Novo disco e livro em 2018

Sérgio Godinho, músico

14 Ago 2017 / 02:00 H.

Dizem que é homem dos sete ofícios, pelo menos cantor, compositor, escritor, actor e realizador está comprovado. Sérgio Godinho estará quarta-feira ao vivo na Estalagem da Ponta do Sol nos Concertos L, junto com o pianista Filipe Raposo. O momento inimista, onde vai viajar por mais de 40 anos da carreira de músico, começa pelas 22 horas.

Porquê a aposta no dueto? É um formato que me dá grande gozo. As minhas canções acabam por ser muito plásticas e adaptam-se a várias leituras. Sinto-me à vontade. Quando os músicos são bons, como é o caso, (...) há uma adaptação quase instintiva.

Este formato de voz e piano eu nunca tinha feito. Isto começou um bocadinho por causa de um convite do São Luiz para um espectáculo, começou quase por acaso. Depois achamos que isto não podia ficar por aqui. E de facto temos feito bastantes [concertos] e em sítios diferentes. Estivemos em Macau. Eu fui lá por causa do festival literário, por causa do meu romance que saiu em Fevereiro, ‘Coração mais que perfeito’, e proporcionou-se um espectáculo lá. E também fizemos, não só cá, mas em outros sítios, na Noruega, na Suécia. É muito ágil este formato e também é muito portátil, diga-se de passagem.

Porque escolheu Filipe Raposo, um pianista de uma outra geração? Eu não meço as coisas assim. O Filipe já anda aí há muito tempo, aliás tocou também comigo nos ‘Três Cantos’, comigo e com o Zé Mário Branco e o Fausto. Até já nos tínhamos cruzado, mas como é evidente, numa banda alargada. Já o tinha ouvido tocar noutras situações, acho realmente um pianista talentosíssimo, ele conseguiu apanhar o ‘feeling’ das canções. As minhas canções são de várias paletas, não são todas do mesmo género. E o Filipe conseguiu apanhar esses cambiantes de uma maneira brutal, realmente.

Ao ouvir este concerto ficamos com uma visão global de quem é o Sérgio Godinho na música? Sim, sem dúvida. Os repertórios são sempre diferentes, mas há muitas canções, algumas mais conhecidas, que eu canto nos vários formatos. Pode haver algumas, três ou quatro, que são diferentes. É bom variar o repertório, até para mim é bom, no sentido de, tenho tantas canções escritas que gosto de desempoeirar algumas que às vezes estão na estante há muito tempo, ou na gaveta. É muito estimulante, este espectáculo é incrível porque ele às vezes parece uma banda inteira.

Na escolha das canções, suponho que haja umas que lhe são mais queridas... Não posso dizer que nunca prescindi de algumas, mas posso dizer que são mais frequentes algumas delas. Não interessa estar a nomear, é evidente que há tantas, como ‘O Primeiro Dia’, ‘Com um Brilhozinho Nos Olhos’ que são mais populares e deram certo desde o primeiro minuto, mas também há muitas outras coisas, e eu muitas vezes gosto de mostrar aquelas que não são obviamente as que as pessoas conhecem melhor, mas que para mim são tão boas como as outras.

Os seus romances também começam em canções, ou é o contrário? Não tem nada a ver. Nem uma coisa nem outra.

Consegue separar os mundos? Ah sim, completamente. São escritas de um foro diferente. A canção é uma escrita específica, há uma música que tem códigos, tem estribilhos, tem harmonias, tem posições harmónicas. E é uma letra que tem rimas, tem métricas muito cerradas. Na escrita da prosa também há uma música subjacente, mas é muito mais invisível. São escritas de foro diferente, mas deu-me muito gozo. Estou agora a rever extensamente o meu segundo romance.

Será para quando? Sairá para o ano, antes disso ainda sairá o meu próximo disco. Estou a acabar de o compor e já começámos a gravar. Provavelmente só sairá para o fim de Janeiro. Está para sair este ano mas as coisas estão um pouco atrasadas.

O novo disco, de que fala? São onze canções, fala de muita coisa. Tem algumas canções que eu fiz em parceria. Todas têm letra minha, algumas músicas, uma é do Hélder Gonçalves, outra do próprio Filipe Raposo, uma do José Mário Branco. Tem várias parcerias, o que me estimula a imaginar outras maneiras, nascem outras canções.

E o romance, de que é que trata? Não posso dizer de maneira nenhuma. Está em desenvolvimento, não é revelável. Quanto ao primeiro, tem tanta coisa, tanta história, que é lê-lo. É um exercício muito rigoroso e que me deu grande gozo.

Como são os seus dias, muito estruturados? Não, são muito irregulares. Os meus métodos de trabalho são pouco ordenados. Há muito tempo que eu passo sem sequer pensar na música ou compor no sentido activo. Tinha parado a revisão desse segundo romance porque queria acabar de compor. Agora que está feito - vamos gravando pouco a pouco -, atirei-me outra vez ao romance.

Além de músico e escritor, esteve também ligado ao cinema. Essa parte já não lhe interessa? Nada está arrumado. Ainda há pouco tempo fiz um trabalho de actor num filme português, no ‘Refrigerantes e Canções de Amor’, que aliás também fiz com o Filipe Raposo uma canção/tema. Tudo isso é compatível.

Como é que se consegue dividir em tantas coisas e ser bom em todas elas? Eu não sei se sou bom em todas elas, mas procuro ser exigente comigo mesmo. Eu acho que é esse grau de exigência, não facilitar, não achar que está tudo feito e está tudo bem e as pessoas vão adorar. É uma armadilha muito perigosa.

E que outros projectos tem em mãos para além do livro e do disco? Neste momento já me chega. Depois também tenho concertos ao vivo, que consomem, no bom sentido, o tempo.

Continua a gostar destes encontros com o público? Continuo sempre, eu acho que é essencial, para mim é do que eu gosto mais, mesmo. Quando uma canção é confrontada com os outros, com as pessoas, é quando ela está realmente a pulsar e a viver.

Prefere este modelo mais reduzido como traz à Ponta do Sol, mais intimista, ou as grandes plateias? Gosto das duas coisas igualmente. Parece paradoxal mas não é. Eu danço um bocado conforme a música. E tanto me sinto bem neste formato próximo, como também se encontra proximidade num grande espaço quando a canção diz isso. E cria-se uma atenção e uma vibração do público que é semelhante.

Tem boas recordações da Madeira? Sempre. Tenho sempre vontade de voltar. Estive aí quando foi o Festival Literário no [Teatro] Baltazar Dias, com dois dos meus músicos. Está a ver, isto vai mudando conforme as situações, as formações. Mas tenho sempre boas recordações e estou com vontade de voltar.

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