Mutrama une Maria João, Sobral e Ricardo Ribeiro

A partir da música tradicional vai nascer um disco com convidados, ainda este ano

13 Ago 2017 / 02:00 H.

Salvador Sobral, Maria João e Ricardo Ribeiro são três dos músicos que disseram sim ao projecto Mutrama - Música Tradicional Madeirense Revisitada, uma iniciativa coordenada pela Associação Musical e Cultural Xarabanda a partir de recolhas realizadas pela mesma nas décadas de 80 e 90. A direcção artística é de André Santos, a produção da Associação Wamãe. O objectivo é o lançamento de um disco a partir do reportório tradicional nas vozes de músicos de referência. Mas Mutrama vai para além disso.

Da Eurovisão para a ilha

Salvador Sobral venceu o Festival Eurovisão da Canção este ano, já antes era conhecido pelo seu contributo na área do jazz. Desta área é igualmente Maria João Grancha, uma das mais importantes vozes do jazz em Portugal. Ricardo Ribeiro é um conhecido homem do fado, de voz versátil e qualidade indiscutível. Recebeu o prémio de Melhor Intérprete Masculino atribuído pela Fundação Amália Rodrigues e foi está este ano nomeado para o Prémio Melhor Artista do Ano, pela revista inglesa Songlines. Os três aceitaram participar no disco, apoiado pela Câmara Municipal do Funchal, onde serão reinterpretados 12 canções do cancioneiro tradicional, algumas com vozes de convidados, outras a partir das vozes originais das recolhas, entretanto musicadas e arranjadas e tocadas por músicos convidados.

Parte das gravações decorrem em Lisboa por questões de logística, explicou o director artístico. Neste projecto há um trio base formado por este músico, na guitarra, viola de arame, rajão e braguinha; por António Quintino no contrabaixo e por Joel Silva na bateria e percussão. Desidério Lázaro no saxofone soprano, Francisco Andrade no saxofone tenor e Mariana Camacho na voz são outros artistas convidados. Mariana faz ainda parte do coro, com Diogo Tomás, Susana Nunes, Miguel Soares e Telma Pereira.

Na base estão 600 anos de gente a cantar numa ilha, 30 anos de recolhas dos Xarabanda, lê-se em www.mutrama.com, onde também se fala do disco que há-de ser lançado até ao final do ano.

Do passado para o futuro

Mas Mutrama é mais do que um álbum, é um projecto de divulgação e preservação deste património recolhido, a ser progressivamente disponibilizado no sítio da Internet, um espaço onde qualquer artista ou simples curiosos pode trabalhar a herança oral.

Um mundo por explorar

As recolhas começaram no início da década de 80 e ainda hoje a Associação liderada por Rui Camacho continua o trabalho. Canções de Natal, de trabalho, de embalar, baladas, mouriscas, despiques, xaramba e bailinho, cantigas, contos e lengalengas acumularam-se ao longo do tempo.

As recolhas são muitas, o reportório é “gigante”, revela André Santos, impressionado com o manancial. “Há canções que nunca mais acabam”, daí a certeza de que este é um projecto que merece continuação em mais discos.

André distribui os temas pelos intérpretes. Salvador Sobral já gravou ‘Noite Serena’, uma balada do Paul do Mar, Maria João vai gravar’ Pensação do Menino’, recolhida no Seixal, e Ricardo Ribeiro dará voz a ‘Camisinha do Menino’, recolhida na Camacha, com uma voz feminina ainda por anunciar. A madeirense Mariana Camacho deu voz a ‘Mourisca de Santana’ e ao ‘Baile da Meia Volta’ do Porto Santo.

André Santos confessa que a decisão de quem convidar não é uma coisa muito pensada. Quando ouve a música consegue atribuir uma voz. “Não forço nada. (...) É um processo muito natural.”

Do mestrado para Mutrama

O guitarrista fez um mestrado em Amsterdão sobre cordofones madeirenses e foi nessa investigação que se cruzou com as recolhas da Associação Xarabanda. Ficaram admirados com o interesse e sensibilidade para esta música “mais simples”, contou. A par do gosto pelos cordofones, a ligação às raízes, à sua origem têm um significado mais forte e justificam o interesse pelo presente projecto.

Mutrama deverá ser promovido na Madeira e no continente. Um dos propósitos da criação do projecto é precisamente a divulgação do reportório fora e a preservação através de arranjos mais modernos. Ao tocar lá fora, André Santos quer que as pessoas “percebam que há mais do que bailinho e do que o Max que toda a gente conhece”.

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