nos carros na estrada que liga a vila ao Itinerário Complementar 8 (IC8) eram turistas que tinham ido à praia fluvial das Rocas.

A dimensão humana da calamidade afectou os próprios governantes. “Infelizmente o número de mortos aumentou, o que mexe um pouco com todos nós”, afirmou o secretário de Estado da Administração Interna, quando fazia o primeiro balanço da manhã, junto ao posto de comando. Visivelmente emocionado, Jorge Gomes apontou os locais em que foram encontradas as vítimas mortais, na Estrada Nacional 236.1, que faz a ligação ao Itinerário Complementar (IC) 8: “Foram encontradas 30 pessoas em viaturas e 17 fora das viaturas ou nas margens da estrada e em ambiente rural foram encontradas 10 vítimas mortais”. Já à hora do almoço, o mesmo governante informou que duas das vítimas morreram na sequência de um acidente numa das vias mais afectadas pelo fogo.

Aviões espanhóis ajudam

Ao longo do dia de ontem, houve um reforço dos meios no combate às chamas nesta região da zona centro do país. A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) mantinha pelas 20h30 cerca de 900 operacionais a combater o incêndio que deflagrou em Pedrógão Grande. Segundo a página na Internet da ANPC, o fogo deflagrou em Escalos Fundeiros às 13h43 de sábado e, pelas 20h45 de ontem, estavam no local 884 operacionais, apoiados por 271 viaturas e seis meios aéreos.

Numa deslocação ao local ao início da tarde, o primeiro-ministro, António Costa, defendeu que a prioridade tem de ser o combate ao incêndio e a identificação das vítimas mortais, admitindo na ocasião que o número ainda pode subir. “Chegará o momento de apurar o que aconteceu”, afirmou António Costa, à entrada de uma reunião na Câmara Municipal de Pedrógão Grande. Para o primeiro-ministro, que depois se deslocou a outros concelhos afectados, a prioridade tem de ser dada ao combate aos incêndios que estão activos e à identificação das vítimas, “não só as encontradas, como as que porventura ainda iremos encontrar”.

Ao início da tarde chegou também uma ajuda dos céus, dois aviões ‘Canadair’ espanhóis, que foram empenhados no combate ao incêndio, e o anúncio da convocação, para terça-feira, pelo presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, de uma conferência de líderes extraordinária para reagendamento dos trabalhos do parlamento.

Entretanto, chefes de Estado e de Governo de vários países estrangeiros enviaram mensagens de solidariedade, enquanto outros anunciaram estar prontos para ajudar. Em Roma, o papa Francisco rezou pelos mortos e expressou a sua “proximidade ao querido povo português”. Já o presidente da Comissão Europeia manifestou o seu “profundo pesar” ao povo português e ao Presidente da República pela tragédia em Pedrógão Grande e outros concelhos vizinhos, numa carta a que a Lusa teve acesso.

Não há suspeitas de crime

A Polícia Judiciária anunciou, entretanto, que a identificação definitiva das vítimas mortais do incêndio de Pedrógão Grande só será possível posteriormente. Salientando que esta “é uma tarefa que está a ser realizada em condições extremamente difíceis”, o director nacional adjunto, Pedro do Carmo, declarou que, “não obstante o trabalho já desenvolvido, a identificação definitiva das vítimas mortais só será possível posteriormente”.

O próprio director nacional da Polícia Judiciária (PJ) afirmou à Lusa que o incêndio teve origem numa trovoada seca, afastando qualquer indício de origem criminosa. “A PJ, em perfeita articulação com a GNR, conseguiu determinar a origem do incêndio e tudo aponta muito claramente para que sejam causas naturais. Inclusivammente encontrámos a árvore que foi atingida por um raio”, disse Almeida Rodrigues. * COM AGÊNCIA LUSA

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