O humor nas coisas sérias

O Festival Literário da Madeira arrancou ontem com Ricardo Araújo Pereira, Mick Hume e João Paulo Sacadura

14 Mar 2018 / 02:00 H.

É dos eventos mais conceituados na Madeira e arrancou ontem no Teatro Municipal Baltazar Dias sob o tema: “Jornalismo e Literatura - A Palavra que Prende, A Palavra que Liberta”. Numa altura em que é cada vez mais urgente enraizar o direito à liberdade de expressão e que a Internet impõe que saibamos filtrar a informação autêntica da manipulada. Numa época em que, paralelamente, movimentos extremistas ressurgem pelo mundo fora, a 8.ª edição do Festival Literário da Madeira vem pôr uma lupa na força da palavra escrita - e no que ela tem de excelência e de perigo.

Até no humor. E é mesmo sobre ele que Ricardo Araújo Pereira começa por falar, para dizer que “no dia em que decidirmos votar que assuntos devemos cortar do humor, nada nos restará”. Porque todos os temas interessam sempre a alguém: “Muitas vezes o discurso humorístico extravasa os limites da liberdade de expressão”, admite o também argumentista, mas é imperativo que o humor não tenha barreiras. Porque, diz Ricardo Araújo Pereira enquanto arranca gargalhadas da plateia, “mesmo que faça um programa de humor sobre as ondas do mar, no dia seguinte recebo telefonemas de pescadores, biólogos marinhos...”

Ao seu lado, o jornalista inglês Mick Hume - tem feito um trabalho cirúrgico sobre a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, - pensa da mesma forma: “Não há direito para não ser ofendido. Podem dizer-me que o que estou a dizer é ofensivo, mas não me podem dizer que não o posso dizer”. Aliás, no último livro que lançou, “Direito a Ofender, a liberdade de expressão e o politicamente correcto” (Tinta da China, 2016), o autor escreve mesmo sobre estes princípios. Já na palestra do FLM, preferiu citar uma frase do “autor de grandes romances sobre totalitarismo”, George Orwell (à época retirada das primeiras páginas de “1984”, precisamente por ser considerada ofensiva): “Se a liberdade significa tudo, também significa o direito de dizer às pessoas aquilo que não querem ouvir”.

Sob o título “O que é a liberdade de expressão? Sem liberdade para ofender, cessa de existir” (Salman Rushdie), a primeira conversa da 8.ª edição do FLM continuou entre os dois escritores, moderada pelo jornalista João Paulo Sacadura.

Abertura

Antes, para abrir o FLM, outros subiram ao palco. Primeiro, naturalmente, o director-geral do FLM encarregado pelo prólogo. Lembrando Einstein, Francesco Valentini percorreu palavras escritas para deixar a questão: “Qual a verdade da palavra quando nos liberta e quando nos aprisiona?”. Para o também advogado a “literatura procura os factos como se estivesse à procura da realidade”, ao mesmo tempo que o jornalismo procura um certo romance.

A secretária regional do Turismo e Cultura também discursou no arranque do FLM. Paula Cabaço acredita que o festival “tem vindo a conquistar espaço, reinventando-se numa viagem que tem sido altamente reveladora do potencial cultural”. E como “hoje, a literatura é mais feliz nesta Região” Paula Cabaço aproveitou o evento literário para revelar alguns números: O Arquivo Regional e a Biblioteca Pública da Madeira (ABM) registou, em 2017, mais de 27.500 utilizadores nas salas de leitura. Ou seja, este ano “foram emitidos cerca de 1.500 novos cartões de leitor”; e o número de livros emprestados também cresceu 16%, ultrapassando os 20 mil títulos, “numa altura em que atingimos os 500 mil documentos (livros, revistas, CD, cartazes postais, DVD) no catálogo ‘on-line’”; e a oferta educativa do também aumentou no ABM em cerca de 10%, crescendo três vezes mais, em termos da procura”. Em jeito de conclusão, Cabaço espera que “esta 8.ª edição marque a diferença”.

Cafôfo também pisou o palco e começou por questionar: “Seria possível viver [hoje] sem o FLM?”. Para o presidente da Câmara do Funchal “mais do que livros, literatura, escritores, este festival tem causado impacto no sentido de transformar com ideias”. Cafôfo quis deixar claro que “nós carecemos de referências, de pessoas que nos inspirem e de eventos com novas ideias e desafios”. Porque os dias actuais exigem conteúdo: “Tudo nos chega rápido e tudo desaparece ainda mais rápido. Um mundo que compete tanto com os livros. É como se fossemos acumuladores compulsivos de lixo”. E para Cafôfo é essencial estarmos atentos: “Pensamos que a democracia e liberdade são eternas mas não são, são perecíveis (...) Para mim a cultura é fundamental por tudo isto. Investir na cultura, na FLM, é uma forma de lutar pelo conhecimento, pela dignidade e pela igualdade”.