“Não veriam com bons olhos regresso dos casados”

No País, haverá, pelo menos 18 padres com filhos, que continuam a exercer funções

08 Nov 2017 / 02:00 H.

“Há colegas, no exercício, que não veriam com bons olhos o regresso dos casados.” A frase é de Alberto Osório, do Movimento Fraternitas, que reúne padres, que casaram, mas não só. O ideal seria que outros, que estando plenamente integrados, mas têm um pensamento divergente do oficial, também integrassem a instituição, como refere o presidente da Direcção, Luís Carlos Salgueiro.

A conversa com os membros da Fraternitas surgiu a propósito do caso do padre Giselo Andrade, da paróquia do Monte, que assumiu a paternidade de uma menina, nascida em Agosto último, e agora tem de se decidir entre a vocação sacerdotal e a de ‘constituição de família’.

Sobre a resistência dos padres em exercício a que os colegas regressem ‘ao activo’, Alberto Osório diz que o argumento de muitos deles é que, os que saíram para casar e agora gostariam de regressar “querem o melhor de dois mundos”. Aquele dirigente da Fraternitas garante que esse é um argumento utilizado por muitos dos seus colegas, que é como se refere aos padres em exercício.

Questionado sobre se quem se socorre desse tipo de argumentos revela frustração relativamente à situação em que vive, aquele clérigo dispensado de funções não hesita em dar resposta positiva.

Celibato obrigatório prejudica comunidades cristãs

A Fraternitas não aborda o celibato numa perspectiva de violação do voto ou não. A perspectiva que pretende ver reflectida é se deve ser obrigatório para os padres ou não. E, no caso da Fraternitas, o entendimento é claramente de que não.

No entanto, apesar dos sinais que a actual hierarquia da Igreja católica tem dado, Alberto Osório pensa que a mudança de posicionamento, que é de disciplina e não de fé, não vai acontecer durante o seu tempo de vida: “Infelizmente, eu acho de não”.

Algo que, lamenta, acontece em prejuízo das comunidades cristãs e não dos padres que optaram por constituir família. São as comunidades cristãs que ficam sem pastor, nomeadamente, mas não exclusivamente, para a celebração sacramental.

Alberto Osório manifesta-se convicto de que, mesmo que, em breve, houvesse abertura da Igreja para adoptar a não obrigatoriedade do celibato, não passaria a haver mais gente a entrar para o ministério. “Está em causa uma visão de Igreja (...). O que está errado, é a maneira como a Igreja está a organizar-se.” Uma instituição que insiste na manutenção do ‘status quo’.

18 padres com filhos no activo

Igualmente na sequência do caso Padre Giselo, o Correio da Manhã noticiou, ontem, existirem em Portugal 18 padres com filhos assumidos, que continuam investidos de funções sacerdotais. Um número que disse ter sido conseguido com a ajuda da Fraternitas. Mas, quando o DIÁRIO pediu mais elementos sobre os números, os responsáveis da instituição disseram desconhecê-los.

Sobre a Fraternitas, neste momento não existe qualquer membro da instituição na Madeira, nem mesmo madeirenses a viver em território continental. A Fraternitas conta com 80 membros em todo o País, por razões históricas, grande parte já com uma idade avançada.

No mundo, numa estimativa conservadora, existe, pelo menos, cerca de quatro mil filhos e filhas de padres. O cálculo é do irlandês Vincent Doyle e foi revelado ao Jornal Público, numa entrevista de Agosto deste ano. Doyle, aos 28 anos, ficou a saber que “o homem a quem se habituara a chamar padrinho, o padre de uma diocese rural com quem costumava passar largas temporadas entretanto falecido, era, afinal, o seu pai biológico”.

Decisão do padre Giselo

Neste momento, a decisão quanto ao futuro do padre Giselo está nas mãos do próprio sacerdote, como a Diocese já afirmou. “Caberá ao próprio sacerdote discernir, em diálogo com o bispo, se pretende ou não continuar a exercer o ministério sacerdotal (...).”

Na prática, o Padre Giselo fica com as seguintes opções: decide deixar o exercício do sacerdócio e dedicar-se à paternidade da menina, independentemente de se juntar à mãe; opta por continuar no exercício do sacerdócio, assumindo a paternidade como fruto de algo que não volta a acontecer e de que está arrependido. Neste caso, a Diocese pode decidir mantê-lo ou não na paróquia em que está ou mudá-lo de funções; antes de tomar uma decisão, pode solicitar um tempo alargado para reflexão, uma espécie de licença sabática. Circula em alguns meios próximos da Igreja a informação de que essa poderá ser a opção (informação que não conseguimos confirmar); pode também, ainda que não desejável, manter uma vida dupla. Nesse caso, depois das afirmações de D. António Carrilho, o mais provável era ser-lhe aberto um processo, tendo em vista a aplicação da pena de demissão do estado clerical.

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