Mostra internacionaliza património artístico regional

António Filipe Pimentel, director do Museu Nacional de Arte Antiga

Lisboa /
02 Nov 2017 / 02:00 H.

É já no próximo dia 15 de Novembro que será inaugurada, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), a exposição ‘As Ilhas do Ouro Branco. Encomenda Artística na Madeira (séculos XV - XVI)’, evento que marca o arranque das comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira. Para este grande evento de carácter cultural e artístico, cerca de uma centena de obras de arte de museus tutelados pela Direcção Regional da Cultura, Diocese e Câmara do Funchal, assim como peças de várias paróquias da Região e outras de coleccionadores privados, viajaram para Lisboa onde serão apresentadas publicamente numa das maiores mostras organizadas este ano pelo MNAA.

Em entrevista ao DIÁRIO, o director daquele museu, António Filipe Pimentel, fala sobre esta exposição e como tem corrido a montagem, enumera algumas obras que entende serem elementos-chave da mostra e revela que esta se vai estender por 9 salas da Galeria de Exposições Temporárias do MNAA. Recordando que o MNAA tem vindo a ganhar cada vez mais protagonismo internacional, o director acredita que a exposição ‘As Ilhas do Ouro Branco. Encomenda Artística na Madeira (séculos XV - XVI)’ vai “contribuir poderosamente para a internacionalização do património artístico madeirense” e ficará na História como “um importante ponto de viragem na percepção nacional e internacional da Madeira”.

Dentro de duas semanas, é inaugurada no Museu Nacional de Arte Antiga a exposição ‘Ilhas de Ouro Branco’. Como está a correr a preparação desta exposição? Muitíssimo bem: com toda a máquina a vapor, mas sob total controlo, como é característico do MNAA. Neste caso com a vantagem acrescida da excelente relação operativa criada com as estruturas culturais da Madeira.

Cerca de uma centena de obras, de várias instituições da Região, a serem transportadas para Lisboa... Acredito que o processo tenha sido complicado... Mais do que complexo é delicado, como sempre ocorre com todos os processos de manuseamento e transporte de obras de arte. Porém, também isto é um processo de rotina para o MNAA e o conjunto de profissionais envolvidos - os da nossa equipa, os da equipa madeirense ou os técnicos especializados - garante absoluta tranquilidade. O que não quer dizer, obviamente, que não se trate de processos meticulosos, onde o rigor das práticas é quase obsessivo. Mas nada de mais.

E a montagem, já está em curso? Mais do que em curso, já está, naturalmente, em fase de conclusão. Um processo desta natureza, com inúmeras e tão diversificadas frentes, envolvendo obras de extrema sensibilidade e em tão grande número, exige que tudo se processe de acordo com um cronograma rigoroso, que não se compadece com pressas nem improvisos...

Como será organizada a exposição? Haverá algumas peças a merecer maior destaque? A exposição evoca o encontro com a terra virgem e a sua posterior organização administrativa, religiosa e económica. E, claro, o ciclo da produção açucareira (o “ouro branco”) também no seu domínio simbólico, não menos importante. Mas não fala só de arte e património; fala também desses homens e mulheres de há quase seis séculos, que lançaram as bases da Madeira de hoje e que “existem” fisicamente em pinturas, túmulos, documentos. É um trecho da História onde a natureza e o Homem são dimensões incontornáveis. Entre as quase cem obras reunidas há, naturalmente, diversas (um grande número) que merecem uma atenção particular, traduzida, naturalmente, no próprio projecto museográfico, que vai destacando a sua presença ao longo do fio condutor da mostra, que se estende por 9 salas da Galeria de Exposições Temporárias do MNAA. Mas todas elas merecem ser vistas com atenção.

Na sua opinião, quais as peças mais importantes desta exposição? São inúmeras. Mas será objectivamente difícil não referir a cruz processional, oferecida por D. Manuel I à Sé do Funchal, ou os grandes trípticos de pintores flamengos, da 1ª metade do século XVI, com representação dos seus encomendadores; ou uma magnífica Virgem com o Menino, da Ribeira Brava, que é, certamente, uma das esculturas flamengas mais belas do património português; ou o conjunto de pinturas do também flamengo Michiel de Coxcie, já do final do século XVI, expressamente restauradas para a exposição. E não é possível não falar do tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia, de Jan Provoost, proveniente da antiga Capela de São João de Latrão de Gaula, que é uma das jóias da colecção do MNAA e que não poderia, evidentemente, deixar de ser integrado.

‘Ilhas de Ouro Branco’ será o momento ideal para mostrar ao mundo a riqueza do património artístico da Região, desconhecido por muitos, mesmo aqui na Madeira? Estou em absoluto convencido disso. Ao ser a grande exposição da temporada num museu que tem crescente protagonismo internacional e dotada também de catálogo em versão inglesa (como é nossa prática), vai contribuir poderosamente para a internacionalização do património artístico madeirense. Aliás, foi essa a própria génese deste projecto, tanto para a Região como para o MNAA, que tem por missão justamente a promoção e afirmação do património nacional.

O facto de ser o momento de arranque das comemorações dos 600 anos da descoberta da Madeira e Porto Santo, faz desta mostra um evento sem igual, mesmo para o MNAA? Cada exposição é uma exposição e cada projecto do Museu é sempre um projecto de prestígio, seja quando envolve colecções nacionais, seja quando apresenta, como faz recorrentemente, acervos internacionais de referência. Aliás, mesmo nas exposições dedicadas à arte portuguesa (como ainda recentemente em “Josefa de Óbidos” ou “A Cidade Global”) é contínua a presença de empréstimos internacionais. O que pode dizer-se é que o MNAA pôs nesta exposição o grande empenho que coloca em todas, com uma especial ligação afectiva, se quisermos, que decorre das relações estreitas de trabalho com as instituições madeirenses e da relevância, obviamente nacional, das comemorações.

Nos últimos anos, o MNAA tem reforçado o estatuto de ‘museu bandeira’. Esta exposição ‘Ilhas do Ouro Branco’ é prova disso? Decerto. O facto de o Governo Regional ter entendido que o programa das comemorações deveria iniciar-se, antes ainda do ano simbólico de 2018, por uma grande exposição concebida e coordenada pelo Museu Nacional de Arte Antiga e aqui apresentada é a prova cabal do que acaba de afirmar.

Quais as suas expectativas relativamente a esta grande exposição? Que toda a gente compreenda que é, obviamente, um evento imperdível. E que dê um sinal de partida para uma programação em força e com o elevado nível que a Madeira merece, posicionando o arquipélago como inquestionavelmente deve ser: não somente um excelente destino turístico, mas um destino cultural relevante, granjeando-lhe uma nova centralidade no contexto nacional. Se cumprirmos todos juntos esse desígnio, a exposição ficará na História como um importante ponto de viragem na percepção nacional e internacional da Madeira. É para isso que todos trabalhamos. E trabalhamos tanto...

E a inauguração também promete? Já tem a lista de convidados pronta? A inauguração será uma grande festa, como sempre são as grandes inaugurações no MNAA. Porém, desta vez, com um toque madeirense que, obviamente, não poderia faltar. Haverá excelentes surpresas. Também por esse lado creio que ficará na História... A lista dos convidados é a usual do Museu, acrescida, naturalmente, da específica da exposição, incluídas todas as pessoas que o Governo Regional entendeu indicar.

O MNAA tem tido vários projectos em parceria com a Região, sobretudo com os museus geridos pela Direcção Regional da Cultura, mas também com o Museu de Arte Sacra. Esta são parcerias com futuro? Isso não compete ao MNAA afirmar. O que posso dizer é que, por nossa parte, estamos sempre dispostos a colaborar com todas as instituições nacionais e que, como refere, foram criadas relações de parceria com diversas instituições da Região, que deram frutos e em cujo âmbito se inscreve agora esta grande exposição. Se ficaremos por aqui ou se ensaiaremos passos ainda mais largos não depende do Museu, o qual, repito, estará sempre inteiramente disponível.

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