“Não há ‘feeling’ diferente de ser campeão à 4.ª feira”

Filipe Pires, campeão
do Grupo RC2N

22 Out 2017 / 02:00 H.

Filipe Pires sagrou-se, a meio desta semana, tri-campeão regional de ralis no grupo RC2N (ex-Produção) de 2017, na época em que completa 25 anos ininterruptos da prática de desportos motorizados. Desde 1993, ano em que se iniciou no karting, até hoje tem marcado presença nas pistas e nas estradas da Madeira, conquistando diversos títulos e sendo, igualmente, vice-campeão regional absoluto de ralis em 2015 e 2016. Curiosamente, o título deste ano aconteceu numa altura em que se encontra suspenso preventivamente da competição pela Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK).

Tendo em conta os recentes acontecimentos, qual o estado de espírito que sente ao conquistar este título? Este é o terceiro campeonato seguido a vencer o Grupo N e o objectivo para este ano era basicamente esse. Estou, naturalmente, satisfeito. Tínhamos a plena noção que lutar à geral, tal como nos anos anteriores, iria ser muito difícil, porque tínhamos carros muito bons à nossa frente. Mas tentámos sempre que possível andar o mais depressa que pudemos e fazer pressão nesses pilotos, para também conseguirmos alguns bons resultados à geral, como são exemplo o 4.º e o 5.º lugar no Vinho Madeira à geral e a vitória em troços. Por isso, foi muito bom.

Este é um título com um sabor diferente, visto ter sido celebrado numa altura em que se encontra suspenso da competição e acontecer na sequência do cancelamento do Rali do Porto Santo? Não tem um sabor diferentes dos outros, um título é um título e eu quase que já sou coleccionador de títulos. Mas é um tri e tem a sua importância porque é para isto que entramos todos os anos. Eu estou nos ralis para lutar pela vitória, não é obrigatoriamente para ganhar, sei ganhar e perder, já ganhei e perdi na minha vida bastantes vezes. De resto, estava preparadíssimo para fazer o Rali do Porto Santo, o carro está pronto e nada me impedia de fazer esse último rali. Até ver estava só na expectativa. Quando foi anunciado o cancelamento tinha mais 37 pontos do que os meus adversários directos, são pontos que conquistei ao longo do ano. Não vejo nenhum ‘feeling’ diferente por ter sido campeão a uma quarta-feira. É igual.

Acha que estas sanções de que foi alvo, bem como a suspensão preventiva, marcam negativamente a conquista? Somos campeões porque ganhámos muitas provas este ano. Os tais 37 pontos de vantagem é muito ponto. Em relação ao Vinho Madeira, o parafuso em questão não tinha qualquer influência na potência, o mesmo sucedendo no último rali. Para esclarecer de uma vez por todas, estamos a falar do comprimento da peça em questão e não do restritor, o que não alterava nada na performance. O que me parece que estava mal, mas isso ainda tem que ser provado, é o comprimento da peça. Mas não posso adiantar mais pormenores, porque o processo está a decorrer e isso são coisas para resolver noutros sítios, para então poder explicar cá fora.

Esta suspensão preventiva acabou por lhe retirar a hipótese de discutir o título de karting... É uma realidade, não me foi permitido fazer a última prova, mas isso são assuntos para abordar noutra entrevista que não nesta.

Anteriormente já tinha tido algum problema disciplinar ou técnico na sua carreira? Não, nunca. Nem a nível disciplinar, nem a nível técnico. Nada de nada.

Do ponto de vista pessoal, também por isso, esta situação mexe consigo? Eu vou ser sincero: tudo isto acontece porque há pessoas más que querem ganhar na secretaria. E quando tens pessoas medíocres, o melhor a fazer é ignorá-las. Sou superior a estas coisas.

Vencer este título ao fim de 25 anos de desporto motorizado é quase um prémio de carreira... É sempre importante, porque assinala os tais 25 anos de ligação ao desporto motorizado, competindo de forma ininterrupta. Este é o 27.º título da minha carreira e acho que a Pires Competições, a equipa toda, está de parabéns.

Este carro, quando foi adquirido por si, era vistos nos meios automobilísticos como pouco competitivo. Houve necessidade de investir muito nele? A parte importante do carro é a mesma, mas foi necessário investir nos pormenores. O carro era e é muito bom, veio de um piloto muito bom, agora faltava-lhe os tais pormenores. A prova de que temos um bom carro são os resultados, embora, naturalmente, seja limitado em termos de potência de travagem. Além disso, tem uma caixa em ‘h’ e eu adoro caixas sequenciais. Mas é um carro que depois de aprendermos a guiar, é fantástico. Mas é preciso aprender a guiá-lo e não sei se toda a gente sabe fazê-lo.

E em termos de fiabilidade, está satisfeito? A fiabilidade somos nós que fazemos no dia-a-dia, na preparação para o rali, na revisão das peças, nas cargas. Se virarmos as costas ao carro de um rali para o outro, pode naturalmente avariar alguma coisa no rali seguinte. Este carro nunca bateu, nem comigo nem anteriormente, e as desistências aconteceram devido a questões que não há como evitar, como por exemplo avarias nos diferenciais.

Este carro é para manter para a próxima época? É o meu carro, não sei se alguém me vai querer dar outro carro (risos). Com a conjuntura económica que temos pela frente, vendo pessoas com muito mais poder económico do que eu a parar, penso que também não vou trocar de carro. Quanto muito paro também. Se gostava de correr com um carro para ganhar ralis è geral? Gostava, mas é preciso ter em conta que são carros caros.

Sente alguma desmotivação para continuar devido aos últimos acontecimentos? A minha motivação é ir para a estrada e lutar pelas vitórias. Isso sou eu. Se vou correr ou não, isso é um conjunto de situações que não dependem só de mim. Depende de patrocinadores, depende da equipa, depende da parte pessoal e profissional, porque há coisas que não se podem conciliar com o ‘hobby’ ralis. Mas não é, com certeza, a questão motivacional que é determinante para continuar ou não. Se calhar um pouco pela minha família, porque já levámos muita pancada nesta ilha, habituei-me a ser forte. Isto que está a acontecer agora é triste, porque é maldade, mas não é por aí que me influencia em termos de carreira.

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