Mundo com muitos livros requer atenção

Mais do que escrever, hoje Isabel Minhós Martins quer dar espaço a outros

22 Abr 2017 / 02:00 H.

Integrado na iniciativa ‘Conversas com um Escritor’ e na celebração do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, Isabel Minhós Martins esteve ontem a falar com crianças de várias turmas de 1.º ciclo sobre as suas obras no Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira (IBM) , uma conversa frontal, com direito a todo o tipo de perguntas. Onde vai buscar inspiração, qual a personagem que mais gosta, o que faria se a impedissem de escrever foram apenas algumas, ponto de partida para respostas alargadas, criativas e que aguçaram o desejo de ler a colecção.

Os pequeninos vieram com a lição estudada. Estiveram a trabalhar duas obras de Isabel Minhós Martins desde Novembro e foi com facilidade que entraram no universo das histórias infantis. As crianças ainda a surpreendem, confessou. A incerteza sobre o que vai encontrar nessas sessões é permanente, a interacção passa muito pelos professores, pelos responsáveis pela biblioteca nas escolas. “Já tive excelentes surpresas e também já tive algumas desagradáveis. Neste caso foi excelente”, disse a escritora.

Nas cadeiras estavam sentadas crianças das escolas dos Ilhéus, Areeiro e do Galeão, quatro, turmas, uma de cada ano do primeiro ciclo. A pergunta que mais a surpreendeu foi ‘qual a ideia mais maluca que já teve para um livro’. Mas gostou também da que lhe puseram sobre a inspiração, mesmo que seja recorrente. “Ainda há um bocadinho aquela ideia de que a inspiração, ou que os escritores, os artistas ou os ilustradores são preguiçosos e estão sentados à espera que as ideias caiam. Eu gosto sempre de desconstruir esse mito e explicar que é preciso muito trabalho para se conseguir fazer coisas novas”. Isabel explica que é estar à espera, mas é uma espera activa, em que é preciso estar preparado para a ideia, é preciso ver se alguém já a teve e ver se funciona. O resto é trabalho e representa 99% do produto final.

A escritora lisboeta tem quase três dezenas de livros publicados e tem uma editora, a Planeta Tangerina onde dá asas a livros com novos conteúdos. Lá as edições são limitadas. Tentam que os livros sejam novos no verdadeiro sentido. Defende a necessidade de conhecer muito bem as coisas que se fazem não só em Portugal, mas em todo o mundo. “E também um bocadinho de conhecimento do que é que os outros autores do passado fizeram para não acharmos que chegámos aqui e inventamos a pólvora”. “É verdade que há muitos livros e acho que não é só livros, acho que há muita informação no mundo e há muito tudo, há muitas palavras a circular e há muita comunicação a toda a hora e nesse sentido às vezes também é bom contermo-nos e não dizermos tudo.” No mundo dos livros também tem de haver esse filtro da qualidade, defende.

O trabalho enquanto editora passa por perceber que livros são precisos, o que é que faz sentido falar com as crianças neste momento. Sobretudo estar atenta, resumiu.

Como já tem muitos livros, a sua preocupação é encontrar novos autores para o Planeta Tangerina. “Acho que a minha preocupação não é tanto fazer mais livros meus, mas é fazer bons livros, de quem quer que seja.

Quanto a escrever para adultos, não entra nesse “campeonato”.

Isabel Minhós Martins está hoje em nova actividade no ABM. Vai assegurar a ‘Hora do Conto’, actividades semanal que se repete aos sábados às 11 horas, de participação livre.

2017 com centenas de novos leitores

Mais de 20 mil novos livros em média dão entrada todos os anos na biblioteca do ABM, obras que ficam ao dispor dos mais de 28 mil utilizadores registados. No ano passado mais de 40 mil livros foram consultados e praticamente 17.700 foram emprestados ao domicílio. A biblioteca não tem falta de obras, garante a directora do ABM. “Nós queremos é que os livros saiam das prateleiras e que sejam lidos”, disse Fátima Barros ontem, nas celebrações do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, que oficialmente se comemora no dia 23.

A biblioteca do ABM é depositária do Depósito Legal. Tudo o que é editado a nível nacional chega ao espaço localizado em Santo Amaro em pelo menos um exemplar Há também muitas ofertas, não apenas de bibliotecas inteiras mas de livros avulso, de pessoas que lêem e depois entregam para que outros possam desfrutar do prazer da leitura. Só nos primeiros meses deste ano já foram introduzidos 5.815 novos registos na biblioteca, inscritos 345 novos utilizadores, registadas 6.247 utilizações da sala de leitura e consultados mais de 11.600 documentos, números que mostram a importância do espaço. Para casa seguiram também 4.612.

No ano de 2016 ano passado cerca de 30 mil livros foram registados, carimbados, catalogados. Para levar para casa, os utilizadores escolhem principalmente literatura, sobretudo literatura infanto-juvenil, conta a directora. Levam também livros mais científicos de apoio à formação, obras que só estão disponíveis para sair da biblioteca quando existem têm mais de um exemplar.

Secretário da Economia, Turismo e Cultura encontra respostas nos livros

José Eduardo Jesus é um amante de livros, companheiros de vida. É com eles que aprendemos, diz, depois vem o desejo de escrever um. Ele já escreveu dois técnicos e um de história sobre o primeiro automóvel que circulou na Madeira.

Gosta de livros diferentes. É capaz de consumir um livro técnico com o mesmo entusiasmo com que lê um livro de história. Não é dado aos romances, nem mesmo aos policiais, contou. Os de filosofia e história estão no topo das suas preferências literárias.

Em determinadas altura da vida houve alguns que foram especiais e houve mesmo situações em que na subtileza de uma passagem encontrou respostas, contou. “Tive a felicidade de em momentos especiais da vida estar acompanhado pelo livro certo. E isso faz diferença quando estamos perante uma decisão ou uma indecisão ou perante uma dificuldade ou uma oportunidade, parece que recebemos uma mensagem (...). Quando estamos rodeados de livros, essa oportunidade surge com mais naturalidade”.

A sua experiência governativa poderá dar outros livros. Para já tira-lhe tempo para a leitura que não seja mais técnica, dos dossiers. “Tenho muita pena que deixei de ler ao ritmo que lia e de ler aquelas coisas que são os verdadeiros complementos da vida que nos levam para outras dimensões e acima de tudo nos fazem perceber que a nossa própria existência não tem a ver só com aquilo que fazemos, mas com aquilo que somos capazes de reflectir, de pensar, de imaginar e até mesmo de transmitir, muitas vezes sem saber que sabemos aquilo que estamos a conseguir explorar”, confessou.

Gosta de livros que representam um maior desafio, que lhe colocam dúvidas e acima de tudo que colocam perspectivas diferentes. Gosta de ter acesso a diferentes pontos de vista. A diversidade e o debate, acredita, permitem evoluir. “Eu detesto tudo o que é muito igual. No que é igual nunca há ruptura, não há evolução, não há crescimento. Há todo um acomodar, todo um ficar”.

O livro tem um lugar especial na sua vida. Encontra nele o conforto da leitura e, confessa, prefere a versão em papel.

O secretário regional da Economia, Turismo e Cultura esteve ontem na sessão da manhã das ‘Conversas com um Escritor’, onde recomendou a leitura às crianças.

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