“O fado na Madeira é um filme de terror”

José Eduardo Figueira, presidente da Associação de Fado da Madeira

14 Jun 2018 / 14:13 H.

José Eduardo Figueira foi eleito presidente da direcção da nova Associação de Fado da Madeira. Entre os vários projectos pretende dar oportunidade a mais pessoas e contribuir para a aprendizagem da guitarra portuguesa. Lamenta que os fadistas não estejam unidos.

O que vos levou a criar a Associação de Fado da Madeira? Divulgar em primeiro lugar o fado. E depois também há muita falta de músicos, porque os músicos a nível de guitarra já partiram quase todos, há muita dificuldade em encontrar músicos. É uma tentativa de criar aulas de guitarra, de música, divulgar o fado, criar eventos e trabalhar pelas melhores vozes.

Que projectos é que têm definidos já? O primeiro passo é adquirir guitarras. Há muitas pessoas que querem aprender guitarra e não têm possibilidade, por isso a associação vai ter de as adquirir. E depois incentivá-los nas aulas.

Criar uma espécie de escola de fado? Sim.

Já sabem onde vai funcionar, já têm uma sede? Não. Estamos a começar do zero. Vamos contactar alguém que nos possa facilitar nesta primeira fase, um professor de qualidade. Cá na Região temos um bom professor, que é o Sr. Pedro Marques, se houver possibilidade de nos ajudar nesta fase, será óptimo. Vamos adquiri as guitarras para que eles possam praticar e ir às aulas a custo zero. Claro que no futuro terão de fazer algo em prol da Associação, porque isto é como uma moeda de troca: aprendem e depois quando estiverem aptos terão de tocar para a Associação nalgum evento que participemos.

Quantos associados é que têm? A tomada de posse foi ontem [24 de Maio], neste momento temos cerca de 40 a 50 associados.

Têm um número que gostariam de atingir? Quantos mais melhor, não há limite.

Há muitas vozes na Região boas. Vamos dar oportunidade a essas vozes e àquelas menos boas também vamos trabalhar para que as pessoas possam ir mais além.

Entre as pessoas que estão a apoiar esta Associação há profissionais ou são só amadores? Nós temos fadistas profissionais, por exemplo temos a Sofia Ferreira, temos a dona Alexandra de Sousa, que é do Sabor a Fado, que é uma grande fadista profissional, e também temos Ricardo Freitas, temos o Rui Fernandes... Temos muita gente profissional a nos apoiar.

E em termos de instituições? Neste momento não há nada concreto. Há compromissos, há diálogo. Vamos tentar contactar a Câmara Municipal do Funchal e as entidades competentes a ver se nos conseguem ajudar com alguma coisa. Sem essa ajuda também será impossível concretizar este projecto, que é um projecto que tem pernas para andar.

Onde irão buscar financiamento? Através de eventos que vamos fazendo. Nós já fizemos eventos. A associação tomou posse ontem [24 de Maio], mas há meses em que fazemos dez, 15, 16 eventos.

Onde é que se realizam esses eventos? Em vários pontos da cidade, São Vicente, Porto Moniz, Funchal todo, restaurantes...

Em espaços particulares? A maior parte é em restaurantes. Há alguns eventos através das juntas de freguesia. Fomos ao Porto Santo recentemente, também.

Como é que vê o fado na Madeira em termos de desenvolvimento e aceitação? O fado aqui na Madeira é dominado por três, quatro fadistas. Está um pouco amarrado. Agora há um trabalho muito duro para ser feito, mas eu acho que vale a pena apostar. Se não valesse a pena, não tínhamos esta maçada toda e este trabalho.

Quando é que pretendem começar o ensino de guitarra? A escola é um dos primeiros passos. O mais breve possível vamos começar a trabalhar nisso para avançar rápido.

O que é que foi mais difícil na concretização deste projecto? Para mim o mais difícil foi arranjar pessoas competentes, humildes e de confiança. Sem apoio dos colegas é complicado. Se não houver uma coerência entre colegas e as pessoas que estão dentro do fado e que nos ajudam e nos dão força, é muito complicado.

Eu acho que o objectivo principal está alcançado. Formámos um grupo, temos uma direcção, temos uma assembleia geral, temos o concelho fiscal coeso, pessoas humildes, estão dispostas a arregaçar as mangas e ir até às últimas, até onde der. Parar, não vamos parar. Vamos sempre para a frente.

Sente união entre os fadistas? Não. Infelizmente eu gostaria que fosse de outra maneira, mas não é.

Qual é o problema? Não sei. Há espaço para todos. Mas infelizmente... Eu até arriscava dizer que o fado na Madeira é um filme de terror. É verdade. O que é bom para si, para meia-dúzia não presta. E essa meia-dúzia tenta sempre abater a outra meia-dúzia. Para nós isso é indiferente. Vamos tentar fazer o nosso trabalho sempre com humildade e vamos até às últimas.

Como estão organizados? Têm de ser fadistas? Não. Vamos receber pessoas que só cantam um fadinho de vez em quando, mas que gostam, que têm uma boa voz. Se virmos que realmente há possibilidade, vamos apostar. Toda a gente é bem-vinda.

E o repertório, que tipo de fado é que interpretam? Apostamos mais no fado tradicional, fado fado.

Eu acho que estamos a fazer um projecto bom, vemos pelos eventos que temos feito. Já chegámos a ter 25 eventos num mês. Ainda há dois meses fizemos 28, foi o máximo que conseguimos.

Quando é que começaram a trabalhar? Começámos por juntar um grupinho de amigos e começámos a fazer fado há um ano e tal. Comecei numa brincadeira, depois fui vendo, fui gostando e mentalizei-me que tinha que abrir uma associação, que tinha que divulgar mais o fado, poderíamos fazer coisas melhores. E juntei-me com três ou quatro fadistas profissionais que me deram bastante força, estou-lhes muito grato. E cá estamos.

É fadista profissional? Eu não canto. Eu já tenho a parte da organização, o ir à procura dos eventos, fazer cartazes, divulgar junto das pessoas... Já tenho trabalho que dá e sobra. Mas gosto do fado, adoro. Se não gostasse, não estava a ter este trabalho.

Não canta porque não tem voz? Não canto porque não tenho voz, mas é bom fadista aquele que sabe cantar e aquele que sabe ouvir. É o meu caso.

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