Meia centena de músicos abre a alma em documentário

‘Faça-se Luz’ pergunta como exportar música e músicos madeirenses

16 Set 2017 / 02:00 H.

‘Faça-se Luz’ é o título do primeira longa-metragem não ficção da realizadora Cristina Vieira, um trabalho sobre o universo das bandas madeirenses. Subintitulado ‘Insularidade: A Criação Cativa?’, o documentário independente acaba por revelar em 1h30 o dilema vivido de perto pelos que tendo abraçado a música não conseguem atravessar o mar. Mais de meia centena de artistas responderam à pergunta ‘Como exportar a música e os músicos madeirenses para o mundo?’, questão esta que mais do que respostas, coloca muitas interrogações. O filme estreia esta tarde, pelas 14h30 no Museu da Electricidade da Madeira, apenas para convidados.

São 54 músicos de originais que aqui dão a cara e a voz em defesa de um problema ‘com barbas’, um trabalho realizado ao longo de meses por uma equipa reduzida, basicamente a realizadora e Nuno Filipe, ela mais dedicada à componente técnica, ele às entrevistas. A pretexto de encontrar uma resposta para um problema comum - nos dois sentidos -, abre-se um universo de questões e sugestões na esperança que encontrem eco algures.

A mais de centena de participantes representa 35 bandas de vários estilos musicais, do rock ao pop, passando pela música alternativa, metal e tradicional, alguns respondem a partir do estrangeiro onde exercem a actividade. São todas bandas no activo, algumas delas a tocar desde os anos 80. Por isso, a par do convite à reflexão sobre uma problemática que não sendo nova não tem tido resposta, ‘Faça-se Luz’ acaba por ser também um documento histórico, na medida em que abrange várias décadas de música e uma ferramenta para quem quiser conhecer e contratar músicos.

A questão de partida pede uma resposta. “As conclusões são ainda mais perguntas”, assume a realizadora, com naturalidade. “No fundo foi fazer as pessoas pensarem sobre uma questão que todos nós falamos entre nós no café, perguntamos como é que é possível ser residente na Madeira e ter uma carreira internacional ao mesmo tempo? Onde estão os apoios para estas saídas? Porque no fundo o nosso handicap é este mar maravilhoso que nos rodeia, mas também nos limita de alguma forma”. Os entrevistados comparam por exemplo a Madeira com outras regiões ultraperiféricas e como tentaram ultrapassar a questão.

“Eu sinto sobretudo que todos querem mais ou menos a mesma coisa. Esta vontade de crescer é comum a todos os projectos e a todos os músicos. Alguns podem não estar tão activos também por esta desmotivação de não ter um horizonte de perspectivas”. Cristina Vieira sabe do que fala. Faz parte do grupo Banda de Além, de Mário André. Sente que se houvesse, todos cresciam.

A selecção dos entrevistados não foi aleatória. A realizadora explica que foram escolhidos porque têm um produto capaz e pronto a ser exportado. Há projectos que não têm a visibilidade desejada e que espera que com o filme ganhem alguma.

“Se este documentário obtiver uma resposta por parte das entidades competentes, o objectivo foi amplamente conseguido. Mas o meu objectivo pessoal foi pôr a questão cá fora, tornar a questão pública. Não me compete a mim solucionar um problema, eu enquanto realizadora compete-me reflectir sobre estas questões.”

A qualidade existe, diz, é reconhecida dentro e fora. A ponte, não. E não deve ser o mar a limita, defende. E dá exemplos de pessoas que conseguiram chegar ao outro lado. “É possível. A questão é como ou o que é que não está a funcionar para haver essa possibilidade”.

Ficará feliz por outro lado se a partir deste filme começarem a surgir respostas ou pelo houver essa consciência que alguma coisa tem de ser feita, ou feita de outra forma.

O documentário parte da pergunta posta logo no início. Depois, durante uma hora e meia são as respostas das 54 pessoas encadeadas umas nas outras. “Tivemos de fazer o castelo crescer de forma a ter lógica, de forma à mensagem ser clara e objectiva e de forma a que a mensagem passe para o outro lado”.

O projecto é sem fins lucrativos. O filme vai ser colocado na Internet para que mais pessoas possam aceder, não nesta fase. Antes Cristina quer ver se consegue colocar a concurso.

Têm uma proposta da Pipinoir Expressão Criativa, na Rua dos Aranhas, para fazer algumas sessões até ao final do ano. O Teatro Baltazar Dias também já mostrou interesse em ter pelo menos uma sessão para o público em geral. Tudo em data a definir.

O documentário na primeira pessoa

“Neste processo todo eu também cresci, também aprendi a fazer outro tipo de trabalho. Eu num videoclip tenho quase que trabalhar a minha criatividade, tudo é permitido, eu posso dar muitas voltas à temática. Aqui não. Aqui eu tenho de ser objectiva e tenho de fazer sentido, tenho uma mensagem muito clara para passar, não pode ficar no obscuro ou na dúvida. É também um trabalho criativo no sentido do todo, mas a soma das partes tem de ser muito certinha. Eu tenho de ser o mais correcta e genuína possível porque as pessoas abriram-se para mim”. Criar este documentário foi muito mais complexo do que os outros trabalhos já realizados até agora, confessou, nomeadamente de telediscos que tem criado e com os quais tem somado prémios.

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