“O desenvolvimento não chegou a todos”

Entrevista ao padre Agostinho Jardim Moreira, director da Rede Europeia Anti-Pobreza, que conseguiu ao fim de 27 anos trazer o conceito à Região

13 Jul 2018 / 02:00 H.

É padre há 52 anos, tem actualmente 76 anos, é natural de Penafiel, mas é em duas paróquias do Porto que dedica-se desde há décadas a cuidar dos pobres, nomeadamente da zona da Ribeira naquela cidade do Norte de Portugal. Agostinho Jardim Moreira é director da EAPN Portugal - Rede Europeia Anti-Pobreza desde a sua constituição em 1991, numa iniciativa do então presidente da Comissão Europeia Jacques Delors. Só agora, passados 27 anos conseguiu trazer o conceito para a Madeira.

Já visitou a Região muitas vezes e, seguramente, viu a evolução social desta sociedade. Como a analisa no contexto do combate à pobreza? A Madeira deu um salto substancial desde há 40 anos, quando cá vim pela primeira vez. Não havia túneis, andava-se por estradas complicadas, lembro-me de ver gente a viver numa condição de muita pobreza e limitada. Houve um grande desenvolvimento, mas penso que foi muito económico e não chegou a todos de forma equitativa e há gente que não acompanhou esta evolução. Muitos tiveram de emigrar e os que tiveram de ficar, nem todos atingiram o mínimo de dignidade humana capaz de dizer que é feliz, ainda que cada um tenha a felicidade à sua medida.

Esta questão é aceite, sobretudo pela consciência que agora têm que, ao fim de tantos anos, gastou-se tanto dinheiro e não conseguem tirar as pessoas da pobreza. Nós temos uma estratégia para tirar as pessoas da pobreza que tem vindo a ser desenvolvida há 27 anos e que para a aceitar é preciso ter uma visão do Homem na qual não há dois tipos de Humanidade, há só um, somos iguais em dignidade e todos têm direito a vivê-la e em liberdade. Que se faça justiça com dinheiro público que tem de chegar a todos, possibilitando-lhes o que é necessário para se realizarem. A assinatura do protocolo com a Câmara do Funchal (ver destaque) é o aceitar de uma viragem de página na resposta a dar às injustiças que o sistema muitas vezes cria e marginaliza, na qual é preciso aceitar e renovar a sua forma de estar diante das populações e, de certa forma, abrir a resposta a toda a sociedade. Ninguém é dispensado de ser responsável na construção de uma sociedade mais justa e cuidar do ser humano.

Ou seja, defende a ideia que é preciso dar a cana de pesca e ensinar a pescar em vez de dar o peixe... Exacto. É uma imagem feliz e não é exaustiva. Há circunstâncias em que é preciso dar a cana e o peixe, até que ele pegue só na cana. Mas é por aí, é criar autonomia, é despertar as pessoas para as virtualidades e capacidades que ela tem para poder realizar o seu sonho, o seu projecto individual e familiar a que tem direito e que a sociedade ás vezes não permite. É este reconhecimento de uma democracia, que considero mais amadurecida, que reconhece o direito a todos de participarem e a serem felizes na sua dimensão familiar e social.

É certo que quem nunca foi pobre, poderá não ter a noção, nem dá valor ao que tem, e do que é viver nessa condição. É preciso despertar a sociedade para dar esse contributo? É fundamental que toda a sociedade participe e, sobretudo, quem tem mais responsabilidades e mais capacidades. Ninguém está dispensado. Porque os bens que colhe, em termos éticos, não são exclusivos para si, são para todos e é preciso ter para a família, mas também que a reparta pelos outros. Aqueles que sempre viveram em berços de ouro, que nunca experimentaram e nem sabem o que é ser pobre, que pensam que é um sonho de fadas o desejo de realização dos outros, devem perceber que a felicidade não está em possuir, mas sim em saber dar, partilhar, ser fraterno. Alguns não sabem ser e muita gente tem muito, mas não é feliz.

Mas também passamos na rua e vemos pessoas que aparentam não querer sair dessa condição de mendigagem... A pobreza tem causas estruturais, a de todo um sistema político e económico. Às vezes dizemos de forma agressiva que a pobreza existe por decisão dos políticos. Se eles mudarem a política, certamente muita gente não cai na exclusão. Não só a sociedade que é toda responsável, mas é preciso dizê-lo que são os políticos e as suas políticas. As pessoas caem na marginalidade, muitas vezes por motivos familiares, tentam iludir os seus problemas com o álcool, drogas, sexo,... e quando pensam que conquistaram, estão no fundo do poço. E nessa altura, muitas vezes o ser humano abandona-o em vez de lhes dar a mão para os tirar de lá. O que mais falta faz a um ser humano nessa condição é sentir-se respeitado, que é igual, que é amado. Por isso, é preciso colocar as pessoas no centro da política, elas têm que ser o sujeito e o objectivo das políticas. Neste momento é o euro, o que é típico de uma sociedade materialista, capitalista, que valoriza o dinheiro e desvaloriza as pessoas.

Por fim, porquê 27 anos para chegar à Madeira? Como disse, vim cá muitas vezes. Simplesmente não havia abertura mental para um conceito diferente de justiça social. Foi preciso batalhar, insistir, bater à porta, até que chegou o momento que as coisas mudaram. Um dia disse num programa de televisão no Porto que havia pobres no Funchal. Não queira saber como foi a reacção cá contra mim. Foi um escândalo. Antes nem se admitia que fosse dito que havia pobres na Madeira, agora todos reconhecem o problema e queremos mudar isso.

..........................................

Protocolo com CMF abre portas a novo conceito de luta contra a pobreza

A Câmara Municipal do Funchal assinou um protocolo de cooperação com a EAPN Portugal, na qual contribuirá com 20 mil euros para que a experiência e a forma de actuação junto dos pobres seja ‘ensinada (em formação) aos técnicos que lidam com estes problemas. O protocolo foi assinado pelo presidente da CMF, Paulo Cafôfo, e pelo director da EAPN Portugal, que deixaram a garantia que esta fará num primeiro momento uma avaliação da situação local.

Jardim Moreira salientou que em breve será assinado um protocolo semelhante com a Câmara de Machico e, provavelmente em Setembro, um mais abrangente com o Governo Regional, tendo ontem sido recebido pelo líder do Executivo.

Paulo Cafôfo, ladeado pela vereadora pela área social, Madalena Nunes, salientou estar empenhada e quer dar o exemplo, por isso foi a primeira entidade pública a assinar um acordo com a EAPN, esperando que o Governo Regional siga o mesmo caminho, num desafio que considera de todos.