O mundo numa pauta

Os resultados das provas não agradaram a todos. A Matemática trouxe desilusões e a História não garantiu a todos um final feliz

13 Jul 2018 / 02:00 H.

“A Inês teve onze!”. A frase acompanhada de surpresa foi proferida ontem por uma rapariga que integrava um grupo de alunos que saía do pátio da escola Secundária Jaime Moniz onde tinham estado a conferir as notas do exames nacionais do Ensino Secundário recém-afixadas. Onze é um resultado positivo em qualquer escala de 1 a 20, mas pode ganhar contornos de nota superior se estivermos particularmente a falar de Matemática A e dos resultados a nível geral, que mostraram que a média nacional perdeu um ponto percentual para 10,9 valores e subiram os ‘chumbos’. Nesta escola, novamente, a média manteve-se superior à média nacional, um caso de estudo, frisou o director, Jorge Moreira.

A Matemática A é o ‘calcanhar de Aquiles’ do país nas provas. Mas o Português também trocou as voltas a algumas contas e a História em muitos casos foi para esquecer.

De dedo a apontar, de telemóvel ao ouvido, alguns nas selfies, outros a fazer planos, muitos ainda a interiorizar valores e a fazer cálculos, cada um à sua maneira foi vivendo mais uma etapa do percurso académico num dia de conquistas e desilusões.

No corredor junto ao Átrio da Francisco Franco, já se traçavam rotas, mediam-se distâncias, ponderava-se se a viagem se deveria fazer de autocarro ou de comboio, pois o destino assim o exige. “No exame de Português tive pior nota do que eu estava à espera”, confessou Paulo Pozo, que teve 8 valores. A negativa não lhe baixa muito a média e por isso estava a fazer planos para o ensino superior, confortado pelos bons resultados em Desenho, um inesperado 16,1. “Estou feliz”, disse. Pozo vai concorrer a Design Gráfico nas Caldas da Rainha. A amiga que estava a seu lado quer rumar a Lisboa para um curso de Estudos Gerais. Ana Mota também foi surpreendia, pela positiva em Desenho, teve 18 e ainda pelo 16 em Português. O 11 em Português e o 14 em Desenho não souberam a vitória para Inês, mas também não lhe complicam a vida. Baixou nas duas sem com isso fechar a porta da universidade que quer, em Évora, onde talvez vá seguir História e Arqueologia. Esta aluna confessou a desilusão, sobretudo pelo desempenho em Desenho. “Eu pensei que ia ter 16, 15... Baixei um valor”.

Regina Sousa não precisava de grandes resultados, um 15 bastava-lhe para seguir para Inglaterra e já o tinha. Fez exames em Português e Desenho e teve 14 no primeiro e 20 no segundo. “Em Desenho as pessoas costumam ter boa nota”, disse, revelando que o segredo é praticar bastante e alguma sorte. Estes resultados permitem-lhe subir a média em Desenho para 19 e manter em Português. Vai para a De Montfort University, em Leicester. “Eu sempre quis ir para a Inglaterra estudar, porque eu tenho mais oportunidades lá, sendo de artes. Foi sempre um sonho”.

Nem todos têm o privilégio de não precisar de calculadora nesta fase. Em Português Carolina Franco teve 16, em Matemática ficou-se pelos 9, mas é a Matemática conjugada com a Economia que vai usar para aceder ao ensino superior. “Acho que foi muito diferente o exame de Matemática deste ano. Muito diferente dos anos passados, sendo que tinha outro tipo de programa, o que dificultou um bocado as coisas. Depois, o facto de terem mudado os critérios três dias depois também não ajudou”.

Alexandre Costa achou o exame de Matemática muito difícil. “Eu até fiz exames anteriores e não esperava tão difícil”. Contava com um 15 e teve um 12, o que lhe complica as contas. “Eu gostava de concorrer para a Aveiro, para Economia, mas a média torna-se muito alta. Eu espero que as médias baixem porque os exames não foram muito bons.

Em geral, na Escola Francisco Franco, houve melhorias em “quase todas as disciplinas”, revelou o director, com os piores resultados a serem registados em Literatura Portuguesa, com média de 8,4, e na Matemática A, com 9,6. Todas as restantes foram positivas, tendo a melhor média sido registada em Desenho, com 15,3. “Os resultados da escola são muito positivos, aliás não tenho memória de resultados tão bons”, reagiu António Pires à divulgação dos resultados.

Jorge Moreira, director da Escola Secundária Jaime Moniz, também estava feliz. “De uma maneira geral estamos satisfeitos, temos uma média de 11, de alunos internos. Estava convencido que se calhar baixava um pouco, os exames saíram fora do formato inicial, sem os alunos serem avisados, nomeadamente na questão das cotações, da estrutura”. A melhor média foi conseguida em Português, língua não materna, foram seis alunos e a média foi de 16,1, numa escala de 1 a 20 valores. 13,4 em Alemão ficou acima da média nacional, assim como o Francês. Mas é em Matemática A que o Liceu continua a ser “uma referência”, com 11,4, afirmou. “Nós nunca estivemos abaixo da média nacional” e este ano voltaram a conseguir o feito.

Nos piores resultados, estiveram os de História, normalmente tinham positiva e este ano a escola ficou com 9,2, e de Economia, com 8,2, foi a pior média.

Catarina Silva é aluna do Liceu e sentiu na pele. Teve 4 a História e 12 a Português. “Eu estava mais confiante para Português do que para História e realmente consegui uma melhor nota a Português, só que ainda assim acho que os exames foram um bocadinho mais difíceis do que nos anos anteriores, porque também mudaram a estrutura e acho que influenciou muito”, desabafou. “Não estava mesmo nada à espera desta nota”. Com a média agora mais baixa, pode mas prefere não concorrer sem antes realizar novo exame de História.

À segunda fase vai também Diogo Lopes, mas de Matemática. Teve 9,2 e precisava de 13. A Biologia conseguiu 19,1. “Achei bastante acessível este ano. É como dizem, tem a ver com o estudo”. Esteve a trabalhar na disciplina desde Fevereiro e as próximas semanas serão para a Matemática. “Não posso comemorar ainda”.

Mariana Alves não tem motivos para fazer festa. Fez exames em Português e História, olhou para as pautas e não gostou do que viu. Vai pedir recurso. “Eu preferia não dizer o resultado, estou à espera que aumente”.

Ambas as provas baixaram-lhe um valor na média. “Foi o factor concentração, e nervos. E chegar lá e ver a estrutura completamente diferente já afecta o sistema nervoso de qualquer pessoa e acho que isso afectou bastante os alunos em geral”. Realizar novamente os exames na segunda fase está fora de questão. “Eu sei que tive melhor nota”. “Segundo os critérios de correcção, dá-me nota mais alta, pelo menos em Português.”

“Eu não quero dizer”, pediu também Guilherme Monteiro, outros dos alunos do Liceu. Os resultados não foram bons e embora permitiram-lhe concluir o secundário, vai à segunda fase. “No fundo foi de mim, mas também achei o exame um pedacinho difícil, no geral”.

As férias de Verão para este e para outros alunos serão trocadas por mais umas semanas de estudo e ontem as filas eram grandes para as inscrições. No caso de Guilherme, vai voltar ao explicador. “Agora é dar tudo por tudo”, disse o jovem, que ainda não perdeu a esperança de mudar os números na sua pauta.