“Não há meios que combatam a desorganização na floresta”

O presidente da Federação de Bombeiros e ex-director regional é muito crítico quando lhe questionamos sobre o actual estado da floresta.

20 Jun 2017 / 02:00 H.

“Não há meios que combatam a desorganização na floresta. Não se trata de uma questão de meios, porque quando se deixa áreas imensas ao abandono, é obvio que ninguém pode esperar que haja meios para, em dois ou três dias, poderem resolver questões que levam décadas a resolver”. É desta forma curta e seca que Rocha da Silva, que até esteve três décadas à frente da direcção regional das Florestas, aceita reagir aos fogos que dizimaram Pedrógão Grande, na zona de Leiria - causando a morte de 63 habitantes e de ter originado 163 feridos e entristecendo o coração de muitos portugueses - mas que diz a realidade florestal de lá é semelhante com a de cá.

“Hoje em dias temos áreas urbanas em espaços naturalizados, porque simplesmente deixou-se a natureza avançar. Temos áreas urbanas completamente sitiadas por mato, infestantes e de uma outra serie de coisas”, observa o ex-governante. E acrescenta: “Ninguém pode ter a veleidade e a arrogância de dizer que pode estar tudo descansado, porque, qualquer momento, as coisas acontecem”.

Rocha da Silva recorda que no ano passado foi promovida uma “conferencia de imprensa” pela Secretária Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais para salientar que “agora está tudo vigiado”. “Anunciou-se uma série de coisas, mas quando as coisas [fogos] aconteceram no Funchal, disseram que era fenómeno que só daqui a 400 anos que voltaria acontecer”. Ora este tipo de comportamento, vinca, “nunca irá permitir que se faça um planeamento sustentado não só da floresta como do quotidiano no meio rural”.

Arrogância rima com ignorância

De acordo com o presidente da Federação de Bombeiros “há um misto de arrogância de tudo saber, mas com uma confrangedora ignorância dos processos” como por exemplo o conhecimento do modo vida das populações. E vai daí questiona: “Acha que alguém está preocupado como é que as pessoas vivem no sítio do Pinheiro, na Maloeira ou no sítio das Fontes, em Campanário? Tenho anos de experiência para poder afirmar que não estão”.

Prosseguindo: “As grandes medidas preconizadas são sempre para sector macroeconomia ou financeiro. Veja o exemplo da banca, em que tivemos contribuir mas para a salvar”. Ao contrário, “salvar as populações para que fiquem no seu meio, não se faz”.

Lembra quando estava no activo chegaram a dizer-lhe que floresta era coisa do passado, num “estigma” que sublinha vir do antigo regime salazarista porque dava valor ao meio rural. “O que se pretendia valorizar era a conservação da natureza”, traz à memória. “Também já me disseram: limpa-se agora e daqui a seis meses está tudo na mesma, como quem diz que não vale a pena limpar”, escusando-se a mencionar quem lhe dissera tamanha afirmação.

“Pensos rápidos”

Corrosivo nas declarações e no modo como se olha e actua na floresta, Rocha da Silva volta a tecer mais considerandos sobre a governação: “Hoje só se pensa em aplicar pensos rápidos porque os executivos importam-se em governar a quatro anos e não pensam num plano a longo prazo”, recordando o que está feito.

“A Região tem uma série de planos, um deles importantíssimo e que ninguém se lembra ou fala dele, que é o Plano de Desenvolvimento Económico e Social. Foi um plano feito por governos anteriores, que levam 20 anos em aplica-lo, mas as pessoas estão num mandando de quatro anos e preferem apresentar resultados no imediato. Este é que é o drama. Andamos sempre a aplicar pensos rápidos”.

Limpezas?

Fosse qual fosse o número que fosse anunciado de limpezas nas florestas, de acordo com o presidente da Federação é preciso perceber qual foi a estratégia que foi seguida: “Havia um plano de criar perímetros de segurança à volta das populações? Foi uma estratégia para permitir melhores acessos de combate a incêndios? Qual foi o envolvimento das Câmaras no processo? Tudo isto não foi explicado. Mas para ser coerente, antes [nos anteriores governos de Alberto João Jardim] também não foi”.

Um discurso que não surpreende quem está próximo do antigo tutelar da pasta das florestas justamente por verificar que entende não se valoriza nem cuida da floresta com acontecia.

Lógica da proibição

Recorda que “proibir” ou taxar que se aproveite o usofruto da natureza como já aconteceu, na sua opinião “está errado”. “Não podemos ir por essa lógica. Não podemos ir. Leva a um divórcio entre a população e o meio ambiente. Tem de ser justamente ao contrário. Temos de incentivar as actividades humanas como forma de salvaguardar aquilo que temos de proteger”, justifica a sua tese com uma directiva da ONU em que dizia que não se pode falar em conservação sem falar de desenvolvimento. “Insistir nisso é insistir num erro que há muito foi detectado”, atesta.

Motivar o bombeiro

Defendendo a sua ‘dama’, considera que, mais do que colocar mais efectivos nas corporações - existem cerca de 600 bombeiros na Região - “deve-se motivar o bombeiro e não foi isso que foi feito nos últimos anos” recordando o congelamento da progressão das carreiras. Ainda assim, reconhece que foram feitos esforços em equipar os quartéis: “É obvio que isso foi feito, a chegada de mais ambulâncias é um exemplo desse trabalho, mas não chega”.

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