Nova alma do bordado em mãos americanas

Colecção que usa bordado Madeira será apresentada em Lisboa no mês de Setembro

16 Jul 2017 / 02:00 H.

Já trabalhou com artistas como Miley Cirus, Cameron Diaz, Taylor Swift e Kings of Leon. Prepara-se agora para lançar um colecção inspirada no Bordado Madeira, na senda daquele que é o seu trabalho na moda “amiga do ambiente”. Jeff Garner esteve a fotografar em Câmara de Lobos e o DIÁRIO acompanhou a sessão.

Quando começou a dedicar-se à moda e a criar as suas próprias colecções? Comecei quando era pequeno. A minha avó é que me incentivou pois pegava nas minhas roupas e recriava-as, o que eu achava muito engraçado. Cresci no Tennessee e o artesanato faz parte da nossa cultura e foi onde comecei. No entanto comecei a minha colecção há cerca de 14 anos. Os primeiros trabalhos foram para bandas que estavam a começar a aparece no Tennessee. Foi aí que comecei e desde aí já desfilei em Londres, Paris,...

Considera ser crucial ter formação numa Escola de Moda ou de Design? Essa é uma pergunta política... (risos). Costumo fazer palestras em diversas universidades e recomendo esse tipo de formação para muitos estudantes. Para outros, digo para começarem logo e iniciarem o seu estágio. Depende se têm ou não o dom para a moda, digamos assim.

Se tiverem um dom mais relacionado com o lado criativo da moda, aconselho a terem um mentor que os guie, que faça algo que respeitem. Digo para lá chegarem e dizerem: Estou aqui e trabalho de graça e sou completamente apaixonado por este mundo. Aí devem atirar-se de cabeça e começar a trabalhar. Porque a moda, tal como outros negócios, é muito difícil, especialmente como artistas criativos. Há muita coisa que está contra vocês e que é preciso derrubar.

Mas acho que as escolas são importantes para ter “bagagem”, ter algo de fundo, estrutural. Talvez algo relacionado com gestão, negócios ou produção, que possa ajudar a criar a sua marca ou o seu projecto.

Porque escolheu o nome ‘Prophetik’ (Profético) para a sua marca? Agora essa é uma pergunta matreira... A moda pode ser encarada como algo mais teatral e queria que o nome representa-se algo mais profundo, uma experiência com alma. O que tento trazer a esta indústria é uma mudança de ideias. Temos elementos tóxicos nas nossas roupas do dia-a-dia e é algo sobre o qual devemos pensar e reflectir, reconsiderando se não devemos voltar a utilizar fibras naturais, tais como aquelas que os nossos antepassados utilizavam. Menos é mais, porque hoje estamos como que em transe.

E desta feita recorre ao Bordado Madeira... É verdade. Sendo algo tão ligado à cultura madeirense fazia sentido que utilizasse Bordado Madeira, pelo seu passado e presente. Algumas das ‘fábricas’ de Bordado Madeira estão a tentar perceber o que fazer para encarar a sociedade mais moderna. Os meus avós tinham toalhas de Bordado Madeira para adornar as suas mesas, mas os meus pais não, o que significa que está a saltar uma geração. É óbvio que estes bordados são utilizados para outros fins, mas é preciso trazer uma nova abordagem e mostrar como pode ser utilizado na moda mais actual, para que possam ter uma nova experiência e continuar a crescer.

A ilha da Madeira também serviu de inspiração para a colecção? Sim, claro que sim. As tonalidades das cores dos vestidos são representantes disso. A cor azul que eu tingi recorrendo a índigo japonês, uma planta natural. As pessoas, a energia, as tonalidades fizeram o seu papel.

Tornou-se então obrigatório fotografar na Madeira... Absolutamente, pois não fazia qualquer sentido tentar recriar esta atmosfera num outro sítio qualquer. Recorremos a uma modelo madeirense, bem como um fotógrafo madeirense... gosto de ser genuíno em relação a isso.

A colecção será apresentada em Lisboa, no mês de Setembro. Quem assistir ao desfile o que poderá ver? Vão ver 30 vestidos, provavelmente... ainda não os terminei. Mas irá variar entre vestidos de cocktail, vestidos formais e talvez vestidos de noiva.

IVBAM apoia iniciativa

A colecção de Jeff Garner conta com o apoio do Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira. Paula Jardim, presidente do IVBAM, referiu ao DIÁRIO, à margem da sessão fotográfica que decorreu em Câmara de Lobos, que este projecto iniciou-se em Maio, quando o estilista veio à Madeira conhecer o Bordado Madeira, mediante proposta do próprio IVBAM. “Dada a importância deste designer a nível da Europa e dos Estados Unidos, uma vez que o Bordado Madeira está dinamizado pelo mundo fora e é conhecido, queremos que cada vez mais seja conhecido como produto genuíno, único e ainda mais conhecido”, salientou.

No fundo, o objectivo é recriar e dar outra utilidade às peças de Bordado Madeira. “Adaptar a peças de vestuário. É claro que já existem peças de vestuário, mas há uma necessidade de fazer novas, de fazer único e diferente daquilo que já fazemos”, salientou a presidente do IVBAM. Além disso, ressalvou ser crucial cativar novos públicos, mais jovens, que vejam e reconheçam uma abordagem diferente.

“Esta será uma mais-valia em termos de internacionalização do Bordado Madeira”, afirmou. Lisboa será a primeira ‘paragem’ desta colecção, que depois tem apresentações marcadas em Paris Londres, Copenhaga, entre outros destinos.

O mercado norte-americano representa 11% das exportações de Bordado Madeira, algo que deverá ser potenciado.